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Hope

«Hope», do realizador coreano Na Hong-jin, entrou na Competição de Cannes como quem arromba a porta de um templo budista com uma carrinha em chamas, três extraterrestres no porta-bagagens e uma aldeia coreana inteira a gritar: “era só um animal!”. Dez anos depois de “The Wailing – O Lamento”, o realizador regressa com 160 minutos de caos rural, ficção científica, tiros, humor negro e uma magnífica falta de respeito pela solenidade festivaleira. A história passa-se numa localidade perto da fronteira entre as duas Coreias, onde o chefe da polícia, interpretado por Hwang Jung-min, tenta perceber se aquilo é um tigre, um alienígena ou simplesmente mais um dia péssimo para a administração local. Jung Ho-yeon (“Squid Game”) surge em modo lança-granadas emocional, enquanto as estrelas internacionais Michael Fassbender e Alicia Vikander aparecem como criaturas de outro mundo, o que em Cannes tanto pode ser elogio como diagnóstico. É excessivo, irregular, comprido e barulhento? É. Mas também tem vida, músculo e loucura. Cannes, a certa altura, já precisava de café. Na Hong-jin trouxe monstros para agitar a malta.

José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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