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Hope

San Sebastián reservou espaço de honra para «Hope» em sua programação, mas os seus ingressos esgotaram-se num piscar de olhos para o padrão do festival Basco. É um sinal de que um hit se forma.

Corpo estranho face aos padrões mais aburguesados de conduta dos grandes festivais de cinema do mundo, numa dinâmica de ação, horror e fantasia digna da estética de John Carpenter — mas com código postal sul-coreano —, «Hope» candidatou-se ao posto de “filme escândalo” de Cannes em 2026, à maneira do que «Titane» representou em 2021. A taxa de sangue derramado e, sobretudo, de invenção é semelhante, embora os destinos no palmarés tenham sido opostos: se Julia Ducournau saiu da Croisette com a Palma de Ouro, Na Hong-jin não recebeu qualquer prémio do júri de Cannes por «Hope». Isso não diminui a dimensão da experiência. Realizador de culto do cinema de género autoral asiático, celebrado no festival desde «The Chaser» (2008), Na Hong-jin regressou às longas-metragens dez anos depois de «The Wailing» (2016) com uma ficção científica capaz de cruzar o desespero cósmico de «The Thing» (1982), de Carpenter, com o comentário político de «The Host» (2006), do seu compatriota Bong Joon Ho.

A aproximação a Bong Joon Ho não é gratuita. «The Host» transformava um monstro nascido da contaminação do rio Han numa sátira às relações de poder e ajudou a preparar o terreno autoral que levaria o realizador a «Parasite», Palma de Ouro de 2019 e vencedor de quatro Óscares, incluindo Melhor Filme. «Hope» trabalha numa frequência semelhante: o fantástico não funciona como fuga da realidade, mas como instrumento para a observar. Talvez não seja um novo «Parasite» em termos de repercussão — até porque Cannes lhe negou qualquer troféu —, mas há nele uma ambição geopolítica e naturalista comparável. As suas destrezas formais são notáveis, a começar pela montagem de Kim Sun-min, pela música de Michael Abels e, sobretudo, pela fotografia de Hong Kyung-pyo, colaborador de Na em «The Wailing» e também responsável pelas imagens de «Parasite».

Se «The Host» apostava num peixe monstruoso, «Hope» traz extraterrestres que podem fazer lembrar os Na’vi de Avatar, mas Na Hong-jin está menos interessado na tecnologia enquanto espetáculo do que naquilo que a chegada de um corpo estranho provoca numa comunidade. Numa vila rural junto à Zona Desmilitarizada entre as duas Coreias, a descoberta de uma vaca esquartejada mobiliza a polícia local, liderada por um tenente interpretado com extraordinária energia por Hwang Jung-min, e uma leva de habitantes armados. Nas proximidades do animal morto, ouve-se um uivo que não corresponde a nenhuma criatura terrestre. A presença alienígena instala-se antes de ganhar corpo, num dispositivo narrativo próximo daquele que Steven Spielberg utilizou em «Jaws» (1975): primeiro vem a ameaça; só muito depois o espectador recebe autorização para olhar diretamente para ela.

Mesmo sem vermos a criatura, acompanhamos o seu rasto de destruição e a correria de personagens que não querem servir de petisco a esse ser. Na recusa o heroísmo clássico, feito de coragem, sabedoria e temperança. O tenente e aqueles que o acompanham são criaturas falíveis, por vezes trapalhonas, apanhadas por acontecimentos que não conseguem compreender. Há algo do Carpenter de «Assault on Precinct 13» (1976) nessa dramaturgia de sobrevivência, mas a correria de «Hope» está associada também aos prazos de validade deste planeta. O monstro que matou a vaca é apenas o primeiro sinal de uma invasão. E talvez “invasão” nem sequer seja a palavra correta. Na deixa pairar a hipótese mais perturbadora: o contacto pode não representar uma colonização, mas simplesmente a constatação de que culturas, espécies e identidades estão condenadas a mudar e a misturar-se, por mais que a intolerância tente erguer fronteiras.

A escala dessa parábola ajuda a perceber por que razão «Hope» se tornou a produção sul-coreana mais cara realizada até então. O orçamento rondou os 46 milhões de dólares, investimento visível na amplitude das sequências de ação, nos efeitos visuais e numa produção que ultrapassou as fronteiras da Coreia do Sul. A rodagem principal decorreu em 2023, com passagens por Bukpyeong-myeon e Haenam, mas avançou também pela Roménia, incluindo as montanhas Retezat e o respetivo parque nacional. Uma sequência com um cavalo a atravessar a floresta foi rodada recorrendo à luz natural, exemplo revelador da procura de Na e Hong Kyung-pyo por uma dimensão física e telúrica mesmo quando lidam com criaturas vindas do espaço.

A própria génese do projeto revela a dimensão da aposta. Na Hong-jin começou a desenvolver «Hope» a partir de uma única imagem que lhe surgiu enquanto comia num restaurante, em 2017 ou 2018. Houve, numa fase inicial, conversações para uma colaboração com Alfonso Cuarón, embora o mexicano não tenha integrado a produção final. Na Hong-jin escreveu, realizou e produziu o filme, fazendo dele o seu primeiro trabalho de longa duração desde «The Wailing». O resultado estreou em Cannes, a 17 de maio de 2026, numa versão de 160 minutos, posteriormente reduzida para 156, antes da estreia sul-coreana, a 15 de julho.

A internacionalização estende-se ao elenco. Ao lado de Hwang Jung-min estão Zo In-sung e Hoyeon, estrela mundial desde «Squid Game», além de Taylor Russell e Cameron Britton. Alicia Vikander e Michael Fassbender, casados na vida real, voltaram a contracenar pela primeira vez desde «The Light Between Oceans» (2016) e interpretam personagens que não falam coreano, fazendo da própria barreira linguística uma peça da estranheza cultural que estrutura a narrativa. A dimensão internacional do elenco, contudo, nunca dilui o endereço de origem coreano de «Hope»: é da divisão histórica da península, das suas fronteiras e dos seus medos que o filme extrai grande parte da tensão.

A aposta financeira ainda não encontrou equivalência comercial. Contra os 46 milhões de dólares investidos na produção, «Hope» arrecadou cerca de 41,6 milhões de dólares nas bilheteiras mundiais, ficando abaixo do orçamento nominal antes mesmo de serem considerados os custos de promoção e distribuição. É uma conta pouco confortável para uma superprodução, mas ajuda a dimensionar o risco assumido por Na Hong-jin: em vez de usar o maior orçamento da história do cinema coreano para fabricar um produto internacional domesticado, empregou-o numa obra estranha, longa, violenta e politicamente inquieta.

É justamente por representar essa liberdade que «Hope» incomoda. Dividiu opiniões em Cannes, provocou críticas nervosas e adesões apaixonadas. É cinema fantástico entendido não como género menor, mas como espaço de invenção, encontrando na ação — por vezes com a combustão cinética de John Wick — uma gramática para falar de fronteiras, medo do estrangeiro, contaminação e intolerância. Por linhas permanentemente patrulhadas, Na Hong-jin escreve aquela que pode ser a sua obra-prima.

Cannes não lhe deu prémios. Deu-lhe, porém, algo que por vezes interessa mais ao futuro de um filme: discussão. No encerramento da sua 79.ª competição, havia passado pela Croisette muita coisa boa. Pouca coisa, contudo, tinha a capacidade de «Hope» para sacudir certezas e devolver ao cinema de género o poder de provocar escândalo dentro do templo máximo do cinema de autor. Se um novo «Parasite» sobrevoou Cannes em 2026, o júri deixou-o partir sem Palma. O choque ficou.

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