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Os Rivais de Amziah King

Na fase inicial do argumento do filme «The Rivals of Amziah King» («Os Rivais de Amziah King»), 2025, o realizador e argumentista Andrew Patterson concentrou a acção na energia e na actividade de um apicultor do Oklahoma, figura carismática pelo modo como geria e congregava ao seu redor um inusitado grupo de colaboradores e empregados.

Mas o dito Amziah King (Matthew McConaughey) não se dedicava apenas ao mundo empresarial da produção de mel (a que obviamente atribuiu o nome de King Honey), já que nas horas vagas da região rural onde a maioria das personagens habita (gente que alguns apelidam rednecks, nem sempre pelas melhores razões), aquele simpático patrão e os seus camaradas de ofício são reconhecidos como músicos de um género muito apreciado por aquelas bandas, e não só, o Bluegrass. Trata-se de um género que cruza diversas influências e raízes musicais: deve muito aos ritmos e sonoridades, sobretudo acústicas, do folk anglo-saxónico introduzido pelos imigrantes e antepassados europeus e vai também buscar os sons mais originais da cultura afro-americana associada aos Blues e ao Jazz, sem esquecer a presença de uma certa espiritualidade relacionada com os preceitos da mais conservadora religião cristã que constitui a base de uma parcela significativa do relacionamento social mas não necessariamente uma cartilha para os parâmetros da vida em sociedade. Em geral, os valores que alguns defendem pecam por serem pouco éticos e decorrentes de uma leitura apressada e sectária da Bíblia, quando confrontados com a adversidade e com a necessidade de sobreviver aos ataques, lá está, dos rivais e demais adversários (incluindo os detentores de diferentes idiossincrasias), aliás, como iremos ver ao longo das sequências de maior impacto e no decorrer dos altos e baixos da narrativa.

Também numa fase inicial, Amziah King irá ser contactado pelos agentes do Oklahoma State Bureau of Investigation que procuram deslindar quem foi ou foram os autores de um importante roubo de mel. Tratando-se de um assunto que sobressalta qualquer um que se dedique a essa actividade e consequente negócio, a produção e comercialização de mel, o nosso homem convoca os seus mais próximos cúmplices para colaborarem de corpo e alma no inquérito e, estava escrito nas estrelas, num meio fechado onde as pessoas se conhecem nos mais corriqueiros pormenores do quotidiano, quem colabora com a polícia acaba por ser escrutinado e apontado como alvo a abater, sobretudo por quem habitualmente se esconde na sombra ou usa o seu poder económico para dominar o mercado e o submundo das negociatas de bastidores.

Será neste febril contexto de intrigas subterrâneas que Amziah King vai ser confrontado com o roubo das suas colmeias, crime que precipita a sua morte devido a problemas cardíacos que já eram do nosso conhecimento devido a um incidente, no mínimo sui generis , ocorrido durante os primórdios da referida investigação. Também já sabíamos nesta altura (a primeira parte do filme) que ele encontrara e acolhera, não apenas na intimidade do seu lar como na actividade profissional, uma jovem nativa americana de nome Kateri (Angelina LookingGlass), antiga filha de acolhimento que entretanto ficara desamparada ao perder a mãe. Esta singela figura que se integrara pouco a pouco nas rotinas do dia-a-dia de um homem multifacetado (o mesmo que passava com ela muitos serões em alegre e sonoro convívio musical com os amigos e vizinhos), irradiava simpatia e parecia não fazer mal a uma mosca. Mas perante o sucedido, a súbita morte do que passara a ser o seu mentor, e face ao que se prefigurava no legado que ele lhe deixara (o valor do negócio mas, diga-se em abono da verdade, igualmente as dívidas acumuladas), Kateri vai dar uma volta de cento e oitenta graus no seu comportamento. Com a determinação de uma mulher acossada jura iniciar por conta própria (enfim, com a ajuda de alguns simpáticos delinquentes) um inquérito e uma perseguição vingativa para determinar quem roubara o mel de Amziah King e de algum modo arruinara as perspectivas mais luminosas que antes se perfilavam rumo a um possível e radioso horizonte social, familiar e laboral.

Do ponto de vista estrutural, podemos dizer que a produção assume a partir deste ponto de viragem um imenso risco (sente-se a falta do actor Matthew McConaughey), não obstante decisivo para gerar uma renovada dinâmica, necessária ao posterior acumular dos conflitos dramáticos que, uns atrás dos outros, se precipitam numa resolução que exigia outra dose de credibilidade para sustentar o desenho das filigranas emocionais que geram o desenlace final. Salva-se da vertigem desses minutos finais um aspecto primordial, que importa referir: Kateri irá cometer um crime (e mais não digo) que, para os devidos efeitos, ficará impune. Justiça poética, com ambígua caução da polícia? Pergunta cuja resposta merece uma fria análise pessoal do espectador e uma incisiva visão crítica dos mecanismos ficcionais relativamente subversivos do argumento. Na prática, não podemos assinar de cruz apoiando ou condenando uma situação que encerra em si uma dose generosa de volubilidade. Todavia, podemos imaginar que se o Código de Produção (o infame articulado de censura mais conhecido por Código Hays) ainda estivesse em vigor, seria (quase) impossível escrever um guião assim.

De facto, neste filme só se aponta o dedo a quem nós sabemos que prevaricou e soube organizar as coisas de modo a passar por entre os pingos da chuva sem ser castigado. Assim sendo, fica-se perante o chamado pau de dois bicos. Por isso, não espanta que no derradeiro plano se acabe por aceitar como uma das mais belas e simultaneamente controversas imagens de redenção humana uma espécie de fusão entre o corpo da mulher e o seu misterioso poder ao sair vencedora face aos mistérios da apicultura e da própria Natureza. Plano que nos faz pensar na hipótese de um singular ciclo existencial: na proposta de «Os Rivais de Amziah King» começa-se por dar protagonismo ao Rei (Amziah King) que sabia lidar com abelhas e dominar o enxame ao segurar na mão com coragem e saber a respectiva Rainha (a Queen Bee) e, no final, concentra-se a atenção numa completa e nova Rainha, a ex-princesa Kateri, que ao vencer as forças do mal nos olha agora de frente, confiante, serena e com o ar de quem está pronta para enfrentar os desafios do futuro…! No plano individual e no do colectivo da “colmeia” que podemos identificar como sendo a comunidade a que passou a pertencer. E não nos admiremos que seja capaz de dar uma valente ferroada a quem se atravesse no seu caminho.

Filme surpreendente, vale a pena ir vê-lo num grande ecrã e, já agora, ouvi-lo, porque mais do que os seus pressupostos ficcionais, a banda sonora musical merece, sem favor, cinco estrelas.

Título original: The Rivals of Amziah King
Realização: Andrew Patterson
Elenco: Matthew McConaughey, Angelina LookingGlass, Kurt Russell
Duração: 130 min.
EUA/Reino Unido, 2025

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João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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