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Festival de San Sebastián 69 – Leonardo Martinelli

Festival de San Sebastián 69 – Leonardo Martinelli

Leonardo Martinelli e as novas pedaladas do Leopardo dourado
Rodrigo Fonseca no Festival de Cinema de San Sebástian

Apoiado na autoralidade de Zhang Yimou e seu «One Second» no seu lançamento, o 69º Festival de San Sebastián vai levar o vencedor do Leopardo de Ouro de melhor curta-metragem de 2021 para as suas telas, na mostra Nest: «Fantasma Neon». É um estudo sobre as incongruências sociais brasileiras a partir da jornada de um entregador de comida, João (vivido por Dennis Pinheiro), às voltas com preconceitos raciais e outras práticas de segregação. Silvero Pereira, o Lunga de «Bacurau» (2019), integra o elenco, que reúne intérpretes não profissionais. Música e dança entram em cena na narrativa de Leonardo Martinelli, como uma forma de sobreviver à aspereza do dia a dia, num debate sobre exclusões diversas. Na entrevista a seguir, feita por email com a METROPOLIS, Martinelli faz uma análise do dia a dia de quem cruza o Rio de Janeiro de bicicleta.

Qual era a realidade brasileira quando o filme foi rodado e que realidade ele encontra hoje? O que há de reflexo da pandemia nele?
Leonardo Martinelli:
O filme foi gravado entre o final de 2020 e início de 2021. A democracia brasileira já passava por um desgaste que parece só ter se enfatizado hoje. A extinção de direitos trabalhistas, que já vem ocorrendo no Brasil desde 2016, é um grande sintoma de democracias e economias em decadência. A pandemia atingiu o Brasil no pior momento possível, equipado de um governo inapto. Os entregadores foram e são alguns dos trabalhadores que mais sofreram com o descontrole do COVID. Apesar de o argumento do nosso filme preceder a pandemia, ela enfatizou as condições precárias que pretendíamos retratar.

O que a passagem por Locarno e, agora, o convite para o Festival de San Sebastián 69, vem trazendo de mais potente para a sua carreira como realizador?
Leonardo Martinelli:
Passar por festivais como Locarno e San Sebastián é o sonho de qualquer realizador, por muitos fatores. Além da carga histórica que esses festivais carregam, tendo sido propulsores das carreiras de muitos diretores do cânone mundial, eles também são eventos que trazem um público verdadeiramente amplo e internacional. A janela de visibilidade que eles alcançam é difícil de se igualar em outros eventos. E, afinal, os filmes existem para serem vistos.

 

O quanto esse musical dialoga com a tradição da chanchada, o gênero sul-americano que se praticou, no Brasil, de 1934 a 1962, num formato de comédia musical?
Leonardo Martinelli:
Buscamos fazer um diálogo com o cinema de género – no nosso caso, o filão musical – como uma plataforma para causar contrastes e irreverência, como já era de costume nas chanchadas [comédia popular]. O cinema brasileiro contemporâneo tem vários ótimos exemplos de filmes com gênero híbrido que usam dessas misturas para argumentar alguma questão político-social.

Que espaço existe para a comercialização das curtas no Brasil?
Leonardo Martinelli:
Infelizmente, não há muita valorização para a curta-metragem como um todo. No Brasil, essa situação se enfatiza, já que até longas nacionais passam por dificuldades em conseguir espaços aqui. Dessa forma, a curta acaba sendo tratada como coadjuvante de algo que já não é muito valorizado. Esse fenómeno ocorre por uma maior dificuldade de comercialização desses filmes. Isso é lamentável em muitos níveis, pois o curta pode ser um formato capaz de subverter muitas estruturas da linguagem cinematográfica e trazer abordagens inovadoras. Além disso, também pode ser uma plataforma para novos talentos, revelando realizadores de regiões periféricas. Por conta disso, é fundamental pensar em mais ações de investimento, tanto na produção quanto na veiculação da curta-metragem brasileira.