Começamos em 1930, no primeiro ano do período que viria a ser descrito por W. H. Auden como a “low dishonest decade” [poema “September 1, 1939” em “Another Time”, 1940]. De Oeste vinham os eflúvios da crise económica gerada pelo crash de 1929; do Leste, os movimentos radicais extremistas do comunismo e fascismo ameaçavam a Democracia, a Monarquia e a Ordem social. A Economia estagnava e o desemprego grassava. O sistema social britânico, ainda muito hierarquizado e cristalizado em redor de ideais de classe e de valores estruturais impermeáveis, via surgir pequenas brechas nas sólidas e clássicas colunas de mármore das suas instituições. Num mundo que começava a mudar demasiado depressa as várias classes sociais foram empurradas a se repensarem. Um dos temas fracturantes que iria marcar esta época foi o do divórcio. Em 1936, uma hecatombe acontece quando o Rei Eduardo VIII decide abdicar do trono para se unir à duas vezes divorciada plebeia americana Wallis Simpson; e, no ano seguinte,o Matrimonial Causes Act expande as causas pelas quais se podia dissolver um matrimónio. No início da década este era ainda um tema quase silencioso e muito estigmatizado e o adultério era praticamente a única justificação jurídica permitida para que fosse concedido. Mesmo tendo vastos meios económicos e um egrégio patronímico, uma mulher divorciada podia ver-se ostracizada socialmente e ter a reputação arruinada. E a tónica do filme irá ser justamente colocada na Lady Mary (Michelle Dockery) que vivencia o escândalo do seu divórcio e é excluída de certas ocasiões sociais. Para uma britânica de “upstairs / high society” o divórcio representava uma quebra não só de laços pessoais mas da norma moral, religiosa e da reputação familiar, sendo a divorciada (e não tanto o divorciado) punida com vergonha pública e isolamento comunitário. O filme tira partido desta particularidade para criar conflito dramático, mas também para evidenciar até que ponto essas regras rígidas estavam a começar a ser questionadas pelo progresso social, pelos efeitos da guerra anterior e da mudança do papel das mulheres nesta nova realidade.

Houve, igualmente, um cuidado em explorar as pequenas vivências e destinos das várias personagens que aprendemos a amar. Contudo, uma das maiores dificuldades em adaptar uma série de televisão para o cinema é ajustar ritmo e escala: os episódios permitem pausas assim como subtramas longas e um desenvolvimento lento. Um filme exige compressão e foco. «Downton Abbey» sempre teve um ritmo relativamente cadenciado — com episódios cheios de diálogos, interações sociais, slow-burn drama, episódios “upstairs/downstairs”, momentos de humor subtil, etc. Em “Grand Finale”, esse ritmo mais pausado é mantido em muitos momentos, com boas cenas, mas há também tentativas de acelerar algumas subtramas para encaixar o todo no tempo do filme. Por vezes essa transposição funciona: cenas emotivas têm mais carga, o espectador sente que os laços entre personagens já familiarizados têm mais peso; outras vezes sente-se que algumas subtramas estão comprimidas demais ou resolvem-se apressadamente a bem da narrativa. Por exemplo, a crise económica dos Crawley ou os problemas com o investimento de Harold Levinson (interpretado por Paul Giametti) são importantes, mas o tempo dado para explorar a tensão interior de personagens, relativamente secundários, é menos do que na série. O filme escolhe priorizar o core da família mas algumas pontas menos centrais ficam um pouco desvanecidas. Em geral, mantém-se o charme visual, o cenário, o figurino, o som de época — elementos fortes que fazem com que o ritmo nunca se torne abruptamente chocante. Mais: visualmente mantém a qualidade a que nos habituou. Os figurinos de Anna Mary Scott Robbins (em especial, o deslumbrante vestido encarnado, de corte em viés, usado por Lady Mary) ficarão, com certeza, como referência na História do cinema.

Mas houve fraquezas. Arty Froushan interpreta o complexo e exuberante Noël Coward, figura literária e cultural britânica reconhecida não só pela sua obra (peças, música e letras), mas também pelo seu estilo muito próprio e presença refinada: a persona de dandy, de espírito rápido, sofisticado, sarcástico, marcado por uma certa ambiguidade sexual e pela sua aguda inteligência social. O filme tenta mostrar momentos altos dessa persona: Coward aparece no teatro, interage com os Crawley, ajuda Mary a superar a exclusão social e inspira-se no divórcio dela para dramatizar uma das suas mais populares comédias de costumes, “Private Lifes”. Em suma, gestos que fazem sentido para o seu papel enquanto figura de ponte entre tradição aristocrática e modernidade cultural. No entanto, sinto que Froushan nem sempre consegue captar a essência inteira de Coward. Em primeiro lugar, há uma certa suavização das arestas: Coward era mais mordaz, mais ácido, mais sugestivo; o seu wit revestia-se da ironia refinada de um Oscar Wilde para o século XX . No filme, Coward é apresentado num tom bastante polido, amigável em demasia a servir mais como catalisador moral/social para Mary do que como personagem autónomo. Embora Froushan se tenha esforçado (chegou a aprender a tocar piano para o papel) há momentos em que a encenação de Coward parece idealizada: mais decoração que tumulto de sombras que realmente existiram na figura real. No fundo, Coward a ser representado como de facto o era, deveria estar lá para introduzir a verve e humor corrosivo da figura da irrepetível Violet (Maggie Smith), agora ausente.

No seu todo, «Downton Abbey: The Grand Finale» funciona bem como um desfecho da saga para os admiradores da série. Oferece o tipo de conclusão que muitos vão desejar: as reconciliações, o reconhecimento do legado, a passagem da “coroa” e a adaptação serena aos novos tempos. Há cenas emotivas que resultam precisamente porque investiram nos personagens ao longo de muitos anos e esse legado de série pesa a favor: conhecemos a família Crawley, sabemos o que perderam e o que temem, o que conquistaram e o que amam. No seu conjunto o filme cumpre a função de despedida com dignidade e elegância. Visualmente deslumbrante, com figurinos e cenários que recriam a atmosfera de um mundo em declínio, o filme oferece ao espectador momentos de emoção e de reconciliação, encerrando histórias que acompanharam os admiradores durante anos. A ausência de Violet, outrora alma irónica e mordaz da narrativa, é sentida de modo pungente e por vezes parece impossível preencher o vazio deixado pela sua voz. Ainda assim, a obra proporciona aos fãs o consolo de um adeus coerente, evocando os valores da família, da tradição mas também da mudança inevitável. Se não ousa questionar de forma profunda os abismos políticos, económicos e sociais que a década de ’30 prenunciava, não deixa de funcionar como celebração nostálgica de um tempo passado e de um modo de vida que se extinguia. No fim, o espectador é convidado a despedir-se não apenas de personagens queridas, mas de toda uma mundivisão envolta em esplendor, disciplina e delicadeza, cujas fragilidades se revelam tanto mais tocantes quanto mais sabemos que jamais voltarão. Ainda assim, deixa-nos um sinal de esperança: como a páginas tantas afirma Mary, “Long live Downton Abbey!”
Título original: Downton Abbey: The Grand Finale Elenco: Michelle Dockery Joanne Froggatt, Elizabeth McGovern, Laura Carmichael, Dominic West, Paul Giamatti, Hugh Bonneville, Alessandro Nivola Duração: 123 min. Reino Unido/EUA, 2025

