No poema de Paul Éluard (1895 – 1952), publicado em 1942 e distribuído como panfleto mobilizador contra a ocupação da França pelos nazis e contra o conluio fascista agregado ao governo fantoche do Marechal Pétain, sediado em Vichy, o poeta militante evoca por diversas vezes um nome (sem ser cabalmente nomeado) ao longo das vinte e uma estrofes. Por fim, esse nome era revelado: LIBERDADE. No decorrer da leitura já se pressentia o poder imenso dessa palavra, o nome inicial, inteiro e limpo (como o dia no poema da poeta Sophia de Mello Breyner, a alvorada libertadora do 25 de Abril de 1974). Palavra única e inconfundível, cuja vocalização se confunde com o sentido primordial de quem deseja viver de costas erguidas sem se curvar aos opressores. Recordemos os derradeiros versos do poema “Liberté”: Et par le pouvoir d’un mot/ Je recommence ma vie/ Je suis né pour te connaître/ Pour te nommer/ Liberté (E pelo poder de uma palavra/ Renasço para a vida/ Nasci para te conhecer/ Para te nomear/ Liberdade).
Esta introdução serve para enquadrar a segunda parte de um projecto intitulado «La Bataille De Gaulle» («De Gaulle: Liberdade»), 2026, cujo subtítulo no original, “J’ Écris Ton Nom”, faz ligação directa ao citado poema, associando a palavra que não se diz mas está lá ao nome do protagonista de quem se fala, Charles De Gaulle (Escrevo o Teu Nome). Paralelismo que se inscreve na exaltação de um quadro de valores materiais e espirituais “maiores do que a vida”, como aqueles que perduram e se irão enfatizar na herança dos quadros exemplares da História de França e no perfil de quem ao longo dos séculos não se deu por vencido, como era o caso do general De Gaulle e dos seus correligionários, vistos em geral como homens livres e insubmissos de que ele seria uma das mais genuínas, senão mesmo (para os devidos efeitos político-militares) a mais fidedigna personificação nacionalista. Mas havia outros, e não fazia mal nenhum que alguns fossem citados. Naturalmente, esta opção faz parte de uma estratégia de capitalização baseada na polarização identitária do general, inserindo-a num conceito providencial mais vasto, aqui urdido numa ficção baseada em factos reais mas sustentada por uma ficção hábil e incisiva na manipulação das grandes linhas de força da narrativa que se desejava construir, usando para isso matéria que nos oferece (para efeitos de aventura semi-épica) uma espécie de Santíssima Trindade laica, ou seja, França-Liberdade-De Gaulle. Escusado será dizer que no período histórico em causa, a Segunda Guerra Mundial, o propósito dos produtores parece claro ao orientar de sobremaneira os acontecimentos relatados numa perspectiva onde se nota a referida falta de outros nomes e uma maior amplitude dialéctica na abordagem do conflito bélico que se vivia a uma escala global, incidindo assim o retrato dos factos (de forma intencional ou não) apenas nos palcos da guerra política e militar que interessava destacar como suporte do outro retrato, o do general De Gaulle e o da organização que liderava, a France Libre. Por isso, a efervescência social e a violência dos combates, com consequências devastadoras para quem estava no lugar errado à hora errada, incidem quase sempre no que se passava na Europa Ocidental e no Norte de África.

Por outro lado, a dada altura faz-se um desvio para uma visão um pouco mais alargada do eixo aliado, momento para criticar (com pinças) uma espécie de incómoda resignação dos europeus ao cada vez maior peso da presença e correspondentes decisões estratégicas e doutrinárias das forças armadas norte-americanas. Neste capítulo, o argumento revela alguma coragem “europeia”, porque não dizê-lo, perfeitamente conforme com a filosofia gaulista, ao denunciar (de forma ligeira) os planos neo-imperialistas impressos no mapa da Europa onde o poder sediado em Washington desenhara as zonas de influência que no pós-guerra os EUA queriam assegurar para fazer prevalecer, contra o outro bloco vencedor (o da União Soviética, que na Batalha de Berlim selara o fim da cúpula nazi), o seu sistema de valores ideológicos e financeiros. Plano que em parte se concretizou, mas sem a abusiva dimensão “gráfica” desenhada no dito planisfério, por exemplo, com a instalação de numerosas bases militares e com a ajuda, mais capitalista do que humanitária, na reconstrução da Europa, altura que aproveitaram para impor uma certa maneira de interpretar, adaptar e introduzir no quotidiano do velho continente aquilo a que habitualmente se chama o American way of life. E alguns europeus, nomeadamente os que mais sofreram com a Segunda Guerra Mundial e os que menos aptos estavam para superar os anos de alguma penúria económica que a ela se seguiu, foram menos resistentes do que, por exemplo, a grande maioria dos civis japoneses submetidos aos ditames da ocupação do seu país após a derrota do Japão. Diga-se em abono da verdade que um dos estadistas que mais pugnou pela independência nacional face a interferências de qualquer dos blocos durante o período da Guerra Fria foi o general De Gaulle. E uma das sequências finais de “De Gaulle: Liberdade”, situada após a consolidação da então muito recente vitória sobre o nazi-fascismo, constitui uma pérola de amarga e subtil ironia. Nela vemos e ouvimos o seráfico Winston Churchill confirmar, perante um De Gaulle já empossado no cargo político que viria a ocupar por largos anos, que se fosse necessário escolher entre aliados a sua opção seria sempre favorável a um acordo com o parceiro norte-americano. Para que se saiba, foi a resposta dada a De Gaulle que, uma vez consolidada a paz, lhe havia proposto uma aliança entre a França e a Grã-Bretanha. E, se dúvidas houvesse na altura, o futuro da Europa veio confirmar aquilo que neste encontro foi a subordinação de uma parcela da Europa aos desígnios da aliança atlântica liderada pelos EUA (incluindo a formação da NATO), a génese de similares desígnios noutros domínios da cooperação. E quem pagou este filme sabe perfeitamente que o assunto está longe de estar encerrado. Bem pelo contrário.

Dito isto, será importante dizer que nesta continuação de «De Gaulle: Resistência» há um outro militar de integridade e coragem exemplares. De forma legítima, ele rouba algum do protagonismo ao seu cúmplice Charles De Gaulle. Falamos do general Philippe Leclerc (1902-1947), muito boa prestação do actor Niels Schneider. Trata-se de alguém que se vai distinguindo passo a passo nas batalhas que os militares da France Libre, com dificuldades extremas de equipamento, conseguem levar por diante e com sucesso, apesar de pesadas baixas, nas áreas desérticas do Chade, da Líbia e de outras parcelas do Norte de África. Iremos vê-lo e aos seus combatentes receber pela frente a monstruosa e dantesca nuvem de poeira levantada pelos numerosos blindados do general alemão Erwin Rommel, a quem chamaram (desgraçadamente, com razão) a “Raposa do Deserto”. Tanques que serão enfrentados com muita garra e espírito sacrificial e que, combate após combate, darão força e prestígio justificado a esse outro nome que despontava, acendendo a chama ao redor do incitamento viril “Viva Leclerc”. Por sua vez, quando ele ouve esta saudação parece ficar surpreendido, e logo a seguir incita a multidão que o aclama a gritar, não “Viva Leclerc” mas sim “Viva De Gaulle”. Dedicação e altruísmo de um pilar fundamental da hierarquia das forças militares gaulistas que, ao contrário do seu mentor (condicionado pelos sistemáticos vaivéns das cínicas manobras diplomáticas), estava ali para enfrentar as balas e os obuses dos canhões no campo de batalha, na prática constituindo o vértice precioso de uma necessária componente puramente militar, sem a qual a componente política seria mais frágil, mesmo irrelevante no contexto das grandes decisões. Entre outras, os preparativos e participação na Operação Overlord, que determinou o monumental desembarque nas praias da Normandia a 6 de Junho de 1944. Deste modo, Philippe Leclerc será o guerreiro e o herói de uma equação onde irá surgir uma outra figura de características militantes, Jean Moulin, que no seio da sociedade civil procurará organizar e unificar a luta clandestina para uma resistência cada vez mais alargada. Traído, foi preso pela Gestapo e morreu a 8 de Julho de 1943. Entretanto, Philippe Leclerc e os seus homens, mesmo contra as ordens iniciais do general Dwight Eisenhower (Comandante Supremo das Forças Aliadas na Europa), não ficaram parados e avançaram para a libertação de Paris e, honra seja feita ao que vemos nas derradeiras sequências de “De Gaulle: Liberdade”, onde se salienta a participação dos operacionais da France Libre, civis e militares, e da “Segunda Divisão Blindada” de Philippe Leclerc, com o apoio da Quarta Divisão de Infantaria dos EUA, só faltando dar um pouco mais de espaço (e não custava muito) aos demais resistentes que não seguiam a cartilha gaulista e que na clandestinidade cumpriram igual papel, o que voluntariamente assumiram ao longo de meses, senão anos: libertar a França do jugo nazi, mas igualmente dos compatriotas colaboracionistas.

Não fosse a visão algo facciosa dos acontecimentos nesta produção impregnada de um certo pendor neo-gaulista, o visionamento deste díptico podia ser um contributo sólido para uma discussão urgente sobre os grandes processos e circunvoluções históricas que moldaram o Século XX (inspirados no ideário do general De Gaulle) e que, para o melhor e o pior, ainda se encontram activos nos dias que correm, quer no pensamento político de uma elite conservadora, quer na perspectiva geo-estratégica de quem decide em França, e não só, o que se vai passar a nível nacional e global.
Do ponto de vista cinematográfico, podemos dizer que os milhões investidos nesta super-produção estão mais do que justificados, e quem for ver as duas partes, respectivamente com 159 e 157 minutos, suponho que não sairá frustrado. Todas as sequências de guerra são de grande eficácia, as movimentações nos bastidores políticos possuem ritmo adequado e provavelmente geram algum suspense junto de quem não saiba muito sobre o que realmente se passou, os actores correspondem no campo da composição e expressão corporal, o guarda-roupa, a cenografia e os adereços contribuem para uma cuidada reconstituição da época, o som e os efeitos sonoros cumprem a sua função com a qualidade esperada. Podia, isso sim, ser mais abrangente e menos hagiográfico.
E, ou muito me engano, ou aquele sorriso seráfico do Presidente da República Charles De Gaulle, perante o nada ambíguo alinhamento geográfico-militar do primeiro-ministro Winston Churchill (que referi anteriormente), funciona como porta aberta para uma eventual continuidade do projecto «La Bataille De Gaulle», oportunidade para prosseguir o enunciado mais ou menos explícito das linhas gerais de orientação da doutrina gaulista na Argélia e demais império colonial, no seu próprio país (Maio de 1968)… Enfim, a ver vamos!
Título original: La bataille de Gaulle: J’écris ton nom
Realização: Antonin Baudry
Elenco: Simon Abkarian, Niels Schneider, Anamaria Vartolomei, Karim Leklou, Campbell Scott, Simon Russell Beale
Duração: 157 min.
França/Bélgica/EUA, 2026



