Não existem regras infalíveis, mas não ando neste rodeo desde ontem. Há sinais em que me posso “encostar”, entre eles, as mãos humanas, quebra-cabeças para a tecnologia alicerçada à inteligência artificial se mimetizar ou compreender, com todo o direito, daí o seu glitch, o seu erro de programação em reproduzir no leito da artificialidade algo que milhões e milhões de anos aperfeiçoaram. Quanto ao Cinema e sobre as mãos, é o toque da câmara que dita o tipo de realizador que se é. Seja pelos célebres exemplos de Luis Buñuel, Robert Bresson ou até Erich von Stroheim, expoentes máximos, cada um com uma visão do seu cinema esquadrinhada e estudada nessa anatomia. João Rosas, por outro lado, e curiosamente, por via de um filme de Stroheim [«The Wedding March»], aponta para as mãos dos espectadores da Cinemateca, não todos, apenas uns especiais, para a nossa narrativa. É deles que baila, incute a valsa dos encontros e reencontros, do desconhecido conduzido entre os dedos. Faz como dita a bitola clássica, mas, pegando na minha lista de regras, filmar mãos não é lição académica, é destreza despegada. Um bom realizador sabe filmar mãos! Prego, aprego e coloco o prego. Fecho o ciclo. João Rosas merece a vénia nesse campo. Quanto a «A Vida Luminosa», a sua nova longa-metragem, recorremos a um best of da sua carreira até então, movendo-se pelas motivações de Nicolau, rapaz de Lisboa, que o realizador filma há mais de 11 anos, sempre no corpo e alma de Francisco Melo. A criança de «Entrecampos», o adolescente em «Maria do Mar», o jovem em «Catavento» e agora o adulto desamparado e desenraizado. Conta 24 anos: sem emprego fixo, sem futuros delineados, de “coração partido” e sem algo que o mova a avançar. Vive na metrópole “alfacinha”, percorre lugares, procura nessa mesma cidade o seu “eu”, algo que lhe valha encaminhar-se. Mas a cidade está morta. Rosas já havia espelhado, no seu documentário «A Morte da Cidade», essa perda identitária da capital, e, por sua vez, a criação de uma nova, com a transfusão humana e as diversas transformações. Nicolau depara-se com esse moribundo, mas refugia-se naquilo que a cidade sempre preservou: a Cinemateca, o eixo cultural, os bares improvisados e os cemitérios — a Morte aí solidificada como o máximo da arquitectura citadina. «A Vida Luminosa» não vive do sermão, nem sequer da moral. É o coming of age entendido no encanto, o de um lugar e das relações, e daí apresentar-se com uma geração longe de ser desocupada, mas desinteressada nos ditames vendidos quanto ao Futuro. Este “Boyhood às fatias” celebra o colectivo do cinema, num filme que se entende feito para e por “amigos”, recheado de caras conhecidas deste subgénero de cinema lisboeta. Mas, voltando ao início da nossa conversa: aquelas sequências na Cinemateca (veja-se, na companhia de Stroheim, de mãos dadas), são a única esperança que o filme detém em toda a sua despertença. É que o Cinema é uma janela para a compreensão do outro e, igualmente, para nós próprios. João Rosas conseguiu um filme sobre a cidade, sobre o cinema, sobre a juventude em desfragmento, sobre o amor, sobre a amizade. Sobre as mais variadas coisas, porque é disso que se compõe um Lugar.

Título original: A Vida Luminosa Realização: João Rosas Elenco: Francisco Melo, Francisca Alarcão, Cécile Matignon Duração: 99 min. País: Portugal, 2025

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