Há filmes que procuram desesperadamente ser originais e há filmes que, conhecendo bem as regras do género a que pertencem, se preocupam sobretudo em cumpri-las bem. «A Desconhecida», de Gabe Ibáñez, pertence claramente à segunda categoria. A história não é particularmente nova: uma mulher é encontrada amarrada dentro de um contentor no porto de Barcelona, sem memória de quem é ou de como ali chegou, enquanto a polícia tenta reconstruir o seu passado e perceber quem a quer morta.
Nada disto é propriamente inédito — a amnésia, os segredos do passado, as identidades ocultas e as sucessivas revelações são matéria-prima de inúmeros thrillers. E, no entanto, há qualquer coisa de tranquilizador na competência com que Ibáñez maneja estes lugares-comuns. «A Desconhecida» sabe exactamente o que quer ser e não aspira a mais do que isso: um thriller sólido, tenso e eficaz, construído com segurança, sem grandes invenções mas também sem grandes tropeços.
Grande parte dessa eficácia deve-se às protagonistas. Candela Peña imprime à inspectora Anna Ripoll uma dureza atravessada por uma fragilidade que se vai revelando aos poucos, enquanto Ana Rujas encontra na personagem desconhecida uma presença simultaneamente vulnerável e inquietante, com cenas de luta muito intensas e convincentes. As duas actrizes sustentam o filme com interpretações sólidas, dando espessura a personagens que, no papel, poderiam facilmente cair nos estereótipos do género.
Talvez seja essa a maior virtude de «A Desconhecida»: não confundir competência com falta de ambição. O filme não reinventa o thriller policial, nem precisa de o fazer. Num género tantas vezes dependente de reviravoltas cada vez mais elaboradas, Ibáñez parece apostar numa ideia mais simples e, por isso mesmo, mais difícil: contar uma história conhecida com suficiente rigor, ritmo e convicção para nos fazer querer saber como termina. E, durante quase duas horas, consegue-o.
Título Nacional: A Desconhecida
Título Original: La desconocida
Realização: Gabe Ibáñez
Actores: Ana Rujas, Candela Peña, Manolo Solo
Duração: 109’
Ano: 2026
Origem: Espanha



