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Memórias do Cárcere

Camilo Castelo Branco conseguiu uma proeza que muitos escritores portugueses posteriores nunca alcançaram: transformar a própria vida numa obra suficientemente delirante para dispensar a invenção. Amores clandestinos, dívidas, fugas, escândalos, duelos, prisões, filhos, tragédias e, finalmente, o suicídio. Sérgio Graciano escolhe em «Memórias do Cárcere» um dos capítulos mais cinematográficos dessa existência: o período em que Camilo e Ana Plácido foram parar à Cadeia da Relação do Porto, acusados de adultério. Hoje o caso daria divórcio, capas de revistas, comentários nas redes sociais e provavelmente uma entrevista televisiva em horário nobre. Em 1860 dava cadeia.

Albano Jerónimo é Camilo e Maria João Bastos, Ana Plácido. Ele escritor, sedutor, arrogante, frágil, sarcástico e possuidor daquela qualidade indispensável a qualquer grande romancista: transformar a sua própria desgraça em matéria-prima. Ela, mulher casada que escolhe desafiar a ordem moral e social do tempo, pagando bastante mais caro do que o amante por semelhante ousadia. O filme percebe uma coisa fundamental: esta não é apenas uma história de amor. É também uma história sobre poder, moralidade e a extraordinária facilidade com que uma sociedade consegue converter a vida privada dos outros em assunto público.

Graciano evita sabiamente o Camilo de busto municipal, barba respeitável e placa comemorativa. O homem que lhe interessa tem carne, desejo, ego, mau feitio e talento. Camilo chega à prisão depois de Ana, e a cadeia torna-se uma espécie de segunda cabeça do escritor. Observa os companheiros, escuta histórias, absorve crimes, misérias, falsários, assassinos, infanticidas e figuras quase improváveis como Zé do Telhado. Depois faz aquilo que sabe: rouba tudo à realidade e devolve-o em literatura. Era um método de trabalho bastante mais eficaz do que hoje esperar pela inspiração num café com um computador aberto.

A própria Cadeia da Relação domina o filme. Pedra, corredores, portas, sombras e corpos confinados compõem um universo que Sérgio Graciano filma menos como reconstituição histórica do que como território mental. Camilo pode estar encarcerado, mas a imaginação circula sem autorização do carcereiro. É durante este período que escreve “Amor de Perdição”, enquanto vai acumulando aquilo que desembocará nas próprias “Memórias do Cárcere”. Poucos escritores portugueses terão conseguido transformar uma sentença judicial num plano editorial com tamanha eficácia.

Com produção de Paulo Branco e argumento de Carlos Saboga, «Memórias do Cárcere» aproxima-se, por vezes, de uma tradição muito particular do cinema português. A palavra ganha peso, a representação assume discretamente a sua artificialidade, a História mistura-se com o folhetim e certas personagens parecem capazes de abandonar uma página de Camilo para entrar diretamente no enquadramento. Manoel de Oliveira surge inevitavelmente como fantasma tutelar, mas é sobretudo Raul Ruiz e o magnífico labirinto de «Mistérios de Lisboa» que atravessam alguns dos melhores momentos do filme. Não por acaso: Camilo já trazia dentro dos romances aquilo que Ruiz percebeu perfeitamente: narrativas que abrem portas para outras narrativas até já ninguém saber muito bem onde começou a história.

Os 167 minutos exigem disponibilidade e não serão certamente a melhor notícia para quem considera longa uma mensagem com mais de três linhas. Mas a duração permite ao filme respirar, desviar-se, conhecer os habitantes da prisão e transformar aquilo que poderia ter sido um respeitável drama de época num objecto bastante mais estranho e sedutor. Nem tudo possui o mesmo fôlego e existem momentos em que a solenidade ameaça tomar conta da sala, porém Albano Jerónimo consegue quase sempre devolver Camilo ao chão: vaidoso, feroz, divertido, contraditório, às vezes insuportável e quase sempre interessante.

Sérgio Graciano já mostrara em «Os Papéis do Inglês» vontade de trabalhar a literatura sem a transformar numa visita de estudo. Aqui vai mais longe. «Memórias do Cárcere» fala de Camilo, de Ana Plácido e de uma sociedade que punia o adultério com prisão, mas também daquilo que acontece quando um escritor percebe que nenhuma cela consegue competir com uma boa história. Camilo entrou na Cadeia da Relação acusado de amar a mulher errada. Saiu de lá com literatura. Dois séculos depois, ainda estamos a pagar um bilhete de cinema, para saber como conseguiu.

Título Original: Memórias do Cárcere
Realização: Sérgio Graciano
Com: Albano Jerónimo, Maria João Bastos, Paulo Pires, Afonso Pimentel
Origem: Portugal
Duração: 167 minutos
Ano: 2026
Género: Drama / Histórico / Biográfico

José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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