Pedro Almodóvar nunca precisou do Natal para reunir famílias disfuncionais, mortos incómodos, amantes em crise e mulheres a tentar manter o batom enquanto o mundo lhes cai em cima. Em «Natal Amargo», porém, o calendário ajuda. Dezembro, essa época dedicada à felicidade obrigatória, surge como cenário perfeito para uma história sobre luto, ansiedade e pessoas que preferem continuar ocupadas a admitir que estão destruídas.
Elsa, interpretada por Bárbara Lennie, perde a mãe e reage de maneira muito contemporânea: continua a trabalhar. Em vez do silêncio, reuniões. Em vez do luto, prazos. Em vez de parar, acelera. É uma daquelas patologias que a sociedade até premia com elogios à “resiliência”, palavra moderna para descrever quem está a desabar sem faltar à reunião em Zoom. Só que o corpo tem menos paciência para eufemismos e acaba por impor aquilo que Elsa recusava: uma crise de pânico e a fuga para Lanzarote com a amiga Patricia (Victoria Luengo).
Madrid fica para trás com Bonifacio (Patrick Criado), o companheiro, e com toda a engrenagem emocional que Elsa tentou manter sob controlo. Lanzarote não é um retiro espiritual para fazer fotografias para o Instagram ou para relaxar. É pedra, vento e vulcão, uma paisagem despida onde fugir de nós próprios se torna mais difícil. Almodóvar percebe isso bem: às vezes uma ilha serve menos para escapar do mundo do que para retirar o mobiliário que escondia o problema.
Mas entra Raúl Rossetti, cineasta e argumentista interpretado por Leonardo Sbaraglia, que escreve uma história demasiado parecida com aquela que estamos a ver. A partir daí, “Natal Amargo” deixa de ser apenas um melodrama sobre uma mulher em crise e transforma-se num jogo menos inocente: quem está a viver e quem está a escrever? E quando um artista transforma a intimidade alheia em ficção, a beleza do resultado serve de absolvição?

Almodóvar conhece este terreno. Passou décadas a fazer cinema com mães, amigas, paixões, memórias, abandonos e histórias ouvidas em cozinhas e mesas de jantar. Nunca escondeu que a vida é a sua matéria-prima. O que muda aqui é a idade da pergunta. Aos vinte ou trinta anos, roubar a realidade parece rebeldia. Aos setenta e muitos, talvez comece a parecer um ajuste de contas.
É isso que dá ao filme uma melancolia diferente. Não estamos perante um realizador desesperado por provar que continua jovem, pecado frequente entre cineastas consagrados e músicos de rock com casacos demasiado apertados. Almodóvar aceita o desgaste. O seu cinema continua reconhecível — as cores, o melodrama, o humor, Alberto Iglesias, as mulheres muito mais inteligentes do que os homens — mas existe agora uma fadiga consciente por baixo da superfície.
Bárbara Lennie é fundamental porque não representa o sofrimento como espectáculo. Elsa tenta evitá-lo, escondê-lo, adiá-lo, e é nessa resistência que se torna credível. Victoria Luengo, Aitana Sánchez-Gijón e Milena Smit ajudam a construir esse universo feminino onde amizade e sobrevivência quase se confundem. Sbaraglia tem a tarefa deliciosa de ser personagem e suspeito: vemos nele o cineasta que observa a vida enquanto já pensa na cena que poderá fazer dela.
«Natal Amargo» fala de uma coisa simples e mas levanta uma questão: ninguém vive impunemente aquilo que não quer sentir. Podemos trabalhar, viajar, escrever, filmar, beber ou mudar de ilha. Mais cedo ou mais tarde a conta chega. Almodóvar embrulha-a em melodrama, naturalmente, porque ninguém lhe pediria minimalismo escandinavo a estas alturas do campeonato.
Talvez seja essa a graça amarga do filme. O Natal promete reconciliação, família e luzes. Almodóvar entrega-nos mortos, ataques de pânico, culpa e escritores a roubar histórias. É quase mais realista. E se o seu cinema sempre soube transformar a desgraça em cor, agora parece interessado em mostrar aquilo que fica depois de a cor da tinta secar. No fim, o problema não é saber se a vida imita o cinema ou se o cinema imita a vida. É perceber quem fica com as cicatrizes quando termina a sessão.
Título Original: Amarga Navidad
Realização: Pedro Almodóvar
Com: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit, Quim Gutiérrez
Origem: Espanha
Duração: 111 minutos
Ano: 2026




