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A Morte de Robin Hood

Esqueçam, desde já, o Robin dos Bosques de fato verde, barrete com pena, sorriso maroto e moral de escuteiro armado em justiceiro fiscal. Esqueçam a raposa encantadora da Disney, o Errol Flynn atlético, o Kevin Costner de cabelo ao vento, o Russell Crowe em modo origem musculada, o Taron Egerton em videoclip medieval, e até aquele Robin da televisão que fazia das tardes de sábado ou domingo uma espécie de missa laica da aventura familiar dos anos 60 e 70. «A Morte de Robin Hood», escrito e realizado por Michael Sarnoski, entra pela lenda dentro como quem entra numa taberna depois de uma guerra: com lama nas botas, sangue seco na roupa e muito pouca paciência para mitologias bem comportadas.

Este Robin Hood, interpretado por Hugh Jackman, não rouba aos ricos para dar aos pobres. Ou, se alguma vez o fez, o filme não está muito interessado nessa propaganda simpática. Aqui, Robin é um homem velho, violento, cansado, perseguido pelo passado e pelo corpo, mais próximo de um assassino que teve uma boa campanha de relações públicas do que de um santo popular da redistribuição de riqueza. Convém dizê-lo com todas as letras: Sarnoski não faz mais uma aventura de Robin Hood. Faz uma autópsia. Pega no mito, abre-o ao meio e pergunta o que ficou escondido debaixo de séculos de baladas, livros juvenis, matinés de televisão e nostalgias com cheiro a VHS.

O filme começa no território da brutalidade. Estamos no século XIII, num mundo medieval sem brilho, sem heroísmo decorativo, sem cavalos a galopar em nome da justiça social. Há lama, nevoeiro, violência seca, corpos partidos, homens que matam porque já não sabem fazer outra coisa. Robin está gravemente ferido depois de uma batalha que julgava ser a última e acaba entregue aos cuidados da Irmã Brigid, interpretada por Jodie Comer, num priorado afastado, quase fora do mundo. A partir daí, o filme troca a acção pela convalescença, o espectáculo pela culpa, a flecha pelo remorso. E é aqui que Sarnoski se torna mais interessante e, ao mesmo tempo, mais perigoso para a paciência de alguns espectadores.

Porque «A Morte de Robin Hood» não quer entreter no sentido clássico. Quer contrariar. Quer tirar-nos o boneco da cabeça. Quer dizer-nos que talvez aquele herói que aprendemos a amar fosse apenas um bandido que a tradição limpou, penteou e vestiu de verde. A ideia é forte, até brilhante: e se a lenda de Robin Hood fosse menos uma verdade moral do que uma mentira útil? E se o povo, cansado de senhores, impostos e injustiças, tivesse inventado um herói a partir de um criminoso, porque às vezes precisamos que até os ladrões pareçam estar do nosso lado? É uma hipótese amarga, mas muito actual. Vivemos numa época em que se reabrem monumentos, biografias, estátuas e reputações com a voracidade de quem encontrou bolor no frigorífico da História. Sarnoski aplica esse impulso a Robin Hood e transforma-o num caso de tribunal espiritual.

Hugh Jackman entrega-se ao papel com uma fisicalidade quase animal. Nunca parece o herói que vem salvar ninguém; parece antes um homem que já se perdeu há tanto tempo que a salvação lhe soa a piada de mau gosto. A sua barba, o seu corpo gasto, a sua voz cansada, tudo nele parece dizer: este homem sobreviveu demasiado. Há ecos inevitáveis de Logan, claro, porque Jackman já sabe carregar no corpo esse cansaço de quem passou a vida a fazer mal, mesmo quando o cinema lhe chamou bem. Mas aqui não há super-herói terminal, nem catarse pop, nem redenção embrulhada para consumo de multiplex. Há um homem que talvez queira morrer com menos ruído do que viveu.

Jodie Comer funciona como contraponto: serena, firme, misteriosa, longe da freira maléfica de certas versões antigas da morte de Robin Hood. A sua Irmã Brigid não é anjo de postal nem interesse amoroso imposto por um produtor com medo do silêncio. É uma mulher que cuida, observa e impõe ao filme uma pergunta mais desconfortável do que qualquer cena de batalha: é possível tratar as feridas de alguém sem absolver os seus crimes? A relação entre ambos é o coração da obra, precisamente porque evita a solução mais fácil. Não há romance redentor à pressa, não há beijo a lavar pecados, não há violinos a pedir-nos que perdoemos o monstro só porque ele está triste e Hugh Jackman continua a ser Hugh Jackman.

O problema é que a proposta, sendo poderosa, também se arrisca a ficar demasiado enamorada da sua própria gravidade. Sarnoski filma com rigor, atmosfera e uma evidente vontade de fugir ao cinema de propriedade intelectual reciclada, essa indústria que hoje pega em qualquer mito livre de direitos como quem encontra moedas esquecidas no sofá. Mas a segunda metade, mais contemplativa, pode parecer uma longa espera pela morte anunciada no título. Há beleza, há ambição, há uma melancolia áspera. Mas também há momentos em que o filme parece confundir silêncio com profundidade e lentidão com alma. Nem sempre são a mesma coisa, por muito nevoeiro que se ponha em cima.

Ainda assim, «A Morte de Robin Hood» merece atenção por tentar aquilo que quase nunca se tenta com figuras tão gastas: não actualizar o herói, mas desmontá-lo. Não fazer dele um adolescente, uma marca, um franchise, uma origem, uma sequela ou uma desculpa para vender arcos em plástico. Fazê-lo morrer. E, mais importante, fazê-lo morrer como homem, não como ícone. Talvez seja esse o gesto mais ousado do filme: retirar a Robin Hood o conforto da lenda e deixá-lo apenas com aquilo que todos os homens acabam por ter quando a música acaba — o corpo, a culpa e a conta por pagar.

No fim, este não é o Robin Hood para quem procura aventuras nos bosques de Nottingham. É o Robin Hood para quem suspeita que as lendas são bonitas porque alguém, algures, teve o cuidado de esconder a parte feia. Sarnoski encontra essa parte feia, mostra-a, esfrega-nos a cara nela e ainda pergunta se queremos cantar. Não queremos. Mas também não conseguimos desviar completamente o olhar.

Título Original: The Death of Robin Hood
Realização: Michael Sarnoski
Com: Hugh Jackman, Jodie Comer, Bill Skarsgård, Murray Bartlett, Noah Jupe
Origem: EUA
Duração: 123 minutos
Ano: 2026
Género: Drama / Época

Photo by Courtesy of A24 – © A24

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José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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