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Divina Comédia – Ali Asgari

Um realizador de cinema percorre Teerão, conduzido pela produtora na sua Vespa, procurando autorização para rodar o seu próximo filme e mostrar o que acabou de realizar. É assim «Divina Comédia», que o iraniano Ali Asgari mostrou no Festival de Cinema da Maia. Inspirado em Nanni Moretti, o filme mostra como a brincar se pode falar de coisas muito sérias. Estivemos à conversa com Ali Asgari, antes do realizador se dirigir para o Festival de Cannes, onde fez parte do júri de curtas-metragens.

Até que ponto este filme é autobiográfico?

Ali Asgari: A base é a realidade, mas não só para mim, também para a personagem principal, que é realizador, vive no Irão e sempre teve muitas dificuldades em escrever os guiões dos seus filmes. Mas as nossas dificuldades são diferentes. Ele luta por certas coisas e eu luto por outras. No fim de contas, misturámos as nossas experiências enquanto realizadores no Irão e depois tentei brincar com isso, fazer humor, fazer piadas sobre o absurdo do sistema e o absurdo das dificuldades que enfrentamos por causa dele.

O filme fala de censura e não há regime com censura que admita que a tem. Como é que o conseguiu filmar no seu país?

Ali Asgari: Já tive experiência em fazer filmes deste tipo. Mas a verdade é que cada filme tem as suas próprias características e, para cada filme, tenho de encontrar uma forma de o filmar, como aconteceu com «Divina Comédia».

O riso é para mim um ato de resistência

E conseguiu mostrá-lo em sala ou teve os mesmos problemas que vemos no filme?

Ali Asgari: Até agora nenhum dos meus filmes teve a oportunidade de ser exibido no Irão. Mas isso não significa que nunca tenha mostrado nenhum. Mostrei-os, mas de forma underground. Às vezes é como no filme, vamos a certos sítios e mostramo-lo. Para mim é muito interessante ver como os iranianos reagem ao filme e como interagem com ele.

Concorda que o riso é uma forma muito interessante de falar de assuntos sérios?

Ali Asgari: Acredito mesmo nisso, até porque vem também da cultura iraniana. Fazemos muitas piadas com o poder, e isso não é de agora. Na literatura e na poesia há essa tradição de brincar com a situação existente. É muito importante também para criar uma ligação melhor com o público, ao criticar o que está a acontecer, mas de uma forma um pouco mais leve. É algo que procuro muito. O riso, para mim, é um ato de resistência.

E de onde vem o seu sentido de humor? E fácil pensar em Nanni Moretti, mas também em Elia Suleiman, sobretudo pela forma visual de criar o humor.

Ali Asgari: Sou fã de ambos, são dois dos meus realizadores favoritos. Especialmente Nanni Moretti. Como também estudei em Itália, ele sempre me inspirou com os seus filmes, porque fala de temas muito sérios, às vezes políticos ou sociais, com um ponto de vista muito humorístico. E a Vespa é uma homenagem a «Caro Diário». Aliás, ele viu o filme e gostou muito.

O cinema iraniano nunca nos desilude. Como é que um cinema com esta qualidade consegue sobreviver com um regime que lhe coloca tantas limitações?

Ali Asgari: A verdade é que o Irão é um país muito dramático. Acontecem muitos dramas e coisas absurdas todos os dias. É um país em que o regime e o governo são muito tradicionais e religiosos, enquanto as pessoas estão mais viradas para a modernidade e para a ligação com o mundo. Há um confronto constante entre estas duas posições. Quando há censura, tenta-se sempre contorná-la e encontrar novas formas de dizer a mesma coisa. Isso acaba por gerar muitas histórias. Mas também se fazem filmes maus no Irão.

Como Abbas Kiarostami e outros acabaram por fazer, consegue imaginar-se a filmar fora do Irão?

Ali Asgari: Há essa possibilidade, sim, mas o que faço está muito ligado à cultura, à sociedade em que vivo e às minhas experiências pessoais. Quando se sai, perde-se muita dessa inspiração. Para o meu tipo de cinema, é muito importante a inspiração da vida quotidiana, das rotinas, das pessoas que lá vivem. As conversas com as pessoas, com a família, com os amigos, tudo isso cria histórias. Não quero perder essa ligação.

Está habituado a grandes festivais como Cannes ou Berlim. Agora esteve em Portugal, num festival com uma outra dimensão.

Ali Asgari: Vir a festivais mais pequenos é uma experiência diferente. Fala-se com muitas pessoas que nunca se encontrariam noutros eventos. Aqui encontramos pessoas “normais”, e mostrar o filme a esse público dá-me uma energia muito boa. E há tempo para conversar com outros realizadores, Gosto dessa atmosfera. Já vim muitas vezes a Portugal, para festivais de curtas-metragens, como Vila do Conde. Tenho uma boa ligação com o cinema português, que joga muito com a forma e experimenta bastante.

Agora vai estar no júri das curtas-metragens de Cannes. O que espera encontrar?

Ali Asgari: Não estou propriamente à procura de um tipo específico de filme, seja ele mais formal ou mais centrado na narrativa. Sendo eu uma pessoa emocional e também intuitiva, para mim o importante é sentir algo. Como se trata muitas vezes de jovens realizadores, não espero perfeição. O que procuro é ver uma luz, algo que me surpreenda. Mesmo que um filme ainda não esteja totalmente conseguido, por vezes basta uma única cena para revelar que o realizador tem uma verdadeira visão, e isso entusiasma-me.

Como é que vê o futuro imediato do país?

Ali Asgari: Há uma grande ambiguidade neste momento no Irão, no meio de duas terríveis situações. Não é possível dizer qual é a melhor. É claro que não estou contente nem com a intervenção nem com o regime. É impossível prever como é que vai ser o futuro do país. Depende dos argumentos que vão estar em cima da mesa. Mas espero que a felicidade e a esperança voltem ao país, porque a situação atual não é boa para os iranianos.

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João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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