Nos primeiros minutos do projecto de revisionismo histórico-poético a que o seu autor, o filipino Lav Diaz, não por acaso, deu simplesmente o nome do protagonista, «Magalhães», 2025 (a saber, o navegador Fernão de Magalhães que nasceu em Portugal, presume-se em 1480, e morreu na Ilha de Mactan, a 27 de Abril de 1521), somos confrontados com aquilo que podia ser, não a visão idílica do paraíso, mas sim uma versão idealizada para melhor enquadrar e alimentar os futuros conflitos dramáticos ocorridos nas então longínquas paragens do sudeste asiático.
De igual modo, nesta fase do processo narrativo não se atribui qualquer data nem identificação do povo, cujo súbito pranto parece recear alguém situado fora de campo. Esta atitude de angústia perante o inesperado e desconhecido dá lugar a uma reza onde persiste alguma ambiguidade emocional e um misto de surpresa que se dilui numa prece invocadora de mitos antigos, primeiro vocalizada pela bela nativa que víramos ao início, sossegada, alegre e bem formosa, na corrente de um riacho e “vestida” como veio ao mundo.
Não diz o filme, mas digo-vos eu, que essas sequências e essa espécie de limbo entre o Paraíso e o Inferno podiam muito bem referir-se a um período que vai de 1505 a 1511. Pouco depois, outras vozes se levantam e o lamento das companheiras invoca deuses e antigas lendas, onde se encontra implícito o mito da vinda de outros povos (ou de outros seres) a partir do mar e do oriente. Naquelas ilhas, assim como no chamado Novo Mundo, geograficamente falando, os europeus apareceram do lado em que nasce o Sol, ou seja, o Oriente, e isso fazia toda a diferença. Estas mitologias podem ser encontradas noutras religiões e culturas, por vezes, em agrupamentos comunitários situados a distâncias consideráveis uns dos outros. Por exemplo, nos mitos guaranis, o facto de os marinheiros atingirem a costa setentrional americana pelo lado do Sol nascente levou os guaranis a acreditar que esses invasores de pele branca deviam ser bem acolhidos. Porque, segundo acreditavam, vinham da Terra Sem Mal. Enfim, como depois sentiram na pele, não passava de uma desgraçada ilusão…!

Entretanto, regressando ao filme «Magalhães», concluído o seu preâmbulo, a estrutura ficcional passa a identificar locais e datas, inaugurando este procedimento com a sequência onde numa legenda se lê: “Malaca, 1511”. Para os devidos efeitos de enquadramento histórico será importante saber que, nesse ano, Fernão de Magalhães ao serviço do segundo governador e Vice-Rei da Índia, Afonso de Albuquerque, participou na conquista do poderoso sultanato, que veio a ser uma colónia e um importante entreposto comercial, o coração da expansão portuguesa na Ásia. Depois, após algumas provações comuns a quem se metia nestas aventuras e desventuras, Fernão de Magalhães só regressou a Lisboa em 1513.
Naturalmente, as incursões dos portugueses e de outros povos no contexto da sua expansão marítima e imperialista, acompanhada da consequente posse e ocupação das regiões onde se encontravam as riquezas que queriam controlar e explorar, não se fez com beijinhos e abraços. Foi pela força, a maioria das vezes bruta e avassaladora, que dominaram os homens e mulheres que por ali viviam numa relativa harmonia com a Natureza, mas não necessariamente com quem já os explorava localmente. Não convém alimentar o mito do bom-selvagem, porque isso nunca existiu.
Seja como for, curiosamente, o realizador irá de forma sistemática evitar a representação concreta de qualquer acto de violência, não nos mostrando as práticas bélicas e as cruéis orgias de sangue, apenas os despojos mortais dos combates ou então os gestos moribundos dos sobreviventes. Na batalha que antecede a morte de Fernão de Magalhães, usa o som e a agitação dos que circulavam por perto para nos dar a amplificação dos gritos guerreiros, a dor e a morte infligidas, ou seja, a dimensão acústica do que estava na realidade a ocorrer. E essa economia de meios funciona…! Da mesma forma e em plena viagem de circum-navegação, no navio por ele comandado, há momentos em que se assiste a uma severa punição dos que foram apanhados a prevaricar, castigos que incluíam penas de morte. No entanto, só vemos o essencial dos julgamentos sumários e nunca a mortal consumação da sentença. Nessas sequências, os planos vão até ao limite da figuração gráfica, antes dos condenados serem executados. Trata-se de uma opção de montagem (não acredito que seja mero pudor) que convoca, pelo corte e ocultação de uma acção, a interiorização das subjacentes práticas violentas. E, como sabemos, por vezes aquilo que não se vê acaba por vingar com muito mais força e sobressalto na mente de quem só lhe resta imaginar o sucedido. E, neste caso, não é pouco.

Na verdade, fotografia e montagem são os valores seguros desta obra em que a representação das relações humanas, sobretudo na selva, atinge uma dinâmica que, nem sempre, mas na maioria dos casos, se combina de forma compatível com o ritmo próprio de uma ficção onde Lav Diaz (responsável pela imagem, juntamente com Artur Tort) procura replicar a sensação de vivermos rodeados pelo verde da vegetação, pelo barro do solo, pelos ecos da rebentação no mar, pelo borbulhar das águas nos rios, por um vento que não parece amainar e por uma humidade que paira no ar e que se adensa por entre a atmosfera filtrada onde se vislumbram fugazes raios de luz solar.
Mas a Natureza, por si só, vale o que vale, e o lado humano acaba por ser o mais determinante. No papel de Fernão de Magalhães encontramos o actor mexicano Gael García Bernal. Na pele da sua personagem, irá comprar um escravo, o malaio Enrique (Amado Arjay Babon) que passa a ser o seu melhor coadjuvante e homem-de-mão. Dir-se-ia que, sem ele, o navegador estaria mais vulnerável quando em contacto com uma realidade que não era a sua. Pertence a Enrique, aliás, a última fala do filme. E fala de liberdade…! E está aqui o selo filipino que Lav Diaz quis fazer prevalecer ao longo dos 164 minutos da produção e co-produção «Magalhães» (onde se destaca a ROSA FILMES de Portugal). Está aqui igualmente impresso o olhar narrativo do país do realizador e do seu país, ou, pelo menos, do círculo de cumplicidades anticoloniais. Declaração identitária, claramente expressa, particularmente para quem quiser ver esta obra na perspetiva, não do colonizador, mas do colonizado.
Entretanto, no quadro europeu, na passagem por Lisboa e pelos recantos de Portugal e Castela, Fernão de Magalhães irá preparar, com a informação disponível, uma viagem destinada a atingir o Oriente por Ocidente. Neste ponto, qualquer pessoa com um mínimo de conhecimentos históricos sabe que, por desentendimentos com D. Manuel I, o português acabou por oferecer os seus serviços ao monarca castelhano, D. Carlos I. Não era o primeiro a propor essa rota, mas foi ele quem finalmente encontrou a passagem natural que ligava o Oceano Atlântico ao Pacífico (o ainda hoje difícil de atravessar Estreito de Magalhães).

Todavia, desenganem-se aqueles que pensem ser este o filme da grande aventura marítima de circum-navegação, porque não foi essa a intenção dos produtores e do realizador. Digamos que a viagem está lá, mas concebida como se fosse uma sequência de quadros exemplares em que os marinheiros e aqueles que os comandavam são figuras de pose de uma multifacetada e imensa composição pictórica, homens cujo rosto e cicatrizes corporais pertencem a uma genealogia cristã e ocidental, cuja alma se perdeu algures na longa e penosa viagem. Muitos pressentiam que nunca voltariam aos seus lares. Há mesmo um marinheiro que confessa estar a perder a fé. E a religião católica era e continuou a ser por muitos anos uma das forças motrizes destes empreendimentos, para o melhor e para o pior.
De facto, estas viagens implicavam um resoluto espírito missionário, e Fernão de Magalhães não se furtou ao seu papel de ideólogo espiritual, impondo aos habitantes das ilhas ocupadas a figura do Menino Jesus milagreiro e a ideia de um Jesus Cristo que substituísse as divindades pagãs, mesmo quando isso significava, mais dia, menos dia, a sua perdição. Tudo acabará por descambar quando da persuasão pacífica passou, com os restantes marinheiros-soldados, ao puro e simples exercício do poder pelas armas. E mais uma vez o filme vai carregar aqui as cores dos sentimentos e valores nativos para justificar a brutal ressaca da evangelização forçada e a resposta dada, a que anunciava o fim (inevitável ou não) do navegador, chefe militar e explorador de novos mundos. Esqueceram os fanáticos da época, ou melhor, poucos quiseram saber, que entre os nativos que acolheram os ocidentais não havia apenas gente simples disposta a renegar a sua cultura e os seus ritos em nome de um Deus que, para eles, não passava de mais um esculpido na madeira a juntar aos seus muitos outros ídolos ancestrais.
Por fim, fazendo jus ao projecto «Magalhães», após a morte do português nem se menciona o seu sucessor, o basco Juan Sebastián Elcano (1476-1526), que completou a viagem de circum-navegação a 8 de Setembro de 1522. Não será bem uma falha, antes uma ausência com uma intenção vincadamente dramática: como já fiz notar, será a personagem do nativo Enrique a escolhida para encerrar o filme, em nome de uma liberdade adquirida, e não a de um estrangeiro, europeu e colonizador. Em suma, um projecto que mantém a imagem de marca e modelo de realização de Lav Diaz, abordagem pessoal e até certo ponto nacionalista, com os ingredientes necessários para confirmar ou despertar o interesse pela matéria em causa, assim como pela inegável universalidade de uma vida singular. No fundo, a herança culturalmente relevante que perdura quando se invoca o nome de Fernão de Magalhães.
Caixa Destaque
Título original: Magalhães
Título internacional: Magellan
Realização: Lav Diaz
Elenco: Gael García Bernal, Amado Arjay Babon, Ângela Azevedo, Dario Yazbek Bernal, Tomás Alves
Duração: 160 min.
Filipinas/Espanha/Portugal/França/Formosa, 2025




