Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

Dossier 137 – Dominik Moll

Filho de mãe francesa e pai alemão e nascido na Alemanha há praticamente 64 anos, Dominik Moll é desde há várias décadas um valor seguro do cinema francês. Autor de filmes como «Harry, um amigo ao seu dispor» e «Lemming», ganhou mais recentemente uma nova vida com dois títulos seguidos na linha do cinema de investigação, «A Noite do Dia 12» e «Dossier 137». Neste último, uma agente da IGPN, o departamento de investigação interna da polícia francesa, investiga um possível caso de violência policial abusiva e injustificada, que deixou um jovem com danos físicos e mentais irreversíveis, durante uma das manifestações dos Gillets Jaunes, o movimento dos Coletes Amarelos que abalou a sociedade francesa antes do Covid. Para esta investigadora, que descobre os limites do seu trabalho, não se trata apenas de mais um caso. Léa Drucker venceu o César de Melhor Atriz e Dominik Moll confessa-se à nossa revista. 

A questão dos Coletes Amarelos continua na ordem do dia na sociedade francesa?

Dominik Moll: Não é um filme sobre os Coletes Amarelos, mas um filme sobre a «polícia das polícias», sobre uma investigadora que tenta fazer bem o seu trabalho dentro desta instituição e que vai confrontar-se com os seus limites. Queria falar da manutenção da ordem e da violência policial para questionar o papel da polícia na nossa sociedade. Mas é verdade que me parecia importante situar o filme no momento dos Coletes Amarelos, porque também o poderia ter feito durante as manifestações contra a reforma das pensões ou noutra altura.

Porquê então essa pequena viagem no tempo?

Dominik Moll: Quando começámos a trabalhar no projeto, em 2023, já não se falava dos Coletes Amarelos. Como se nunca tivesse acontecido. Quando, durante um ano, abalou a França. O poder estava um pouco em pânico, não sabia de todo como reagir. Nunca tinha acontecido um movimento assim, espontâneo, sem representantes, sem sindicatos, sem movimento político por trás. Apanhou toda a gente de surpresa. E faz parte da história da França, realmente.

O movimento, entretanto, esvaziou-se…

Dominik Moll: Houve o Covid, e depois não se passou nada. Quando os problemas expressos por esse movimento estavam e estão longe de estar resolvidos. Portanto, interessava-me revisitar esse movimento através desta investigação policial, e também porque esse movimento foi a expressão de uma fratura muito forte que ainda existe na sociedade francesa, nomeadamente entre o poder muito centralizado em Paris e a província.

Na imprensa internacional só se falava quase do que se passava em Paris…

Dominik Moll: Mas nas pequenas cidades e nas zonas rurais as pessoas que participaram nessas manifestações tinham a impressão de que ninguém queria saber dos seus problemas e que, a partir de Paris, não eram vistos. Foi por isso que usavam coletes amarelos: para serem vistos, no fundo. Parecia-me importante voltar a falar disso sem fazer disso o tema principal.

A repressão policial foi por vezes muito violenta, o que nos leva ao seu filme.

Dominik Moll: Os Coletes Amarelos tinham origens sociais e geográficas muito próximas de muitos polícias que faziam a manutenção da ordem. Aliás, os Coletes Amarelos pensavam que os polícias iam estar do lado deles, e o governo também teve medo disso, de um possível contágio. O facto de haver dois grupos populacionais bastante próximos, mas que são colocados uns contra os outros, o que convém ao poder político, parecia-me igualmente interessante.

Teve acesso a um caso específico para saber exatamente os procedimentos? Estes dossiês são públicos?

Dominik Moll: Estudei vários casos. O que está no filme não existe enquanto tal, nós recompusemo-lo. Tive acesso a vários dossiês. Por vezes eram investigações jornalísticas. E também tive acesso a dossiês de investigação com todos os autos e as transcrições dos interrogatórios. Isso foi muito útil, precisamente para ver, por exemplo, a repetição das perguntas, das respostas que são quase sempre as mesmas, a forma como os polícias se defendem quando são acusados.

E falou com alguns polícias sobre este tema?

Dominik Moll: Passei uma semana dentro da «polícia das polícias», onde assisti a interrogatórios policiais em casos muito menos graves, mas onde também via que, quando eram implicados, era quase uma estratégia nunca admitir nada. Dizem sempre que viam a situação de uma outra forma. Ver isso ao vivo é sempre mais interessante do que ler uma transcrição, porque também se vê o desconforto do polícia que é chamado, eles nunca ficam muito contentes.

O filme cria um ambiente quase hitchcockiano…

Dominik Moll: Essas observações diretas, o estudo dos processos de instrução e as trocas que tive com várias pessoas, nomeadamente investigadoras da IGPN, ajudou-me a construir esta investigação que tem algo de hitchcockiano sim, no sentido em que funciona com os códigos do policial: tensão, suspense, reviravoltas na narrativa….

Há uma ressonância com a atualidade, com a situação nos Estados Unidos, por exemplo, embora a violência aqui seja não só racial, mas também social.

Dominik Moll: A violência é muitas vezes racial quando acontece nos bairros, nos subúrbios. Aliás, em França, todas as armas foram de certa forma testadas nos subúrbios. Houve uma altura em que se podia dizer que nos subúrbios eram todos traficantes, portanto era normal que a polícia os atacasse. Mas de repente percebemos que não diz respeito apenas aos outros.

Uma coisa assustadora no que vimos em Minneapolis é que as provas visuais já não têm valor nenhum.

Dominik Moll: Nas investigações que acompanhei, as imagens têm um papel muito importante. Avança-se porque se encontra um vídeo que permite identificar os polícias ou perceber o que aconteceu. No filme, mostram ao polícia que deu um pontapé, e ele responde que foi o manifestante que tentou agarrar a perna dele. Em Minneapolis foi igual: vê-se um vídeo onde um homem dispara sobre uma mulher ao volante, mas o presidente dos Estados Unidos e todos os que o rodeiam disseram que era uma terrorista que quis atropelar o agente. Basta mentir de forma suficientemente descomplexada para que muita gente repita a mesma coisa. E isso diz muito sobre as sociedades contemporâneas.

No final do filme, a investigadora diz à mãe do rapaz que nenhum polícia foi despedido por violência policial. Isso é verdade?

Dominik Moll: Em França, sim. Por casos de corrupção talvez, mas não por violência policial. Há por vezes condenações, mas geralmente com pena suspensa, mesmo que haja pena de prisão, não vão para a prisão e podem continuar a exercer. Mas não há casos de polícias expulsos da corporação por violência policial. Mas isso também é um problema em França: há uma incapacidade de nomear as coisas e dizer: sim, há violência policial, o que não quer dizer que toda a polícia seja violenta, mas isso existe e deve ser sancionado.

O que impede que isso aconteça?

Dominik Moll: O problema é o poder dos sindicatos policiais, nomeadamente o sindicato maioritário, a Alliance, que é de extrema-direita. O seu poder é enorme. E os políticos têm muito medo de os enfrentar, porque precisam deles para proteger o seu poder. Então evitam qualquer coisa que os possa irritar. Mesmo da parte dos políticos, é raro haver posições fortes, mesmo em casos inaceitáveis.

“Muitos polícias disseram que gostaram do filme

A Léa Drucker é magnífica. Já tinham trabalhado juntos, mas há muito tempo. Porque pensou nela para esta personagem?

Dominik Moll: Porque ela é boa! (risos) Não, é sempre difícil dar uma resposta racional. Há também uma parte de intuição. Quando se escreve um argumento, começa-se a pensar em atores, e às vezes esquece-se, outras vezes fica. A certa altura, comecei a pensar nela cada vez mais. Claro que já tínhamos trabalhado juntos, mas também acompanhei a sua carreira.

O que a distingue das outras atrizes francesas do momento?

Dominik Moll: Gosto do facto de ter uma paleta muito ampla: pode ser impressionante em papéis dramáticos, mas também tem talento para a comédia e para a leveza. E isso era importante, porque eu queria também momentos de leveza. E ela é uma atriz muito fina, subtil, com grande inteligência. Como sabia que a personagem ia conter muito as emoções, pareceu-me a escolha certa.

Depois de «A Noite do dia 12», parece gostar particularmente de filmes de investigação.

Dominik Moll: Antes, tentei evitar a polícia, porque há tantos filmes sobre esse tema. Mas «A Noite do dia 12» baseava-se num livro muito bem documentado, e percebi que há muitas coisas de que nunca se fala e que são interessantes. O facto de contar uma história sem resolução, onde não se encontra o culpado, parecia-me uma forma nova de fazer um policial. E isso deu-me vontade de continuar a explorar a instituição policial. Mas não sei qual será o próximo filme. Pode ser algo completamente diferente. Talvez haja uma trilogia, talvez não.

Porque escolheu a região de Saint-Dizier?

Dominik Moll: Porque é uma cidade do leste de França de que quase não se fala. Queria uma localidade nem demasiado pequena nem demasiado grande, e um pouco anónima, a maioria dos franceses nem sabe onde fica. Fica a duas horas e meia de Paris, mas parece invisível. É uma cidade que sofreu com a desindustrialização, com muito desemprego, e onde o movimento dos Coletes Amarelos foi forte. Mas sobretudo interessava-me o facto de não ter identidade marcante, ao contrário de outras cidades com características fortes. Isso servia o tema do filme.

Pode falar do processo de montagem, que junta imagens reais de manifestações com outras que são recriadas?

Dominik Moll: No início do filme há fotos reais das manifestações, para relembrar o contexto. Depois, para os vídeos da investigação, vi muitos arquivos e selecionei planos que podiam servir. Recriámos muitas cenas com figurantes e misturámo-las com imagens reais para reforçar o efeito de realidade, especialmente as que mostram interações entre polícia e manifestantes.

Qual foi a reação da instituição policial ao filme?

Dominik Moll: No geral, bastante positiva. Muitos polícias vieram falar comigo e disseram que gostaram do filme. Claro que alguns não gostaram, mas esses não vieram falar comigo. Não houve ameaças. E não houve campanhas de ódio como às vezes acontece. Algumas críticas vieram de canais como a CNews, que disseram que era escandaloso mostrar polícias a disparar sobre manifestantes. Mas foram minoritárias.

O filme relançou o debate na sociedade francesa?

Dominik Moll: Infelizmente, não. Gostaríamos sempre que isso acontecesse. Sobretudo em relação às vítimas, que não são reconhecidas como tal. Nunca lhes dizem seque que aquilo não devia ter acontecido. São deixadas sozinhas com as suas lesões. E isso é terrível. Muitas nem eram pessoas violentas, estavam apenas no lugar errado à hora errada. Gostaria que o filme tivesse relançado esse debate, mas não aconteceu. O poder do cinema é limitado. Talvez haja uma forma de desconforto. A crítica foi globalmente boa, mas há um certo snobismo: como trata de um tema social, não seria «verdadeiro cinema».

Artigo anterior
João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

Também Poderá Gostar de