Logo a abrir, «Zwei Staatsanwälte» («Dois Procuradores»), 2025, de Sergei Loznitsa, aposta na concisão da contextualização histórica ao assinalar, preto no branco, quea acção decorre em 1937, na URSS, ou seja, num dos períodos de maior intensidade das chamadas purgas estalinistas.
O filme também parte do princípio de que a maioria dos espectadores sabe algo mais sobre a matéria e até, digo eu, que deram boa conta da mesma ao visionarem um dos mais impactantes documentários do realizador, «Prozess» [«Process»], 2018. O documentário era uma montagem criativa de materiais de arquivo sobre o julgamento de economistas, engenheiros e cientistas de alta patente, acusados de conspirar contra o então poder soviético com a intenção de o derrubar através de um golpe de estado.
Sergei Loznitsa (nascido em 1964 na República Socialista Soviética da Bielorrússia, mas com carreira cinematográfica iniciada na Rússia e prosseguida, entre outras paragens, na Ucrânia) procurou organizar o principal da estrutura narrativa num espaço cercado e encerrado sobre si próprio e delimitado pelo labirinto de corredores, grades e apertadas celas da prisão de alta segurança de Bryansk (a pouco menos de quatrocentos quilómetros de Moscovo). Mesmo os gabinetes dos responsáveis pela manutenção da ordem e da vigilância dos presos confinados a alas especiais e considerados culpados de comportamento anti-social são divisões espartanas, com mobília funcional, sem conforto.
Trata-se aqui de recordar, sem falsas demagogias, a velha questão que se levanta quando se retrata o inevitável confinamento de uma prisão, ou seja, a de que os guardas acabam por sentir a sua liberdade diminuída apesar de, por comparação com os condenados, serem homens livres.
Seja como for, neste domínio da criação de ambientes de assombro, o filme cumpre os mínimos ao criar com particular eficácia a atmosfera concentracionária que permite aos actores secundários e ao protagonista, o procurador Kornyev (Aleksandr Kuznetsov), conceberem o seu desempenho num quadro ficcional seguro e firme onde a interacção entre personagens vive marcada pelo segundo sentido dos diálogos e de uma ou outra réplica mais furtiva. Deste modo, quase sempre sem necessidade de expressar mais nada a não ser o essencial das palavras ditas ou sussurradas, provocando momentos de letal e curvilínea sinuosidade. No rosto aparentemente sereno do jovem advogado nomeado para vigiar e promover o cumprimento da lei, neste caso no campo prisional, pode ler-se um misto de convicção pela razão maior do seu papel e de uma certa inquietude pelo que vai descobrindo e pelas informações que vai recolhendo. Mas vamos por partes.

Tudo começara com a leitura de um “simples” papel escrito por um prisioneiro de nome Stepniak (Aleksandr Fillipenko), homem a quem foram infligidas sevícias por parte das autoridades locais do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos, na prática o Ministério do Interior da URSS entre 1934 e 1946). Esse pequeno papel (segundo se diz, escrito com o próprio sangue) chegou (presume-se com cumplicidade interna de um guarda prisional) ao conhecimento do jovem procurador que, movido pelo idealismo das causas justas e bolchevique convicto, desencadeou as diligências necessárias para perceber com mais profundidade aquilo que realmente se passou e passava no interior da referida prisão, assim como a amplitude das supostas actividades da NKVD na região de Bryansk.
Neste ponto, Sergei Loznitsa demonstra mais uma vez que, quando fala sobre um assunto delicado, não o faz sem pôr o dedo inteiro na ferida. Já o fizera, por exemplo, no excelente «Donbass», 2018, onde a Guerra da Ucrânia (a que se iniciou não em 2022 com a invasão russa mas a que se seguiu ao golpe de 2014) foi referida sem a habitual hipocrisia e manipulação propagandística, facto que incomodou alguns dos seus colegas cineastas ucranianos, adeptos da censura e da mistificação ideológica, que muito o criticaram.
Sergei Loznitsa resistiu, e no «Dois Procuradores» veio novamente demonstrar que não se esconde por detrás da fama e do seu estatuto profissional nem oculta a verdade dos factos, por mais difíceis que sejam de encarar. Assim sendo, na conversa que Kornyev estabelece na cela com o prisioneiro Stepniak, percebemos que, frente a frente, estão dois homens cuja integridade ideológica (herdada da Revolução de Outubro de 1917) se mantém activa. Dois idealistas cujas aspirações revolucionárias não foram apagadas e provavelmente ainda perfilham o exemplo do combate leninista. Na encenação do vigiado encontro entre ambos irá perdurar o sentimento de que o velho e o novo bolchevique continuam do mesmo lado da barricada. Percebemos essa dialéctica, não obstante a bruma silenciosa do que não será verbalizado.

Entretanto, o jovem procurador viaja até Moscovo ao encontro do outro procurador de quem se fala, ou seja, o procurador-geral da URSS, Andrey Vyshinsky (Anatoliy Beliy). Depois de ultrapassar barreiras e burocracias comuns aos meandros de qualquer poder instalado, consegue a solicitada audiência onde, com uma sinceridade desarmante (mas igualmente alarmante para quem saiba o que ali se estava a passar), acaba por denunciar os abusos do NKVD na sua área de jurisdição. Mais, ele pensa que essa força policial possa estar infiltrada por agentes corruptos e por mentores de uma agenda contra-revolucionária. Parece ingénua esta formulação, apesar de conter uma boa dose de amarga e concreta consciência sobre aquilo que podia de facto estar a contaminar alguns actos da organização. Mas as coisas são sempre mais complicadas do que parecem numa primeira abordagem e, no jogo político do gato e do rato, Kornyev não soube (ou não podia) ler nas entrelinhas daquilo que o poder lhe disse (e sobretudo não disse na seráfica reunião em Moscovo). Na verdade, não mediu a distância a que estava o fulgor dos ideais passados perante a normalização institucional do regime. No final, o filme regressa ao plano inicial, e por aqui me fico para não estragar a “surpresa”.
E sobre a figura interpretada por Aleksandr Kuznetsov (a que os olhos expressivos do actor e o nariz partido de boxeur dão um ar grave e determinado, pressupondo experiências de vida que afinal não se haviam cumprido) fica aqui o depoimento de Sergei Loznitsa: “O nosso herói, qual protagonista de um conto de fadas, está rodeado pelo desconhecido. Não se apercebe do mundo em que está a viver. Faz o que considera lógico e justo, mas o mundo não é nada como parece. O jovem procurador soviético, Kornyev, avança praticamente às cegas. E a pergunta para a qual precisa de encontrar resposta será: onde estou e o que está a acontecer-me? O filme está dividido em duas partes, com um prólogo e um interlúdio entre os capítulos. Toda a primeira parte do filme é, na verdade, apenas o início da história de Kornyev”.
Título original: Zwei Staatsanwälte
Título internacional: Two Prosecutors
Realização: Sergey Loznitsa
Elenco: Alexander Kuznetsov, Aleksandr Fillipenko, Anatoliy Beliy
Duração: 118 min.
França/Alemanha/Países Baixos/Letônia, 2025
Fotos: ©SBS_Productions



