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O Cinema Português e os Moinas

Um estudo diz que o público ama o cinema português. Acabou por revelar que muitos só se lembram dos “Moinas”, confundem filmes com séries e continuam a achar que a palavra proibida é mesmo “chato”. Um estudo da NOS quis provar que o público adora cinema português. Acabou por mostrar outra coisa: muita gente chama-lhe “chato”, lembra-se […]

Um estudo diz que o público ama o cinema português. Acabou por revelar que muitos só se lembram dos “Moinas”, confundem filmes com séries e continuam a achar que a palavra proibida é mesmo “chato”.

Um estudo da NOS quis provar que o público adora cinema português. Acabou por mostrar outra coisa: muita gente chama-lhe “chato”, lembra-se de “Balas & Bolinhos”, confunde cinema com a série “Rabo de Peixe” e talvez esteja apenas à espera de mais moinas, mais comédias e menos PowerPoints a fingir que descobriram a pólvora.

O estudo “Made in Portugal — O Cinema Português aos Olhos do Público”, apresentado pela NOS no arranque da 11.ª edição dos Encontros do Cinema Português, tinha tudo para ser uma revelação sociológica, um espelho brutal, uma espécie de Raio-X às nossas relações difíceis com o cinema nacional. Em vez disso, saiu-nos uma coisa mais portuguesa: um inquérito online a 300 pessoas, embrulhado em optimismo institucional, servido com ar de descoberta científica e temperado com aquele velho molho agridoce das relações públicas. Ou seja, um prato que tenta parecer alta cozinha, mas deixa no fim um certo sabor a buffet de centro comercial.

O título oficial já vinha em si bem embrulhado: “O Cinema Português aos Olhos do Público”. Belo, sério, quase com cheiro a relatório estratégico. O problema começa logo nos olhos. Que público? Que espectadores? Que hábitos? Que relação real com as salas? Que memória cinematográfica? Que idade, que região, que classe social, que consumo cultural, que frequência de ida ao cinema, que diferença entre ver um filme português numa sala, na televisão, numa plataforma ou por acidente, numa noite de zapping? O estudo foi feito online a 300 residentes em Portugal Continental, entre os 18 e os 64 anos, uma amostra que qualquer metodólogo de inquéritos de opinião pública sabem que este enquadramento é demasiado curto para grandes conclusões nacionais e que fica aquém dos mínimos 384 inquiridos habitualmente apontados como referência para maior representatividade.

Mesmo assim, parece que não faltou entusiasmo nà apresentação. E compreende-se. A NOS é a maior exibidora e distribuidora em Portugal, organiza os Encontros de Cinema Português, aparentemente promove o cinema português, investe, distribui, exibe e tem, naturalmente, todo o interesse em descobrir no meio da confusão uma frase bonita para colocar no cartaz: “91% dos portugueses vê cinema português.” É uma bela frase de facto. Quase dá vontade de levantar uma bandeira na varanda, cantar “A Portuguesa” e telefonar ao ICA a dizer: “Está tudo resolvido, meus amigos. O povo ama-nos.” Só que depois começa o verdadeiro drama. Ou melhor o filme, como tantas vezes no cinema português, não bate certo com o trailer.

A grande comédia dos 91%

O número dos 91% é daqueles que parecem sair directamente de uma campanha eleitoral. Tudo depende da pergunta, do enquadramento, da forma como se somam respostas e da generosidade com que se arruma a realidade dentro de uma percentagem redondinha. O próprio estudo diz que 91% vê cinema português, mas também diz que 41% não viu nenhum filme nacional no último ano e 4% nem sequer se recorda se viu ou não. Portanto, estamos perante uma esmagadora maioria que vê cinema português, embora quase metade não tenha visto recentemente ou não se lembre. Extraordinário. É como dizer que 91% dos portugueses fazem exercício porque um dia subiram as escadas do prédio em 2019. Esta é a primeira grande contradição. Ver cinema português, neste estudo, parece significar quase tudo: ter visto um filme há anos, ter apanhado uma comédia na televisão, lembrar-se vagamente de ter visto o “Balas & Bolinhos”, associar “Rabo de Peixe” ao cinema nacional — apesar de “Rabo de Peixe” ser uma série de televisão — ou simplesmente não rejeitar a ideia abstracta de que Portugal também faz filmes. A memória do espectador surge como uma mala de sótão: abre-se e lá dentro aparecem uma cassete, uma recordação, uma frase, um actor, uma série da Netflix, uma gargalhada antiga e talvez um bilhete amarrotado do tempo em que ainda se ia ao cinema sem vender um rim para comprar pipocas.

O caso de “Rabo de Peixe” é particularmente delicioso. Quando se pergunta ao público por cinema português e uma das referências espontâneas é uma série televisiva, talvez o problema não esteja apenas no público. Provavelmente a pergunta não foi bem colocada. Ou então, talvez esteja na forma como o próprio mercado, os canais, as plataformas e a comunicação dissolveram tudo numa sopa chamada “conteúdo”. Cinema, série, streaming, televisão, trailer, reels, bastidores, entrevista, tudo cabe no mesmo balde. A indústria passou anos a chamar “conteúdo” a tudo o que mexe e agora fica surpreendida quando o espectador também já não distingue muito bem um filme de uma série, uma longa-metragem de um episódio, uma estreia em sala de uma recomendação do algoritmo. “Balas & Bolinhos” e “Rabo de Peixe” surgem mesmo entre as memórias mais imediatas quando se fala do último filme português que levou espectadores ao cinema e a gargalhada do sector terá sido inevitável.

Será caso para rir? Sim. Mas não demasiado. Porque a gargalhada também pode ser nervosa. O público não é obrigado a pensar como um programador de festival. O público pensa por marcas, por memórias, por rostos, por fenómenos. Se “Rabo de Peixe” aparece como cinema, isso diz-nos que a Netflix conseguiu fazer por uma ficção portuguesa aquilo que muitos filmes nacionais não conseguem: criar conversa, reconhecimento, desejo, pertença, ruído público. O “impostor”, como terá sido chamado, talvez seja menos um erro da amostra e mais uma denúncia involuntária do sistema.

Quando o público chama “chato” e o PowerPoint responde “positivo”

A parte mais honesta do estudo é também a mais inconveniente. Quando os inquiridos associam palavras ao cinema português, 45% das referências são negativas. As palavras são claras como uma sentença de tribunal: “chato”, “aborrecido”, “baixa qualidade”, “lento”, “dramático”, “teatral”, “monótono”, “pouca acção”, “poucos efeitos especiais”. Nada disto é novo, claro. Quem anda há anos nas salas, nos festivais, nos debates, nos lançamentos e nas sessões com quinze pessoas sabe que este murmúrio existe. A novidade é vê-lo transformado em gráfico, com percentagens, barras coloridas e ar de quem acabou de descobrir uma tribo perdida.

O problema é que a apresentação tentou, pelo que se percebe, embrulhar tudo numa leitura positiva. E aqui entramos no velho talento português para maquilhar cadáveres. O público diz “chato”, o PowerPoint responde “oportunidade”. O público diz “não me interessa”, o relatório responde “barreira de notoriedade”. O público diz “não sei que filmes estreiam”, o sector responde “precisamos de reforçar a comunicação estratégica”. É tudo verdade, mas também é tudo uma forma elegante de evitar a frase simples: muita gente não quer ver cinema português porque o imagina maçador. E, nalguns casos, porque já o experimentou e confirmou a suspeita. Convém não fazer batota no sentido contrário. O público também pode ser injusto, preguiçoso, formatado pelo consumo dominante, pouco curioso, alérgico ao risco. Nem todo o filme português lento é mau. Nem todo o filme difícil é arrogante. Nem todo o silêncio é vazio. O cinema português deu, dá e continuará a dar obras essenciais, radicais, belas, desconcertantes, feitas contra a facilidade e contra a ditadura do gosto médio. O problema é quando se confunde exigência com aborrecimento, pobreza de produção com pureza estética, falta de ritmo com profundidade filosófica, actores a murmurar em cozinhas mal iluminadas com cinema de autor.

E depois existe o outro extremo: o popularucho. Aquele cinema feito com a mesma delicadeza de uma bifana atirada para dentro de um prato de plástico, mas que enche salas, dá receitas, alimenta a máquina e permite aos exibidores sorrirem sem terem de convocar Manoel de Oliveira ou João César Monteiro, para justificar a existência do país. A NOS, enquanto empresa de entretenimento, sabe perfeitamente onde está o dinheiro. Não está, regra geral, no filme português contemplativo sobre a decomposição moral de uma família alentejana filmada em planos fixos de oito minutos. Está na comédia reconhecível, nos rostos televisivos, no fenómeno de massas, no “Curral de Moinas”, naquilo que faz o público comprar bilhete sem sentir que está a cumprir serviço cívico.

Vivam os Moinas, portanto

Este título “O Cinema Português e os Moinas” diz muito sobre o beco em que estamos metidos. De um lado, o cinema português que quer ser respeitado, premiado, legitimado, citado em catálogos estrangeiros, programado em Berlim, Locarno, Cannes, Veneza, Roterdão, San Sebastián, Viena, Buenos Aires, onde for preciso. Do outro, quando se pergunta ao público o que gostaria de ver mais, aparecem comédia, acção, thriller, histórias actuais, melhores preços, actores conhecidos. Ou seja, o público não pede necessariamente “mais cinema português”. Pede mais cinema português que pareça cinema para ele.

NOS não precisa de um estudo para saber isto. O estudo parece antes uma justificação elegante, com verniz estatístico, para continuar a apostar no que já sabe que funciona: entretenimento de maior alcance, comédia, fenómenos populares, marcas reconhecíveis, rostos televisivos, títulos que vendem. E não há escândalo nenhum nisso. A NOS não é uma irmandade monástica dedicada à salvação espiritual do cinema de autor português. É uma empresa. Distribui, exibe, vende bilhetes, precisa de receitas, ocupa salas, responde a accionistas, mede resultados. O que é estranho não é a NOS gostar de filmes que dão dinheiro. O estranho é precisarmos de fingir que um inquérito a 300 pessoas veio revelar uma verdade misteriosa sobre o gosto nacional.

A verdade estava à vista: as comédias portuguesas de maior apelo popular, os remakes de clássicos, à excepção de “A Gaiola Dourada”, vem “O Pátio das Cantigas”, “O Leão da Estrela” e depois claro os recordistas “Curral de Moinas”“Balas & Bolinhos” e outros fenómenos de reconhecimento público que têm uma presença na memória do público, que muitos filmes premiados nunca tiveram. Podemos gostar mais ou menos deles. Podemos achá-los pobres, eficazes, preguiçosos, populares, simpáticos, medíocres, necessários, oportunistas ou simplesmente divertidos. Mas eles existem na cabeça do público. E isso, em cinema, não é pouco. Às vezes é quase tudo.

O problema é quando a indústria fica presa entre duas caricaturas: ou o filme “sério” que ninguém vê, mas toda a gente respeita em voz baixa nem a crítica às vezes tem a coragem de dizer que é mau e o Jardim do Principe Real é pequeno e corre o risco de levar uns sopapos do realizador ou do produtor; ou a comédia “popularucha” que muita gente vê, mas quase ninguém respeita em público. No meio, esse território vasto e quase de extremos, onde poderiam viver thrillers inteligentes, comédias sofisticadas, melodramas adultos, filmes históricos, cinema de género, adaptações literárias acessíveis, dramas familiares com nervo, policiais urbanos, filmes juvenis, terror português, aventuras, sátiras sociais, quase sempre falta coragem, escala, argumento, produção, promoção ou continuidade.

Portugal ou melhor grande parte do sector, conseguiu transformar a palavra “público” numa espécie de organização suspeita, que conspira contra o cinema português. Se um filme quer público, desconfia-se. Se diverte, desconfia-se. Se tem ritmo, desconfia-se. Se usa actores conhecidos, desconfia-se. Se faz rir, desconfia-se. Se é visto por muita gente, desconfia-se ainda mais. Como se a popularidade fosse uma doença de pele. Como se o cinema não tivesse nascido também dessa energia colectiva, desse prazer de sala, dessa vontade de ver histórias maiores do que a nossa vida pequena.

Um estudo falhado, mas útil sem querer

Convém ser justo: mesmo tecnicamente limitado e metodologicamente discutível, o estudo toca em algumas feridas reais. A divulgação continua a ser um desastre. Segundo os dados citados, 36% dizem não se aperceber dos filmes novos ou que a informação não lhes chega; 29% acham que não existem filmes portugueses suficientes; 11% dizem que não os encontram nos cinemas. A segunda resposta é quase cómica, porque foram estreados dezenas de filmes portugueses num só ano, mais de um por semana às vezes segundo os dados do ICA. O público acha que não existem porque não os vê, não os encontra, não os reconhece, não os sente como acontecimento. O filme estreou? Talvez. Onde? Numa sala às 14h10, durante cinco dias, com um cartaz que parecia feito por por alunos principiante de uma escola de design gráfico e uma campanha de comunicação que consistiu em três posts no Instagram e uma entrevista que ninguém leu.

Isto não é culpa exclusiva da NOS, nem dos produtores, nem dos realizadores, nem do ICA, nem dos exibidores, nem dos jornalistas, nem do público. É uma cadeia inteira a funcionar mal. Os filmes chegam tarde, mal, pouco, sem ruído, sem tempo, sem desejo. Muitos passam por festivais internacionais, recebem elogios, talvez até prémios, e só estreiam meses depois, quando a pequena chama de atenção já se apagou. Outros são lançados sem qualquer capacidade de disputar espaço mental e em simultâneo e ao lado nas mesmas salas, com um blockbuster americano, uma série da semana, um jogo de futebol, uma polémica política ou uma tempestade no TikTok. Depois lamenta-se a falta de público com aquele ar fúnebre de quem chega atrasado ao próprio enterro.

O estudo também revela outra coisa: apenas 21% viu o último filme português no cinema; 45% viu-o na televisão e 24% numa plataforma de streaming. Isto devia obrigar-nos a pensar mais e melhor. Talvez alguns filmes portugueses não tenham de passar todos obrigatoriamente pela sala como se fosse uma prova de nobreza. Talvez muitos documentários, pequenas ficções, objectos experimentais, filmes de circulação limitada, tivessem mais vida, mais público e mais impacto se fossem pensados desde logo para televisão, plataformas, circuitos alternativos, escolas, cineclubes, bibliotecas, autarquias, comunidades. A sala é essencial, mas não pode ser um altar onde se sacrifica tudo, incluindo o próprio filme. O mais surpreendente é que a NOS, ao apresentar o estudo de forma tão positiva, parece querer vender a ideia de que o problema está quase resolvido: o público vê, o público gosta, o público acha importante. Só falta afinar umas coisas. Pois. O público também diz que o cinema português é chato. O público também não se lembra do que viu. O público também confunde séries com filmes. O público também não vai às salas. O público também diz que quer mais acção, mais comédia e mais histórias actuais. Não vale escolher apenas os dados que dão jeito e esconder os outros debaixo do tapete vermelho.

A indústria que queremos ou a indústria que fingimos ter?

Outra pergunta do estudo merece uma gargalhada e uma aspirina: considera importante que Portugal tenha uma indústria de cinema forte e activa? Segundo o estudo, 66% considera importante. Claro que sim. Quem é que vai responder que não? “Não, acho óptimo que o meu país não tenha cinema, nem cultura, nem produção, nem actores, nem técnicos, nem histórias, nem memória.” É uma pergunta simpática, mas quase inútil. Toda a gente é a favor de coisas boas formuladas de maneira abstracta. Também seríamos todos a favor de uma indústria forte de unicórnios sustentáveis se a pergunta aparecesse num inquérito.

A questão verdadeira seria outra: quanto está o público disposto a pagar, procurar, acompanhar, arriscar, discutir e defender o cinema português? Que tipo de cinema português quer ver? Em que condições? Com que preço? Em que salas? Com que promoção? Com que actores? Com que géneros? Que filmes portugueses viu mesmo nos últimos doze meses? Pagou bilhete? Viu até ao fim? Recomendou a alguém? Lembra-se do título? Voltaria a ver outro? Aqui talvez o PowerPoint começasse a suar.

Portugal não tem uma indústria cinematográfica no sentido robusto do termo. Tem produção, talento, autores, técnicos, produtoras, apoios, festivais, nichos, prestígio internacional ocasional, momentos de brilho, algumas surpresas populares, muita resistência e uma enorme fragilidade estrutural. Um país pequeno dificilmente consegue rentabilizar internamente a maioria dos seus filmes. Exportar é difícil. Construir estrelas é difícil. Sustentar géneros é difícil. Criar hábitos de público é difícil. Mas o pior que podemos fazer é fingir que a dificuldade não existe e responder-lhe com slogans. A NOS está no seu papel quando tenta puxar o cinema português para as audiências, numa espécie de “abraço de urso”. O problema é quando essa aproximação fica reduzida ao instinto mais básico: se o público quer comédia, damos-lhe moinas; se quer acção, damos-lhe tiros; se quer actores conhecidos, vamos buscar caras da televisão; se quer histórias actuais, metemos telemóveis no argumento e três piadas sobre redes sociais. Isso pode resultar pontualmente, mas não constrói uma cinematografia adulta. Constrói uma prateleira de produtos. Alguns divertidos, outros insuportáveis, quase todos esquecidos mal acaba a campanha.

O público não é burro. Só não quer ser castigado

O ponto central talvez seja este: o público português não é necessariamente inimigo do cinema português. O público não acorda de manhã a pensar: “Hoje vou destruir uma cinematografia.” O público simplesmente tem muitas alternativas e pouca paciência. Quer ser surpreendido, emocionado, divertido, inquietado, comovido, assustado, agarrado. Não quer ser tratado como idiota, mas também não quer ser tratado como aluno preguiçoso numa aula de estética avançada. Quer filmes que lhe dêem alguma coisa em troca: uma história, uma personagem, uma gargalhada, uma ferida, um mistério, uma imagem, uma frase, um motivo para sair de casa.

A crítica ao “popularucho” não pode ser apenas snobismo. Existe cinema popular mau, preguiçoso, televisivo, oportunista, mal escrito, filmado como quem grava um sketch. Mas também existe cinema de autor mau, pretensioso, vazio, auto-indulgente, filmado como quem preenche um formulário para um festival. O público percebe muitas vezes essa falsidade dos dois lados. Percebe quando a comédia é apenas barulho. Percebe quando o filme “sério” é apenas pose. Pode não usar as palavras certas, pode não escrever em catálogos, pode não saber quem programou Locarno, mas sabe quando está a ser enganado.

O cinema português precisa de menos trincheiras e mais filmes. Menos guerra entre o “popular” e o “autoral”, menos complexos de inferioridade, menos medo de entreter, menos desprezo pelo espectador, menos dependência da legitimação externa, menos discursos piedosos sobre a importância da cultura. Precisa de melhores argumentos, melhores estratégias de lançamento, mais coragem de género, mais ambição visual, mais comunicação, mais pontes com televisão e plataformas, mais relação com escolas e públicos jovens, mais continuidade. Precisa, sobretudo, de parar de tratar cada filme como um acontecimento isolado e começar a construir um ecossistema onde o público saiba que o cinema português existe antes de lhe pedirem para o salvar.

No fim, o estudo “Made in Portugal” não nos diz grande coisa que já não soubéssemos. Diz que o público vê pouco, lembra-se mal, confunde formatos, gosta de comédias, quer mais acção, acha muitos filmes chatos, não encontra estreias, não recebe informação, valoriza a ideia de uma indústria nacional e vê cinema português sobretudo fora das salas. A novidade não está nos dados. Está no desconforto de os ver todos juntos, no mesmo documento, apresentados como se fossem uma história de sucesso.

O cinema português e os Moinas continuarão a conviver. Se calhar precisamos mesmo dos Moinas, dos autores, dos documentários, dos thrillers, das comédias, dos filmes pequenos, dos filmes maiores, dos filmes estranhos, dos filmes populares, dos filmes que ganham prémios e dos filmes que vendem bilhetes. Mas precisamos menos de estudos triunfais com amostras frágeis e conclusões convenientes. Precisamos de olhar para a realidade sem maquilhagem: o público não rejeita o cinema português; simplesmente não o escolhe com a frequência, a confiança e o desejo que o sector gostaria. E, enquanto assim for, podemos fazer todos os Encontros, painéis, almoços, gráficos e PowerPoints que quisermos. No fim, o espectador continuará a tomar a decisão essencial diante da bilheteira, do comando da televisão ou do menu da plataforma. E quando ele vir a palavra “cinema português”, talvez ainda pense: “Será que isto é bom?” O problema é quando pensa logo a seguir: “Ou será só mais uma seca com subsídio?” Nesse momento, meus amigos, nem os Moinas nos salvam.

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