Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

Família à Força

Na doce filigrana dos afetos, Jean-Baptiste Léonetti escreve e realiza uma narrativa aparentemente simples sobre laços familiares e de como nem sempre as ligações de sangue são as únicas que contam. É uma simplicidade que, ainda assim, se torna extremamente eficaz na gestão das emoções e na forma como eleva a ternura (por vezes disfarçada de dureza) como grande trunfo de «Família à Força» (2026).

Apresentada como comédia ou comédia dramática, há também muito de slice of life e drama familiar nesta produção francesa. Rose Balestri (Sandrine Kiberlain), mãe de dois adolescentes e de uma criança (Louise Labèque, Alexis Rosenstiehl e Alma Ngoc), é excêntrica qb na forma como resiste às desventuras da vida e mantém um otimismo cego nas rotinas familiares, mesmo quando o dinheiro, a comida e o combustível escasseiam. Nas contracurvas da sobrevivência, o destino faz com que Rose esbarre em Jean (Pierre Lottin), e os caminhos da família Balestri acabam por ficar ligados a este homem solitário que recusa, perentoriamente, qualquer ligação emocional. A partir daí, diversos avanços e recuos solidificam uma família pouco convencional e dão-lhe novas possibilidades. Sempre mantendo Rose como a maestrina de uma energia familiar quase palpável.

Kiberlain, com um talento que não precisa de novas provas e que já lhe valeu dois César, é a força motriz de tudo isto. A sua Rose é a alma de «Família à Força», na dose certa, com a entrega necessária para que consigamos agarrar as multitudes de tragédia e comédia que a personagem contém. E que se exacerbam na contracena (na mouche) com a quietude expressiva de Lottin.

Só que a história do cinema ensina-nos que o equilíbrio entre humor agridoce e melodrama social torna-se difícil de manter na dose certa. E a corda bamba depende de muito mais do que dos méritos da atriz principal.

Daí que, quando acerta, a narrativa desta produção francesa seja pungentemente enternecedora. Quando atira ao lado, as mudanças de tom perdem a agilidade orgânica e soam artificiais. No rescaldo, fica a sensação de que Léonetti poderia ter ousado mais, mesmo sem sair do território da história simples e despojada. Talvez arriscar sair dos arquétipos convencionais em que os três filhos de Rose são desenvolvidos, talvez aprofundar os temas sociais em que o argumento vai tocando, ao de leve, sem nunca permanecer tempo suficiente para os amadurecer. Qualquer que fosse a rota, algo diferente que fizesse com que «Família à Força», mais do que competente e terno, pudesse tornar-se realmente memorável.

Título original: «Ceux qui comptent»
Realizador: Jean-Baptiste Léonetti
Elenco: Sandrine Kiberlain, Pierre Lottin, Louise Labèque
Origem: França
Duração: 98 minutos
Ano: 2026

Foto: © JULIEN-PANIE

Artigo anterior

Também Poderá Gostar de