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As Provadoras de Hitler

A premissa não é complexa. Estamos no Outono, em 1943. Rosa (Elisa Schlott) vem de Berlim e chega a uma pequena aldeia, fugida do epicentro da guerra e cheia de fome, onde é acolhida pelos sogros, já idosos e a passar dificuldades. Aqui se refugia à espera do marido, que se alistou para a guerra apenas um mês depois do enlace e de quem não sabe nada há uns bons meses. E é aqui que a narrativa prossegue para um ângulo completamente novo no retrato da Segunda Guerra Mundial: numa certa manhã, Rosa é levada por oficiais das SS, juntamente com outras jovens da aldeia, para serem provadoras de comida.

Aquilo que parece ser um alívio em tempos de fome, rapidamente se transforma num pesadelo, quando descobrem que vão ser, afinal, provadoras da comida do “amado” Führer, que está escondido num abrigo na floresta. A partir desse momento, duas vezes por dia, sete mulheres são obrigadas a provar todas as iguarias que alimentarão Hitler, para despistar um possível envenenamento. A comida é farta, em oposição ao que se vivia nas restantes casas, mas em cada espera de 60 minutos após a ingestão, o pânico instala-se face à iminência da morte.

O realizador italiano, Silvio Soldini, adapta o romance homónimo de Rosella Postorino, que por sua vez foi inspirado no testemunho real de Margot Wölk. Em 2012, a alemã Margot Wölk – então com 95 anos – revelou ter feito parte do grupo de mulheres que provava as refeições de Hitler na Wolfsschanze (“Toca do Lobo”), o quartel-general nazi localizado na Prússia Oriental. Ela dizia que todas as outras provadoras morreram quando o Exército Vermelho chegou à zona, e que ela terá sido a única sobrevivente.

Foi precisamente este testemunho tardio que inspirou Rosella Postorino a escrever o romance «Le assaggiatrici», publicado em 2018, onde transforma uma história real pouco conhecida numa reflexão sobre sobrevivência, medo e ambiguidade moral em plena II Guerra Mundial.

O romance de Postorino serve de alicerce ao filme que, além do flagelo passado por estas mulheres, traz para «As Provadoras de Hitler» a dimensão humana em primeiro plano. Estas sete mulheres (seriam 15 na realidade) aprenderam a estar juntas e durante esse tempo criaram verdadeiras relações de amizade, mas também de desconfiança, inveja e ciúmes. Quase todas viúvas, abandonadas, mães solteiras ou ainda prestes a viver o primeiro amor, estas mulheres partilham mais do que a sua história; partilham a vida e a possibilidade de serem as últimas a ver-se antes de uma possível morte por envenenamento.

Durante este tempo, algumas relações são estabelecidas com os oficiais de um regime que não poupou ninguém. Silvio Soldini evita dramatizar em excesso os acontecimentos e prefere acompanhar o quotidiano destas mulheres, mostrando como a vida continua mesmo sob ameaça constante. Perante a inexistência de respostas, estas mulheres estão presas a um estatuto que lhes é imposto e não têm liberdade sequer para apenas sentirem e serem donas do seu corpo e sensações. E quando o seu corpo é posto em causa, a sua sentença pode estar delineada.

Com uma cinematografia digna da época, sempre em tons frios, nada é exagerado. Há uma tonalidade cinza no ar, evocativo dos dias frios de Inverno mas também de uma solidão que vai para além do plano físico. O elenco de atores, maioritariamente alemães, personifica este momento da história sem esquecer o elemento trágico e horroroso, mas trazendo alguma dimensão humana ao mais gelado dos cenários. 

Elisa Schlott (Rosa) e Max Riemelt (o oficial Albert com quem se envolve) transportam-nos para uma época em que o afeto ou a intimidade física pode salvar vidas, e as restantes atrizes devolvem-nos com muita competência a personificação de um dos períodos mais negros da história da humanidade – e que apesar da quantidade de filmes feitos sobre o tema, nunca pode, e nem deve, ser esquecido.

Podia ser só mais um filme sobre a II Guerra Mundial, mas «As Provadoras de Hitler» – que recebeu 13 nomeações aos Prémios de cinema Donatello, dos quais arrecadou três – transporta-nos para o cenário de guerra vivido por um grupo de mulheres, sozinhas, viúvas, abandonadas, que tinham de aceitar fazer tudo para sobreviver. O que cada um de nós faria nesta situação?

«As Provadoras de Hitler» relembra-nos o valor da sororidade entre mulheres quando a vida está em jogo; prova-nos que antes de termos uma nacionalidade, somos pessoas que querem apenas viver, amar e ser amadas; dá-nos voltas ao estômago ao mostrar-nos o pretensiosismo de matar apenas porque sim, mesmo que essa pessoa nos pudesse salvar a vida num outro momento. Mas, acima de tudo, «As Provadoras de Hitler» reforça o valor das pequenas coisas e a preciosidade dos momentos simples, como o desfrute de um cigarro, um mergulho no rio, ou a partilha do verdadeiro valor da amizade. Quando não se tem mais nada, isto pode ser tudo.

As Provadoras de Hitler
Título Original: Le Assaggiatrici
Realização: Silvio Soldini
Elenco: Elisa Schlott, Max Riemelt, Alma Hasun
País: Itália, Bélgica, Suíça
Duração: 123 m
Género: Drama
Ano: 2025
Itália, Bélgica, Suíça

Sara Afonso
Sara Afonso
Entrou para o jornalismo há mais de 20 anos, ainda antes de terminar o curso de Comunicação e Jornalismo. Estagiou no jornal O Jogo, na área de cultura e cinema e, no final do curso, entrou no jornalismo especializado de Tecnologia, nas revistas Connect, Casa Digital e T3. Em 2011, aceitou a direção do seu projeto de sonho: a revista de cinema Empire, o bilhete dourado para conhecer e entrevistar estrelas do cinema e da TV, para comentar eventos de cinema e para ser júri em festivais de cinema nacionais. Por fim, assumiu a coordenação de vários projetos de imprensa, em áreas como surf, fitness, gastronomia, vida selvagem, mindfulness e criatividade, alimentação saudável, entre outros, sempre mantendo a colaboração na área do cinema, com a revista digital METROPOLIS. Já escreveu livros, criou perguntas para um famoso programa de televisão e contribuiu com a sua escrita para um projeto deslumbrante sobre o Oceano, (Oceans and Flow). Recentemente, voltou ao mundo das revistas, mas, como alguém disse um dia: “A partir do momento em que participam na descoberta mágica do cinema, este torna-se o vosso amor para sempre.

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