Se anda há algum tempo à espera de um filme que apresente uma história verdadeiramente original, não pode dizer que não a encontrou em «A Rapariga Que Sabia Demais». É que Marielle, a jovem de doze anos protagonista do filme, desenvolveu um poder telepático que lhe permite ler o que vai na mente dos seus pais, Julia e Tobias. Com toda a gente a guardar lá bem no fundo segredos que irão consigo no túmulo, pode imaginar-se o que Marielle descobre sobre os seus progenitores. Se quiser saber, agora é só ir ao cinema. Para já fiquemos com a nossa conversa com o realizador, quando «A Rapariga Que Sabia Demais» estreou mundialmente em competição no Festival de Berlim.
De onde surgiu esta ideia tão original?
Frédéric Hambalek: Surgiu há uns anos quando, e isto já é tecnologia “antiga”, um amigo meu tinha um daqueles monitores de bebé com câmara incorporada, e podia mostrar-me o filho a dormir. Pensei que era algo de estranhamente desconfortável. E se pudéssemos mudar esta dinâmica? Se as crianças pudessem ver os pais? Hoje isto já é banal, porque os pais conseguem monitorizar os filhos com muito mais tecnologia. E também, quando comecei a escrever isto, não tinha filhos. Agora tenho dois. Fazer filmes demora muito tempo.
Mudou alguma coisa o facto de entretanto ser pai?
Frédéric Hambalek: A história desenvolveu-se mais na perspetiva dos pais. Achei cada vez mais interessante que fossem eles a lidar com isto e como o fariam. Acrescentou mais camadas, mais profundas. Comecei a ter sentimentos de pai, será que os meus filhos vão gostar de mim quando crescerem? Como é que me vão ver? Porque quando somos pequenos, vemos os nossos pais como deuses, sabem tudo, têm todas as respostas. Depois crescemos e percebemos que lutam imenso com a vida e que, na verdade, não têm todas as respostas.
É também um filme sobre como as crianças passam a ver os pais como menos perfeitos?
Frédéric Hambalek: Sim, absolutamente. No fundo, há uma história de crescimento. Isso vê-se, por exemplo, na última cena, em que a Marielle parece mais velha, mudámos o visual para refletir isso. É uma transformação universal.

Sente-se assustado com a forma como somos vigiados hoje em dia, por exemplo pelas redes sociais e pelas novas tecnologias?
Frédéric Hambalek: O que me interessava era como mudamos o nosso comportamento a cada nova coisa que nos retira um pouco mais de privacidade. Notei isso quando uma aplicação de mensagens muito popular introduziu aqueles dois “tiques” azuis para mostrar que alguém leu a mensagem. Sabes que a pessoa leu, há quase algo de malévolo nisso. Tive de desativar essa função. São coisas pequenas, mas fazem muita diferença. E hoje já quase não há forma de esconder a localização. Imagina se tiveres um parceiro muito desconfiado…
Como trabalhou com os atores, especialmente com o casal adulto? Eles têm de construir personagens que às vezes dizem a verdade e outras vezes mentem.
Frédéric Hambalek: Disse-lhes que era um desafio interessante, porque tinham de representar alguém sob vigilância, que quer dizer algo mas se lembra que não pode. Foi um processo de descoberta em nuances. Será que ela pensa antes de reagir? Ou reage logo? Quanto tempo demora a reagir? Eram essas as discussões.
“Gosto muito de observar o comportamento humano“
Há uma oscilação muito subtil entre drama, fantasia e comédia negra. Como encontrou o tom certo para o seu filme?
Frédéric Hambalek: É tudo uma questão de equilíbrio. Pensei muito nisso. No início, tinha apenas a ideia e sabia que podia ser engraçada e dramática ao mesmo tempo, e isso já era bom sinal. Depois escrevo todas as ideias, estruturo a narrativa, observo à distância e ajusto. Fiquei surpreendido com quantas pessoas veem o filme quase como uma comédia pura. Algumas riem-se imenso. É ótimo, mas inesperado. Algumas cenas, para mim, são de humor negro, para outros não têm graça nenhuma. E isso é bom, cada pessoa reage à sua maneira.
Apesar da originalidade da história, houve alguma inspiração em especial?
Frédéric Hambalek: Não conscientemente. A história veio de observações, não de outros filmes ou peças. Quis manter-me fiel ao que considero comovente e interessante. Claro que depois, ao fazer o filme, aprendemos com outros, por exemplo Buñuel, com essas premissas fantásticas tratadas com naturalidade. E gosto muito de observar o comportamento humano, como fazem certos realizadores.
Por que decidiu não explicar o fenómeno no filme?
Frédéric Hambalek: Para mim era essencial não explicar o mistério. Na vida há muitas coisas inexplicáveis. No início, o filme tinha mais a perspetiva da criança. Depois, como me tornei pai, achei melhor torná-la uma “caixa negra” para os pais. Assim, o público fica na mesma posição deles. Porque nunca sabemos realmente o que os outros pensam, nem os nossos filhos ou pais.

Quão próximo está esta história da realidade? As crianças já “sabem” mais do que pensamos?
Frédéric Hambalek: Alguém disse algo interessante: todas as crianças têm esse «dom», porque sabem mais do que lhes damos crédito. E isso é fascinante. A minha filha tem três anos e já me assusta o quanto percebe.
O pai parece uma pessoa horrível, enquanto as personagens femininas são mais sofisticadas.
Frédéric Hambalek: Não acho que a mãe seja muito melhor. Ambos são humanos. Há uma cena em que ele faz a filha chorar. Pensei cortá-la, mas depois percebi que é algo comum, os pais fazem os filhos chorar. Ele reage assim porque está abalado. E no final, consegue ser honesto com a filha, algo que a mãe talvez não consiga.
A honestidade total existe realmente? E é algo que finalmente se deseje?
Frédéric Hambalek: Não sei. Pode permitir relações profundas… ou destruir tudo.
Como é que a jovem atriz e os pais dela reagiram ao guião?
Frédéric Hambalek: Trabalhámos de perto com os pais. A atriz, a Laeni Geiseler, é extremamente sensível e compreendeu tudo intuitivamente. Foi impressionante.
No geral, como dirigiu os atores?
Frédéric Hambalek: Não falo muito sobre o guião. Prefiro que experimentem coisas diferentes durante as filmagens. Assim, na montagem, podemos combinar várias abordagens. Não ensaio antes, faço apenas uma leitura conjunta.
O filme mostra-nos um mundo cada vez mais asséptico. É uma metáfora?
Frédéric Hambalek: Sim, reflete o mundo moderno. Curiosamente, a casa no filme é até mais «viva» do que muitas reais. Há necessidade de uma maior comunicação e compreensão entre as pessoas.
A sexualidade também tem o seu papel nesta história…
Frédéric Hambalek: Nas cenas de flirt, percebemos que tinham de ser levadas a sério para funcionar. Já a cena de sexo tinha de ser algo patética, mas com nuances.
Como construiu o início e o final do filme?
Frédéric Hambalek: Dou muita importância à primeira frase/imagem. A abertura evoluiu na montagem, criando contraste visual e emocional. O final foi difícil, e tive pouco tempo para filmar. Quis condensar a essência da história, a ligação entre mãe e filha, que nunca se quebra completamente, mesmo com conflito.
O que significa estar na Berlinale?
Frédéric Hambalek: É enorme. Não esperava estar em competição. Ainda parece surreal. É uma grande honra.




