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Corpo de Cristo – crítica

“Corpo de Cristo” (Iguana) é um achado divino assinado por Bea Lema. É uma novela gráfica dramática a partir de uma experiência que exorciza e encontra a paz após uma infância e adolescência medonha que serve de inspiração para uma obra inesquecível que aborda o delicado tema da saúde mental e da religião. É a arte da escrita plena de originalidade num desenho que se entrelaça com os bordados feitos à mão. É um livro espantoso.

Adela era casada e tinha dois filhos, residia na Corunha, era dona de casa, foi trabalhadora no sector da confecção e foi acompanhada de forma intermitente pelos psiquiatras. Tinha um delírio religioso e personalidades especiais, era grande consumidora de álcool e possuía um quadro de ciúmes patológicos. Tinha tendências paranoicas e era muito desconfiada. Vera, a sua filha nasceu a 31 de Janeiro de 1985, uma das suas primeiras recordações foi uma viagem a uma casa de uma curandeira que parecia desabitada, onde começou a sentir um forte cheiro de incenso… A filha estava cansada há algumas semanas e não comia e visitaram alguns médicos e a mãe decidiu levá-la a uma curandeira, a solução não teve efeito e mais tarde Vera foi diagnosticada com tuberculose. A partir desse momento, na sua tenra infância, Vera começou a desconfiar do que se passava com a sua mãe. Esta enfiava-se na cama e ficava angustiada, sentindo um peso dentro de si. A mãe esquecia-se de ir buscar a filha às aulas de ballet e o pai dizia que ela estava doente dos nervos, mas o mal era outro. A mãe sentia que tinha um demónio dentro do corpo. O demónio tocava-lhe no estômago, na cara e não a deixava descansar, estava sempre a visitá-la pelo que a família não podia fazer barulho. O pai era auxiliar de farmácia e pintor de paredes à noite, julgava que isso do demónio era uma superstição obsoleta. A família foi ao psiquiatra, mas a mãe estava reticente em tomar medicação. O pai não contou a ninguém o que estava a acontecer, com medo de ser rejeitado. Ele estava a lidar sozinho com a situação, e passava mais tempo a trabalhar e menos em casa. A mãe estava convencida de que ele tinha um amante, passava o tempo a inspecionar a casa e procurava pistas, cheirava-lhe a roupa e telefonava aos colegas do marido. Também espiava o irmão de Vera, que sofria com a paranoia da mãe. Este tinha acabado de entrar na universidade e a mãe achava que ele era toxicodependente. Vera constrói um altar com as suas bonecas e pede a Jesus Cristo que tire os espíritos do corpo e da alma da mãe. A salvação de Vera era a sua tia Maria, ela era costureira e passava o ofício da costura da família de geração em geração.

A mãe de Vera nasceu em 1946 em Espanha num período marcado pela fome dos anos do pós-guerra. O avô era um bêbado – este relato em flashback utiliza um impressionante traço a preto e branco tipo cartoon. Nos anos 1960, a mãe emigrou com 18 anos para a Suíça e foi feliz. Isso representou a oportunidade de fugir da aldeia e ir para um lugar cheio de possibilidades, mas a maioria dos imigrantes daquela altura decidiu regressar quando pouparam o suficiente para comprar um apartamento em Espanha. Eles estabeleceram-se na Corunha, uma cidade que crescia de forma caótica nos anos 1970. No fim da ditadura, começou o processo de industrialização que levou muitas pessoas a trocarem as áreas rurais pelas cidades. Os centros urbanos cresciam de uma forma vertiginosa e desordenada, a mãe começou a isolar-se e a não aceitar os convites das outras mães para fazer programas. Nessa época, a mãe achava que o seu vizinho estava feito com o demónio e rezava a Deus para que não lhe acontecesse nada de mal, foi Testemunha de Jeová durante três anos e estava cada vez mais delirante.

Antes de mais nada, é necessário celebrar o acto de coragem da escritora espanhola. O género biográfico através da expressão da novela gráfica tem providenciado obras de primeira água, recordamos o trabalho da sua compatriota María Hesse em “Medo” (Iguana). Ela é actualmente uma autora universalmente aclamada, que soube também combinar de forma singular o drama pessoal com a 9ª Arte.

Em “Corpo de Cristo” estamos a falar de uma obra ainda à flor da pele, o que é mais demonstrativo da capacidade do processamento artístico de Bea Lema. A sua habilidade de síntese e construção narrativa são totalmente louváveis.

O livro é uma grande história de amor de Vera pela sua mãe, uma preocupação que a assolou a vida inteira. O irmão mais velho foi banido de casa pela paranoia da sua mãe e o pai foi ficando cada vez mais alienado da esposa. A obra incide nos cuidados dos familiares em relação a uma pessoa com um estado mental que impedia de ter uma vida normal. Mas é igualmente um olhar para um sistema de saúde que, no tratamento destas enfermidades, enfrasca os pacientes de medicamentos que tornam as suas vidas ainda mais complicadas.  

É necessário enquadrar este drama nas diferentes épocas em que se desenrola. Um aspecto que me deixou arrepiado foi a procura da autora em relatar um acontecimento que infelizmente afecta muitas famílias pelo mundo fora, mas também a capacidade de demonstrar empatia pela mãe e as circunstâncias que levaram à sua loucura. O último terço da obra, que recua a uma sociedade espanhola profundamente patriarcal dos anos 1940, na infância da mãe, encontramos a origem do trauma que desfigurou uma vida para sempre. A esta dimensão traumática junta-se a visão da Igreja, é preciso lembrar que era uma época em que as psiquiatrias eram inexistentes na Espanha rural (muito menos os domínios da terapia e da psicologia). As populações recorriam aos padres e às curandeiras para lidar com o problema do desconhecido e das perturbações na mente, e quase sempre era devido ao demónio que assolava as criaturas terrenas. Este livro sofreu backlash de algumas associações católicas em Espanha quando venceu o Premio Nacional del Cómic de 2024 entregue pelo Ministério da Cultura espanhol. O livro também recebeu reconhecimento – plenamente justificado – além fronteias em países como Itália, França e Canadá.

É curioso que o meu melhor filme de 2025 («Sirát») foi também criado por um conterrâneo de Bea Lema, o seu “Corpo de Cristo” é um dos meus livros de eleição de 2025. Temos de perceber o que andam a colocar na água da Galiza? No noroeste de Espanha encontrarmos dois talentosos artistas no auge da sua criatividade. Ambos os artistas têm jornadas distintas, mas compartilham empatia pelo próximo, amor e o processamento da dor em diferentes cultos, além de reconhecerem a importância crucial do indivíduo para a saúde mental.

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