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A Dançarina

Considerando os pressupostos de programação do mini-ciclo SHIMIZU TARDIO, proposto pela produtora e distribuidora The Stone and The Plot, o filme cuja produção se encontra cronologicamente mais próxima das derradeiras obras de Hiroshi Shimizu (que serão igualmente objecto de reposição em sala) será «Odoriko» («A Dançarina»), 1957.

Durante os anos 50 do Século XX, o realizador japonês foi muito hábil em retirar dos seus argumentos as falsas aparências, os rodriguinhos destinados a “colorir” a narrativa. De certo modo, foi desde cedo um cineasta que demonstrou grande modernidade na abordagem das matérias sobre as quais de forma incisiva e directa desejou exercer as suas aptidões, separando as águas entre o essencial e o acessório. Neste contexto, reduziu os mecanismos da mise-en-scène ao seu mais depurado sentido, acentuando na procura de economia narrativa as melhores potencialidades de expressão da linguagem fílmica e a saudável manipulação das diversas componentes de uma obra cinematográfica.

No caso de «A Dançarina», há um filme que se desenha nos palcos e bastidores de uma casa de espectáculos de Asakusa (Tóquio) e um outro que, sem abandonar aquele espaço emblemático da grande metrópole, possui o seu círculo íntimo no apartamento de um casal constituído pela corista Hanae (Chikage Awashima) e pelo músico seu colega, Yamano (Eiji Funakoshi). Nada nos faz acreditar que não exista uma harmonia conjugal entre ambos, mesmo que se apresente algo relativa face ao posicionamento social de cada um e ao conjunto de dificuldades financeiras que enfrentam. Mas as coisas vão mudar, porque um belo dia entra na equação familiar e laboral a irmã de Hanae, mulher na aparência um pouco ingénua, Chiyomi (Machiko Kyô), que vai aparecer ao melhor estilo “aqui estou eu…!”. Tudo isto acontece na sequência da migração desta jovem rapariga atraída pelas luzes da cidade e, pouco depois, pelas luzes da ribalta. Esta deslocação da província para um espaço cosmopolita onde as oportunidades pareciam multiplicar-se era muito frequente na época em causa (meados do Século XX), por um lado correspondendo e por outro contrariando a propaganda acoplada aos pressupostos do milagre económico japonês.

De repente, no mesmo shitamachi, ou seja, num dos apartamentos modestos, situados em imóveis densamente habitados e situados na “baixa” de Tóquio, duas irmãs muito diferentes uma da outra, a mais velha com rotinas de vida e carreira mais convencional, a mais nova desempregada (fora antes motorista) com desejo de dar a volta ao destino, serão obrigadas a conviver para o melhor e o pior. Não há dinheiro para a enfiar num hotel, nem sequer num espaço exíguo como o que o casal partilhava. E o que podia correr mal, estava escrito nas estrelas, acaba por suceder.

Triângulo desenhado por duas mulheres e um homem cujos vértices foram concebidos por contrariedades logísticas só podia gerar a subversão das regras de uma certa harmonia conjugal que por ali pairava e o homem, mergulhado no seu impasse proto-depressivo, acaba por sucumbir ao sedutor arrivismo de Chiyomi que, entretanto, será aceite como bailarina na mesma companhia de dança onde já se encontrava a irmã. Podemos dizer que a sua habilidade para dançar não se comparava com a sua destreza em ziguezaguear por entre o pulsar do desejo masculino, que ela sabia manipular quase por instinto, demonstrando ser exímia na arte de misturar a relativa ambiguidade do seu comportamento mundano (pouco depois mais reservado e promíscuo) com o charme e sentido bem material do que queria ou não para a sua vida futura. Entretanto, a sua ascensão no mundo do showbusiness faz-se em simultâneo com o declínio da irmã. Tempo que se abre para redefinir prioridades face ao remoinho de emoções que então se instala.

Depois de lançadas as premissas e definido o núcleo principal dos conflitos narrativos, Hiroshi Shimizu, passo a passo, dá-nos a ver a progressão dos caminhos que se cruzam e divergem no percurso das personagens protagonistas, e no processo recupera a ideia recalcada, mas há muito acalentada, de uma corista como Hanae resolver a sua carreira que parecia estagnada por causa da sua idade e pela consciência de que a margem de progressão seria difícil, não sendo fácil manter ou superar o provável (podemos adivinhar por pequenos sinais inscritos na acção) fulgor primitivo. Por isso, quando fala com o marido, que se debate com secretos dilemas por causa da relação proibida com Chyiomi, formula a intenção de ser mãe (coisa que não vislumbrara ao longo de cinco anos de casamento devido a uma profissão absorvente e, sejamos francos, a um estigma social não negligenciável). Por outro lado, nas suas aventuras sexuais a sempre “disponível” Chiyomi fica grávida.

No final de «A Dançarina» (que como é óbvio não irei revelar) a realização e as linhas de força do argumento investem igualmente na multifacetada complexidade das reviravoltas da acção que aposta na revolução das normas morais vigentes. Porque, antes do desenlace final, Chiyomi deixa de ser dançarina para exercer a profissão de gueixa, o que por si só constitui uma surpresa de monta. No entanto, com a mesma simplicidade com que respira, ela encara esta perspectiva como a mais airosa (mas não necessariamente a mais radiosa) para encontrar o conforto material pacificador que, bem vistas as coisas, desde sempre perseguia. Enfim, provavelmente, mais uma ilusão a somar a muitas outras.

Resta apontar que do ponto de vista visual, «A Dançarina» perfila-se no campo da Direcção de Fotografia como exemplo maior do muito cuidado uso da câmara em movimento. Travellings que por seu lado não fazem esquecer o muito seguro equilíbrio na composição dos primeiros planos e planos recuados, numa constante dialéctica entre aquilo que vemos mais próximo da objectiva e o que acompanhamos em fundo, sobretudo nos bastidores da sala onde dança e música se conjugam, mas também no ambiente confinado e dividido por painéis do apartamento onde demos conta de uma singular intriga familiar.

Título original: Odoriko
Realização: Hiroshi Shimizu
Elenco: Chikage Awashima, Machiko KyôEiji, Funakoshi
Duração: 96 min.
Japão, 1957

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João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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