Hiroshi Shimizu (28 de Março de 1903 – 23 Junho de 1966) nasceu e morreu no Japão, o espaço de eleição onde situou a matéria ficcional da sua extensa filmografia. Mas no cinema não se ficou pela realização, e as suas aptidões nas áreas da produção, do argumento e da composição musical não podem ser ignoradas. Habitualmente refere-se o facto de no início da sua carreira ter sido ele a revelar as qualidades dramáticas de Kinuyo Tanaka, com quem esteve casado de 1927 a 1929, período fugaz que antecedeu a “fuga” da actriz para a esfera de influência de outro nome grande da cinematografia japonesa, Kenji Mizoguchi.
A importância de Hiroshi Shimizu vai muito para além das suas relações pessoais e mundanas, e assim sendo saliento os caminhos que preferiu seguir no quadro profissional e no seio da grande indústria cinematográfica japonesa, onde procurou ocupar com eficácia e produtividade um lugar que lhe permitiu desenvolver algumas das suas mais constantes preocupações, antes e depois da Segunda Guerra Mundial.
Foram muitos os filmes que dedicou ao universo das crianças, nomeadamente aos órfãos e aos marginalizados pela sociedade, mas igualmente aos migrantes, aos veteranos de guerra, aos mil e um rostos da condição feminina, ao devir de pessoas com problemas de integração social, quer nas grandes cidades quer nas regiões afastadas dos principais centros urbanos.
Por outro lado, esteve atento ao robusto desejo de modernidade, sem no entanto abandonar as idiossincrasias do modo de ser nipónico ou renegar as suas mais profundas raízes culturais e históricas. Tradições que não foram abandonadas, mas depuradas numa certa subversão de valores caducos capaz de moldar uma nova ordem e lançar um olhar incisivo nos assuntos prementes do presente face a um futuro por vezes incerto.

Na verdade, custa a crer que o seu nome não seja mais vezes citado ao lado de cineastas como Yasujiro Ozu, o já citado Kenji Mizoguchi, Mikio Naruse, entre muitos outros que o elogiaram e de quem foi colega e contemporâneo. Mas para repor as coisas nos eixos servem estas iniciativas de programação, no caso, a proposta pela produtora e distribuidora The Stone and The Plot. E, já agora, aqui fica o apelo para que, por exemplo, a Cinemateca Portuguesa vislumbre a hipótese de organizar uma retrospetiva alargada da sua obra. Muita da pesquisa e da sistemática necessária já foi em grande medida feita, e pode ser que a Japan Foundation seja generosa, como provavelmente foi no apoio ao importante ciclo que decorreu em 2024 no MoMI (Museum of the Moving Image, Nova Iorque) e ao que decorreu na Cinemateca Francesa em 2021.
De momento, no nosso país a melhor maneira de saber quem foi Hiroshi Shimizu passa pela visão dos filmes programados no mini-ciclo SHIMIZU TARDIO (cinco longas-metragens, incluindo duas reposições).
Deste modo, por ordem cronológica de produção, o primeiro a destacar será «Ninjo Baka» («O Idiota Sentimental»), 1956. História clássica de um homem atraído pelo charme de uma cantora de night-club, a insinuante Yuri (Rieko Sumi), que num magnífico plano-sequência vemos logo de início a interpretar uma canção em inglês, o que diz muito do sentido crítico, subliminar e discreto que era apanágio do realizador. Trata-se de uma mulher jovem, sedutora e segura de si, para quem o bem-estar material se construía com base nos donativos que os diversos “patronos” lhe iam oferecendo. Na sua larga maioria eram boémios em busca de prazeres mundanos, quase sempre bem instalados no seio de uma sociedade feita de mil e um rostos de hipocrisia, sobretudo no que dizia respeito aos prazeres do sexo dentro e fora de casa. Os presentes que recebia inscreviam-se geralmente na categoria de bens utilitários: vestidos de alta-costura, sapatos da moda, mobiliário chic, iguarias finas, ou seja, não só Yuri ganhava o pão nosso de cada dia a cantar e a encantar como ia acumulando o luxo nosso (enfim, o dela), noite após noite. Todavia, o improvável Romeu (Yoshio Tsugawa, interpretado por Kenji Sugawara), que se enamorou por esta ainda mais improvável Julieta, não sendo empresário com os bolsos recheados, mas um mero e singelo vendedor por conta de outrem, para emparelhar em matéria de ofertas com a “generosidade” dos seus rivais capitalistas acaba por cometer um desfalque. E aqui entra em cena a mestria do realizador em dar a volta ao que podia resultar, nas mãos de outro mais rotineiro, um dramalhão de crime e castigo, algo de fazer chorar as pedrinhas da calçada. Nada disso, aqui ninguém vai arrastar a culpa sequência após sequência na hipotética ilusão de uma redenção final, mesmo que o caminho escolhido por Yuri se possa considerar uma via não sacra mas profana para expiação do pecado que ela sente na alma (fruto de má-consciência relacionada como o seu modo de ser e estar). Na sua calculada penitência, motivada em parte pela sinceridade da súplica que lhe move a mãe do prevaricador quando este vai preso, procura redimir-se pelo sacrifício e não hesita em expor-se de forma aberta perante as vítimas daquele por quem no fundo sentira algo mais do que uma atracção fortuita no círculo mais próximo das suas amizades “profissionais”. Parte significativa do filme será passada nos meandros laborais dos lesados (pagaram uma motorizada que nunca receberam), homens de pequenos e grandes negócios a quem Yuri vai propor o que na polícia já se apontara como uma frágil (diria mesmo, difícil de engolir) mas possível solução para salvar Yoshio Tsugawa de cumprir longos anos de cárcere. Na prática, as vítimas da burla deveriam aceitar como dívida o que havia sido um roubo.

Há quem veja nesta primeira produção do realizador para os Estúdios Daiei um drama ético sobre o sacrifício altruísta. De certa maneira, sim, passa por aí o principal dos conflitos narrativos, e isso faz-se invertendo o papel habitual da mulher perdida e sem remorsos que persiste em caminhar pelo lado negro da rua e não mostra arrependimento face ao descartar de quem por desvarios da paixão alimentara os privilégios de que ela usufruíra no círculo íntimo dos seus interesses meramente materiais. Neste filme, pelo contrário, Yuri arrisca mais do que seria expectável ao sair da sua interesseira e plutocrática zona de conforto. No decorrer da acção sentimos que fica mais ou menos claro que ela não olha para a maioria dos seus interlocutores masculinos com o mesmo grau de complacência, moral ou outra, com que olha para quem comprometeu a carreira e o bom nome, num fugaz e fátuo relacionamento de cabaret. Mesmo assim, o destino não perdoa e o mal estava feito. Por fim, a solidão emocional de um e outro dos protagonistas irá acentuar a faceta pragmática que já moldara as linhas gerais desta história sentimental.
Título original: Ninjô baka Realização:
Elenco: Keiko Fujita, Eiji Funakoshi, Peggy Hayama
Duração: 71 min.
Japão, 1956




