Prosseguindo a excelente iniciativa de nos permitir ver em grande ecrã uma série de filmes oriundos da indústria cinematográfica japonesa, a produtora e distribuidora THE STONE AND THE PLOT propõe agora uma nova e singular programação de cinco longas-metragens realizadas por Hiroshi Shimizu, onde incluíram duas reposições.
Primeiro destaco as mutações do amor, a montanha e o equinócio de Outono no magnífico melodrama «O Som do Nevoeiro», 1956, realizado por aquele que provavelmente será o mais conhecido dos mestres “desconhecidos” que integraram os ciclos anteriormente propostos e programados sob a designação MESTRES JAPONESES DESCONHECIDOS. Da extensa filmografia de Hiroshi Shimizu recordo algumas obras mais acessíveis para visionamento como «Raparigas Japonesas no Porto», 1933, «Senhor Obrigado», 1936, e «Os Massagistas e a Mulher», 1938. Eram filmes que demonstravam um sentido estético e uma economia narrativa muito apreciáveis. Foi por isso com entusiasmo que aguardei o visionamento de «O Som do Nevoeiro», obra onde esperava encontrar um decisivo salto qualitativo e quantitativo na síntese dos novos meios de produção da indústria nipónica (no período de reconstrução pós-Segunda Guerra Mundial) com os ecos da estética clássica que o autor dominava com perícia. E a surpresa não podia ser maior ao perceber que, mesmo numa era em que se começava a pôr decisivamente em causa as grandes linhas que formataram o passado, incluindo a do fascismo militarista e imperialista, havia lugar para argumentos que falavam das mutações da natureza humana, histórias aparentemente simples que levavam até ao extremo o fulgor de paixões perdidas, sem cair na armadilha do sentimentalismo fácil e na por vezes medíocre visão melodramática de amores contrariados.

Neste filme dividido em capítulos que se sucedem mantendo um ponto comum – a presença da majestática materialidade da montanha e a luz espectral da Lua iluminando os homens e a Natureza no equinócio de Outono – iremos descobrir a história singular de um professor, Kazuhiko Onuma (Ken Uehara) que em Kamikochi, Prefeitura de Nagano, se instalou numa cabana dos Alpes japoneses para se afastar dos conturbados anos da ocupação americana e do erguer de novas estruturas políticas e administrativas que nem sempre foram organizadas por gente séria, nomeadamente quando se sabia que alguns dos que haviam defendido o regime anterior se apresentavam agora sob o falso manto de “democratas”, como era o caso da mulher do professor, ausente em Tóquio, mas que um dia decide aparecer para confrontar o marido com o desejo de divórcio e com aquilo que já pressentia, a presença de outra mulher, Tsuruko (fabulosa prestação da actriz Michiyo Kogure). Esta, perante a pressão e provocações da legítima, decide afastar-se, e aí começa o seu calvário. De assistente e amante de Kazuhiko, anos depois ganha a vida como geisha. Será nessa condição que a vamos encontrar, no momento em que o professor, acompanhado da filha doente, regressava ao local onde outrora fora feliz nos braços de Tsuruko. Por mero acaso e, digamos assim, porque o destino não quis, só anos depois do desencontro que nessa altura irá acontecer, alterando e penalizando o futuro percurso de ambos, se irão de novo encontrar. Mas então já as contas se fazem de outra maneira. Na verdade, Tsuruko casara com um homem manifestamente nos antípodas do seu pretérito e, não custa acreditar, verdadeiro e sincero amor. Ele, apesar de viúvo e de certo modo livre, não resiste ao quadro apertado das convenções sociais que os impedem de avançar para uma união que parecia ser a solução existencial mais harmoniosa, aquela que podia rimar com o sentimento de pacificação interior que a montanha emprestava ao ritmo das coisas naquele lugar com qualquer coisa de mágico e, sobretudo, muito belo. Não vou adiantar mais, mas o final constitui a peça amarga, mas perfeita, que encaixa como uma luva na componente melodrama que dá corpo e alma a este conto moral sobre as mutações da paixão ao longo da vida. Quem não sentir um nó na garganta e uma saudável lágrima a correr pelo rosto ao assistir ao singelo mas grandioso e eficaz plano final, não sabe o que perde. Mil e um filmes foram feitos com estes pressupostos, alguns são obras-primas. Também os há que não funcionam. Mas esses não nos enchem a alma e não ficam na memória. Seja como for, para mim, «O Som do Nevoeiro» passou a figurar na lista sempre revista e ampliada dos melhores melodramas da História Mundial do Cinema.

Depois, sigo em frente para saudar e aconselhar com entusiasmo a visão de «Haha No Omokage» («Imagem de Uma Mãe»), 1959. Situado num Japão que apaziguara muitas das feridas abertas pela derrota na Segunda Guerra Mundial mas não as sarara completamente, a mudança política fazia-se sentir na macroestrutura económica com óbvias repercussões na dinâmica social onde imperava como sempre a questão da família enquanto núcleo central da sociedade, garantia de um almejado equilíbrio pacificador. Pouco a pouco regressava-se a uma certa normalização de cariz conservador. Neste contexto, vamos ver como os destinos de um homem e de uma mulher se cruzam por força de um “arranjinho” urdido por quem os queria ver casados como “manda a lei”. Só que ambos possuem uns “penduras”, como são referidos pelos familiares mais próximos, ou seja, dois filhos menores. Depois de um curto namoro, que começa ironicamente com o pedido envergonhado de um copo de água e acaba com a degustação de saquê, passados dias o casamento realiza-se. Michio, o rapazinho que ocupa no filme o lugar de verdadeiro protagonista, não consegue deixar de recordar a falecida mãe de quem mantém um retrato que venera como se fosse um ícone sagrado. Tem igualmente um pombo que lhe fora dado pela progenitora e que ele cuida como se fosse o seu bem mais precioso. Michio depara-se com o insistente pedido da família para que ele veja na actual mulher do pai a sua nova “mãe”, algo que não consegue. Digamos que, num Japão “normalizado” e até um pouco conformista, o rapaz constitui de forma algo inocente a peça subversora que não aceita enterrar o passado, a sua visceral ligação a quem lhe deu a vida.

Boa parte do filme vive desta contradição, e a grande força do argumento reside no modo como se faz a gestão do confronto entre os sentimentos mais secretos das personagens e a sua resolução no quadro das vicissitudes existenciais de um quarteirão popular. Perto do final, uma redacção sobre a mãe da autoria de Michio, revelada pelo seu professor mas lida no seio familiar, resume de algum modo o que até ali víramos, sintetizando a luta interior de Michio na defesa de uma questão de princípio, o amor devido a uma mãe ausente mas presente na materialidade do seu mundo, a fotografia, o pombo, e nos sinais espirituais como a memória constante da mãe e a recusa em chamar mãe a outra mulher. Nessa sequência de antologia podemos perceber como a mestria de Hiroshi Shimizu não era conceito vão. Nas palavras simples de uma criança reside a sabedoria maior que nos faz compreender as motivações profundas de um silêncio, primeiro o luto, e depois a razão maior para continuar a viver e superar a morte.
Destaque ainda para a magnífica fotografia a preto e branco e os magníficos planos sequência com plena e rigorosa utilização do ecrã largo. Travellings frequentes que não procuram apenas emprestar movimento mas servem para reenquadrar no mesmo plano os diversos fragmentos da acção sobre os quais se faz incidir a atenção do espectador.
Foi este o derradeiro filme do realizador que bem merecia para além deste importante ciclo, uma retrospectiva mais alargada para deixar de ser entre nós um mestre japonês relativamente “desconhecido”.



