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Marcel e Monsieur Pagnol

Quando falamos de animação francesa, o realizador que nos ocorre quase instantaneamente é Sylvain Chomet. Existem outras referências clássicas, como Paul Grimault, Michel Ocelot, mas Chomet, com apenas duas obras-primas – «Belleville Rendez-Vous» e «O Mágico» –, definiu aquilo que se pode chamar de “um certo traço francês”, indissociável da própria cultura francesa. 15 anos depois da última longa-metragem, justamente «O Mágico», filme que partia de um argumento original de Jacques Tati, «Marcel e Monsieur Pagnol» volta então a esse desígnio de um cinema que celebra os autores da sua cultura.

A relação entre os dois filmes é inevitável: se em «O Mágico» Chomet adaptava o argumento ao formato da animação homenageando Tati na silhueta reconhecível do Sr. Hulot, enquanto ilusionista cuja arte está a entrar em declínio, «Marcel e Monsieur Pagnol» também capta o momento em que o dramaturgo e cineasta Marcel Pagnol (1895-1974) começou a sentir a rapidez de um mundo que em pouco tempo deixará de se interessar pelas suas peças. A diferença essencial é que o título anterior, apesar de evocar uma personagem e o seu autor, era um conto delicado e comovente; agora, as convenções biográficas tomam conta do filme sobre Pagnol.

 

O traço de Chomet mantém-se distinto, orgulhosamente francês, com uma doçura e nostalgia que não enganam. Mas não podemos deixar de notar que, no plano narrativo, «Marcel et Monsieur Pagnol» tem mais fórmula que criatividade, resultando num filme belo – belíssimo – embora não surpreendente. Tudo começa com uma encomenda: a editora-chefe de uma revista feminina pede a Marcel Pagnol que escreva um folhetim literário sobre a sua vida, as suas origens, os seus amores, para satisfazer as leitoras da publicação. Sentado à secretária, o realizador de «A Filha do Poceiro» sente-se desinspirado, até que a visita da criança que foi um dia, o pequeno Marcel, lhe desperta memórias e sensações há muito arrumadas no sótão interior…

Seguimos então episódios da sua infância em Marselha, a fuga para Paris “onde tudo acontecia” nos anos 1920, as lides do teatro e depois as do cinema, num percurso também marcado pela Segunda Guerra Mundial. Enfim, para quem conhece e admira o cinema de Pagnol, como é o nosso caso, este biopic surge como um complemento precioso. Mas fora do contexto francês, é possível que «Marcel e Monsieur Pagnol» não diga muito ao grande público, ficando naquele limbo da animação para cinéfilos. Sylvain Chomet fez uma biografia encantadora, reconfortante – faltou-lhe apenas extravasar o modelo comum desse género, como esperávamos que fizesse.

 

https://www.youtube.com/watch?v=HjvzMDlllRU

 

 

TÍTULO ORIGINAL: Marcel et Monsieur Pagnol
REALIZAÇÃO: Sylvain Chomet
ELENCO: Laurent Lafitte, Géraldine Pailhas, Elsa Pérusin
ORIGEM: França, Bélgica, Luxemburgo
DURAÇÃO: 90 min.
ANO: 2025

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