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O Rapaz da Ilha de Amrum

A vista aérea de uma ilha, na costa alemã do Mar do Norte, enche o primeiro plano de «O Rapaz da Ilha de Amrum». É um convite, um primeiro olhar quase idílico sobre Amrum, que se assume praticamente como protagonista de pleno direito do filme de Fatih Akin.

A geografia aproxima, a geografia afasta, a geografia cria dinâmicas próprias. Na Ilha de Amrum, apenas a 15 quilómetros da Alemanha continental, vivem-se os últimos dias da Segunda Grande Guerra, em 1945. Os aviões sobrevoam o território, como lembrança visual do conflito, chegam refugiados e os recursos são limitados. A Guerra é uma presença constante, mesmo na ausência de batalhas.

A insularidade tem este dom de filtrar as grandes narrativas para um microcosmo particular, observável a microscópio pelo espetador. E, por isso, também em Amrum confluem (em pequena escala) os dilemas próprios de uma era que chega ao fim, entre os saudosistas de um regime em declínio e quem espera pela derrota anunciada dos fascistas. Como são os últimos dias de uma guerra? Há tristeza ou alegria? Medo ou esperança? Talvez apenas cansaço ou resignação?

Em «O Rapaz da Ilha de Amrum», Akin mostra-nos algumas respostas, muitas vezes subtis, pelo olhar de Nanning (interpretado por Jasper Billerbeck), um rapaz de 12 anos que tenta encontrar o seu lugar numa ilha onde é visto como um forasteiro. Filho de nazis (o pai é uma referência proeminente no partido) e membro da juventude hitleriana, Nanning navega o território complexo entre as convicções ideológicas transmitidas pela família e outras perspetivas com que se depara. O colapso iminente do regime justapõe-se ao colapso da crença inabalável nos pais e ao início do fim da idade da inocência.

Nanning oferece-nos o seu ponto de vista, numa escolha narrativa que está longe de ser pioneira no cinema. O olhar das crianças sobre os horrores da guerra é um dispositivo eficaz e pungente, abrindo espaço a uma análise que questiona, necessariamente, as escolhas dos adultos e a lógica (ou falta dela) da guerra. Não sendo pioneira, esta perspetiva tem, em «Amrum», o mérito de nos mostrar um lado muitas vezes mais ausente dos registos cinematográficos: as sequelas para os vencidos.

Entre planos introspetivos e uma fotografia encantadora, a narrativa avança vagarosamente. A beleza da ilha é quase hipnótica (e o filme explora-a na perfeição), numa lembrança de que a Natureza permanece e não se compadece com as desventuras dos homens. Nem quando é apenas um pequeno rapaz a tentar de tudo para encontrar um pão branco, manteiga e mel para surpreender a mãe Hille (Laura Tonke) e tentar que ela saia de um estado de depressão com a queda de Hitler. Mais uma vez, cruza-se o macro e o microcosmo, o político e pessoal, a teoria da guerra e o impacto real e emocional.

«Amrum» é uma colaboração entre Akin e o seu mestre, o cineasta Hark Bohm, que teve papel de coargumentista e cujas memórias de infância servem de inspiração ao filme. O filme estreou no Festival de Cannes, em 2025, e Bohm faleceu pouco depois, em novembro.

Título original: Amrum
Realizador: Fatih Akin
Elenco: Jasper Billerbeck, Laura Tonke, Lisa Hagmeister
Origem: Alemanha
Duração: 93 minutos
Ano: 2025

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