Foi em 2011. Nas entrevistas europeias com elementos ligados ao filme «As Aventuras de Tintin: O segredo do Unicórno», de Steven Spielberg, participei numa conversa com Kathleen Kennedy. Recordo o seu entusiasmo (como produtora) e convicção (como espectadora), explicando que estávamos perante uma proeza invulgar na utilização das técnicas de “motion capture” (filmando com actores para criar um visual inovador no território da animação cinematográfica). O filme é maravilhoso, mas o seu comportamento mediano nas bilheteiras pôs um ponto final a um projecto que previa, pelo menos, um segundo filme a ser realizado por Peter Jackson.
Passados quinze anos, leio a notícia de que Kennedy vai terminar as suas funções como presidente da Lucasfilm, cargo que assumiu em 2012, pouco depois do lançamento de “As Aventuras de Tintin” — foi, aliás, a primeira pessoa escolhida para tais funções, logo após a aquisição da Lucasfilm, de George Lucas, pelo império Disney. Será substituída por uma direção conjunta, repartida por Dave Filoni, há muito tempo envolvido nas produções de “Star Wars”, e Lynwenn Brennan, também ligada à história de Lucas, em particular através da Industrial Light & Magic, empresa de efeitos especiais a que chegou a presidir.
Não sei se faz sentido dizer que há uma época que se encerra com a saída de Kennedy do universo Lucas/Disney. Seja como for, não pude deixar de associar a notícia ao aparecimento, poucos dias antes, de Spielberg no palco do Beverly Hilton, em Los Angeles, na cerimónia dos Golden Globes. O cineasta da saga de Indiana Jones, em que Kennedy desempenhou um papel fulcral desde «Os Salteadores da Arca Perdida» (1981), foi receber o derradeiro prémio da noite (melhor filme/drama) atribuído a «Hamnet», de Chloé Zhao — Spielberg integra a galeria de cinco produtores do filme em que encontramos também, por exemplo, o nome de Sam Mendes.
Não é a primeira vez que Spielberg surge como produtor que está muito para lá do cliché simplista de criador de “aventuras” — para nos ficarmos por um exemplo recente, lembremos que o seu contributo (a par do de Martin Scorsese) foi decisivo para a concretização do projecto de «Maestro» (2023), de Bradley Cooper. O seu envolvimento em produções “independentes” não decorre apenas dos valores dos respectivos orçamentos, reflectindo sobretudo a aposta numa diversificação criativa que, afinal, é inerente à história clássica de Hollywood.
Entretanto, dizem também as notícias que, a par do acompanhamento de duas produções da Lucasfilm que pôs em marcha — «The Mandalorian and Grogu» (2026) e «Star Wars: Starfighter» (2027) —, Kennedy começará a dedicar-se a projectos de natureza “independente”. Saudando a sua versatilidade, aguardemos as cenas dos próximos capítulos.




