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OS INOCENTES, OS CULPADOS E OS OUTROS – retrospetiva Alfred Hitchcock

Quando realizou “Psico”, Alfred Hitchcock mudou as regras de Hollywood: na maneira de produzir filmes e no modo de contar histórias. Agora, essa obra-prima de 1960 está em reposição, ao mesmo tempo que, no seu filme “Hitchcock”, Sacha Gervasi conta a história da rodagem de… “Psico”.

Da imagem de marca de Alfred Hitchcock – sempre a meio caminho entre o retrato realista e a especulação mais ou menos mitológica –, ficou a sua relativa indiferença em relação à fase da rodagem dos filmes. Não que tal fase fosse assumida de forma ligeira, não profissional. Longe disso: em toda a história do cinema, não haverá muitos autores que tenham sido ao mesmo tempo tão cuidadosos e tão obsessivos na consumação das respectivas tarefas. Acontece que, justamente por causa disso, tudo o que acontecia antes possuía um valor decisivo para Hitchcock: a pré-produção e, em particular, a escrita do argumento eram processos encarados com um delirante grau de exigência. Num certo sentido, para Hitchcock, o filme estava “feito” (porque pensado em todas as suas estruturas e significações) antes mesmo de a câmara começar a rodar.

Há um exemplo dramático disso mesmo no projecto do filme The Short Night. Dramático porque, logo após a conclusão de Intriga em Família (1976), Hitchcock o preparou minuciosamente com o argumentista David Freeman, mas já não o concretizou: o agravamento das suas condições de saúde impossibilitaram-no de continuar a trabalhar, vindo a falecer no dia 29 de Abril de 1980 (contava 80 anos de idade), sem ter voltado a filmar. Num livro fascinante em que relata a sua convivência com o cineasta (The Last Days of Alfred Hitchcock, The Overlook Press, Nova Iorque, 1984), Freeman apresenta o testemunho mais eloquente do sentido hitchcockiano de mise en scène. Ou seja: o próprio texto do argumento de The Short Night, uma peça notável que, se assim nos podemos exprimir, permite “antecipar” os ziguezagues e as emoções de um filme que nunca existiu.

É, por isso, uma conjuntura especialmente feliz, esta de podermos ver em estreia o filme Hitchcock, de Sacha Gervasi, a par de Psico (1960), um dos clássicos absolutos da filmografia hitchcockiana, para mais reposto em cópia nova, digital, de excelente qualidade. As possíveis leituras paralelas reforçam-se, como é obvio, pelo facto de Gervasi apresentar, não exactamente uma evocação biográfica da “vida & obra” de Hitchcock, mas uma crónica dramática, plena de ironia, sobre o período em que o projecto de Psico foi concebido, rodado e lançado com invulgar sucesso.

Em meados de 1959, quando Hitchcock começou a encarar a hipótese de filmar Psico, tendo como base o romance homónimo de Robert Bloch, a sua história do misterioso Norman Bates, dependente da mãe, vivendo uma vida esquecida num motel de uma estrada secundária, não seria exactamente uma escolha comercialmente segura. Foi essa, pelo menos, a avaliação dos executivos da Paramount, estúdio para o qual o realizador assinara títulos de grande impacto, incluindo O Homem que Sabia Demais (1956) e Vertigo (1958); além do mais, no Verão de 1959, a MGM lançara Intriga Internacional, um “thriller” vibrante com que Hitchcock conquistara um lugar entre os maiores sucessos do ano.

Mais do que um retrato pessoal, e apesar do empenho com que Anthony Hopkins imita a postura e os tiques de Hitchcock, o filme de Gervasi propõe uma visão muito transparente do que estava a acontecer em Hollywood, nessa transição entre as décadas de 50 e 60. Por um lado, os grandes estúdios questionavam todas as suas opções tradicionais, tentando contrariar a concorrência crescente da televisão; por outro lado, tal atitude favorecia, não temas bizarros e perturbantes como os de Psico, mas a grandiosidade espectacular, eventualmente com ressonâncias bíblicas, à maneira das então chamadas “superproduções” (em 1959, precisamente, o grande sucesso, nas salas e nos Oscars, seria Ben-Hur, de William Wyler).

A ironia de tudo isto está nas próprias condições em que Hitchcock arriscou avançar com o projecto de Psico: não apenas em regime de auto-financiamento, de alguma maneira antecipando lógicas futuras da produção independente, mas também utilizando, em grande parte, os técnicos da equipa com que concretizava os episódios da sua série televisiva Alfred Hitchcock Presents (a passar na CBS, desde 1955).

Mais do que isso: controlando por inteiro todas as nuances de Psico, Hitchcock organizou uma campanha publicitária, em grande parte concebida a partir da sua própria figura como promotor, nomeadamente como apresentador do trailer do filme, que acabaria por ter um impressionante poder “viral” (mesmo se tal noção, na altura, nem sequer existia…). Feitas as contas, pode dizer-se que Psico se consolidou com um duplo estatuto de clássico: desde logo, pelas suas ousadias temáticas e narrativas, relançando de forma perversa a dicotomia inocência/culpa, vital em toda a obra hitchcokiana; mas também pelo modo como abalou as certezas da indústria e transformou os conceitos do marketing.

[Texto originalmente publicado na Revista Metropolis nº6, Fevereiro 2013]

Grande retrospectiva Alfred Hitchcock no cinema Nimas  

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