Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

Hitch e as suas actrizes – retrospectiva

Sir Alfred Joseph Hitchcock (1899-1980), o famoso Mestre do Suspense, ficou ainda conhecido pela ‘obsessão’ que tinha pelas suas actrizes, na sua maioria consideradas ícones da sensualidade feminina do século XX. Algumas delas imortalizaram as suas obras-primas, no entanto, amargaram quando dirigidas pelo cineasta.

Hitchcock ou Hitch, como também era conhecido, foi casado durante 54 anos com Alma Reville, assistente de direcção de filmes, de quem teve uma só filha, Patricia Hitchcock. Casou com Alma em 1926 e esteve com ela até a morte os separar, quando faleceu em 1980. A sua mulher era a antítese das actrizes que o cineasta ‘idolatrava’, manipulava e, nalguns casos, assediava. Os seus antigos colegas de trabalho chegaram a revelar que a relação do conhecido director e produtor de filmes com as suas actrizes eram do conhecimento da mulher, que o ajudava nas filmagens e inclusive na escolha de algumas das principais actrizes. Segundo consta, Alma era o suporte e a ‘força’ de Hitch.

Por detrás do génio dos dramas psicológicos de ficção, estava um homem ‘triste’, de poucas amizades, manipulador, sádico e obsessivo, que subjugava algumas das actrizes com quem trabalhava a um ‘thriller’ na vida real. Alguns dos críticos e escritores, seus seguidores, como Donald Spoto (biógrafo que escreveu uma trilogia sobre a vida e trabalho de A. Hitchcock, que terminou em 2009 com o livro: ‘Spellbound by Beauty: Alfred Hitchcock and His Leading Ladies / Fascinado pela beleza: Alfred Hitchcock e as suas actrizes) revelam que o agora considerado como o melhor filme de sempre pela prestigiada revista ‘Sight & Sound’ – «Vertigo / A Mulher Que Viveu Duas Vezes» (1958) – representa o filme mais revelador e pessoal de Hitchcock. O argumento de Vertigo centra-se fundamentalmente na obsessão de um homem que transforma uma mulher na mulher que ele deseja.

James Stewart, Grace Kelly, Alfred Hitchcock – «Rear Window»

Ainda na sequência do que está expresso no livro de Donald Spoto, o director cinematográfico tratava os actores dos seus filmes como ‘gado’. No entanto, em relação às estrelas masculinas com quem trabalhou, como por exemplo Laurence Olivier, Cary Grant, James Stewart, Sean Connery e Paul Newman, não tinha tanto poder, porque os mesmos já estavam bem estabelecidos na sua carreira quando trabalharam para o génio do suspense. O contrário sucedeu com algumas das actrizes que o cineasta dirigiu, tendo sido através dele que muitas atingiram o sucesso na sétima arte. Alguns bons exemplos são Madeleine Carroll, Joan Fontaine, Grace Kelly, Janet Leigh e Tippi Hedren. De acordo com Donald Spoto, para Hitchcock os actores ‘eram o que o cineasta não podia ser, mas elas, as actrizes, o que nunca poderia ter’. Numa das suas muitas conversas, depois de o biógrafo o questionar como conseguia actuações tão grandiosas, o génio do suspense respondeu “que tudo tem a ver com a forma pela qual elas são fotografadas”. Ou seja, o reconhecimento e valor dos seus filmes deviam apenas a ele e à câmara, não às suas protagonistas.

Tippi Hedren – «The Birds»

Hitchcock sabia muito bem que precisava de estrelas atractivas para seduzir a audiência e garantir o sucesso comercial dos seus filmes. No entanto, nunca, ao longo da sua carreira, teve grande opinião sobre os seus actores, especialmente pelas actrizes. De facto, o director de filmes tinha uma atracção especial por louras, mas a maioria nunca soube qual a sua opinião acerca do seu desempenho na pele das suas personagens. Nomeadamente, ouviam comentários do director de filmes, como: ‘Eu não odeio as mulheres, mas realmente penso que não são tão boas a representar como os homens’.

Considerado por muitos como um dos melhores realizadores de filmes, que alterou para sempre a história do cinema, assim como o estilo cinematográfico, o Mestre do Suspense trabalhou com cerca de 50 actrizes ao longo das suas cinco décadas no mundo do cinema. As suas ‘técnicas’ de dirigir, persuadir e transformar os seus actores nas personagens que ele pretendia até podiam ser duvidosas, nalguns dos casos, mas o certo é que não é de todo questionável que estamos perante uma das mais geniais mentes de toda a história do cinema, que conseguiu representações inéditas que imortalizaram os seus filmes. Neste sentido, referenciamos algumas das actrizes que mais marcaram a vida e obra do cineasta.

Anny Ondra – «Blackmail»

Anny Ondra (1902-1987), cantora e actriz polaca que ficou conhecida como uma grande comediante dos filmes checos da década de 20. Além disso, trabalhou com Alfred Hitchcock como estrela de Blackmail / Chantagem, considerado o primeiro filme inglês falado, e em The Manxman / Pobre Pete, ambos de 1929. Anny Ondra foi também a primeira actriz da série de louras que o director de filmes escolhia para interpretarem os papéis principais nas suas películas cinematográficas. Foi depois de optar por Ondra, que disse a frase enigmática de que ‘as louras fazem as melhores vitimas’. Apesar de entrar no primeiro filme falado de Hitchcock, Anny Ondra não era a típica rapariga inglesa e o seu sotaque era evidente. No entanto, o cineasta não a quis dispensar e arranjou uma solução – Joan Barry fez as suas falas. A carreira de Ondra terminou para o cinema britânico, por sua opção, após ter entrado em Chantagem, tendo voltado para a Alemanha.

Madeleine Carroll – «Secret Agent»

Madeleine Carroll (1906-1987), considerada a primeira ‘icy blonde’ (loura fria) a ser dirigida por Hitchcock, entrou naquele que foi considerado o primeiro sucesso cinematográfico do director de filmes – The 39 Steps / Os 39 degraus (1935). Depois deste sucesso, foi ainda protagonista em Secret Agent / Os 4 Espiões (1936). Segundo a actriz revelou posteriormente, durante as rodagens de Os 39 degraus, sofreu vários hematomas, quando algemada durante longos periodos a Robert Donat, com quem contracenava. Na época, Madeleine Carroll era considerada pelos media e críticos uma das mais atraentes actrizes do mundo, no entanto não foi a primeira opção de Hitchcock para interpretar o papel principal em Os 39 degraus. Após fazer os dois filmes com a actriz, o cineasta revelou à imprensa que ‘havia muita controvérsia em relação à forma como diziam ter tratado a actriz’.

Joan Fontaine – «Suspicion»

Joan Fontaine, dirigida pela primeira vez por Alfred Hitchcock em 1940 no seu filme Rebecca, foi nomeada pela Academia de Óscares para Melhor Actriz, mas não ganhou a estatueta. Logo de seguida entra em «Suspicion / Suspeita» (1941). Através deste thriller, ficou famosa como sendo a única estrela feminina de Hitchcock a ganhar um Óscar da Academia como Melhor Actriz. Em «Suspicion / Suspeita», Joan Fontaine representa uma tímida e jovem mulher inglesa que casa com um cavalheiro encantador, que depois começa a suspeitar que ele a está a tentar matar. De acordo com os relatos da actriz, quando trabalhou em «Rebecca», o director humilhava-a durante as filmagens para que a sua insegurança fosse mais credível para o papel que representava naquela longa-metragem.

Ingrid Bergman – «Under Capricorn»

Ingrid Bergman (1915-1982), a famosa actriz sueca, entrou em três filmes de Hitchcock e foi considerada como a mais excepcional das actrizes dirigidas pelo génio do suspense. Bergman entrou em «Spellbound / A Casa Encantada» (1945), «Notorius / Difamação» (1946) e em «Under Capricorn / Sob o Signo de Capricórnio» (1949). Sendo o seu papel em «Notorius» considerado como o melhor de toda a sua impressionante carreira, Ingrid Bergman foi uma das predilectas de Hitch, por quem ele se apaixonou. No entanto, e de acordo com o revelado por Donald Spoto no seu livro, Hitchcock nunca considerou Ingrid Bergman como uma das ‘suas’ louras, talvez porque a estrela era ‘dura de roer’ e já não precisava de ser moldada pelo cineasta.

Grace Kelly – «To Catch a Thief»

Grace Kelly (1929-1982) foi uma das estrelas amadas de Hitch, assim como uma das mais elegantes e sensuais das suas actrizes. Antes de se tornar Princesa do Mónaco, entrou em três filmes do cineasta nos anos 50: «Dial M for Murder / Chamada para a Morte» (1954), «Rear Window / A Janela Indiscreta» (1954) e «To Catch a Thief / Ladrão de Casaca» (1955). Grace Kelly interpretou personagens que revelaram na tela cinematográfica louras elegantes, cheias de vivacidade e sensualidade, ao contrário das, até então, consideradas como tradicionais louras frias de Hitchcock. Após o terceiro filme com Hitch, tornou-se Princesa do Mónaco, sendo que as personagens que interpretou nestas películas foram ainda consideradas como o ponto alto da sua curta carreira de actriz. A estrela encantava o director de filmes, que se insinuava e fazia as suas piadas habituais, mas Grace Kelly sempre rebateu as suas incitações sexuais.

Vera Miles – «The Wrong Man»

Vera Miles, sob o título de Miss Kansas (em 1948) começou a participar em pequenos papéis em filmes de Hollywood e séries televisivas. Ao lado de Janet Leigh, foi uma das estrelas de um dos maiores êxitos de Hitchcock – «Psycho / Psico» (1960). Trabalhou muito perto do génio do suspense, que a admirava e a considerava como ‘a nova Grace Kelly’. No entanto, perdeu o papel em «Vertigo» para Kim Novak por estar grávida e Hitch perdeu o interesse pela actriz. Antes de Psico, já tinha contracenado com Henry Fonda em «The Wrong Man / O Falso Culpado» (1956), um thriller baseado numa história verídica.

Kim Novak – «Vertigo»

Kim Novak foi a segunda opção para interpretar o papel principal em «Vertigo – A Mulher Que Viveu Duas Vezes» (1958), sendo a substituição de Vera Miles, e o único filme que fez com Hitchcock. No entanto, por essa representação tornou-se num ícone da sensualidade feminina do grande ecrã. Para Novak o ‘duplo’ papel numa das mais emblemáticas obras do cineasta foi ainda o seu maior sucesso como actriz. Uma das opiniões conhecidas do director de filmes acerca da actriz era o facto dele achar que ‘só conseguia representar quando estava morena e não parecia tanto a Kim Novak’.

Eva Marie Saint, conhecida por contracenar com Marlon Brando em «On The Waterfront / Há Lodo no Cais» (1954), de Elia Kazan, apenas entrou como actriz principal num único filme de Hitchcock, «North by Northwest / Intriga Internacional» (1959). Saint foi uma das actrizes de Hitch que alcançou o sucesso sob a sua sombra. Intriga Internacional é considerado um clássico dos filmes de suspense e Eva Marie Saint foi escolhida por Hitch para interpretar o papel de mulher fatal ao lado de Cary Grant e James Mason, as estrelas masculinas.

Janet Leigh – «Psycho»

Janet Leigh (1927-2004) foi a protagonista de «Psico» e ficou mundialmente conhecida pela ‘famosa’ cena no duche, tendo por isso sido considerada a mais distinguida protagonista de Hitchcock. Janet Leigh chegou a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Actriz pelo seu desempenho em Psico.

Quando Hitch conversou pela primeira vez com a actriz, revelou-lhe que a sua ‘câmara era absoluta, que contava a história pelas suas lentes. Portanto, o que preciso é que se mexa quando a minha câmara se mexer e que pare quando ela parar. Ficarei feliz por trabalhar consigo, mas não vou alterar o tempo da minha câmara’. Esta época do Mestre do Suspense é agora retratada em ‘Hitchcock’ (2012), filme de Sacha Gervasi, a estrear este mês nas nossas salas de cinema. Neste recente filme, que aborda a época em que o cineasta dirigiu Janet Leigh em Psico, é ainda revelada a relação ‘de equipa’ com a sua mulher Alma.

Tippi Hedren é de todas as actrizes de Hitchcock a que mais ‘sofreu’ as obsessões do cineasta. Obsessões que são agora retratadasapesar de alguma controvérsia, em «The Girl» (2012) uma co-produção televisiva da BBC e da HBO.

Tippi Hedren era modelo de anúncios televisivos quando Hitch e Alma, sua mulher, a descobriram. O director de filmes achou que seria ‘the girl’, a rapariga ideal, para a sua personagem em «The Birds / Os Pássaros» (1963). A actriz, ‘de beleza clássica’, entra pela mão do cineasta para Hollywood. Antes do sucesso do filme «Os Pássaros», ainda durante a rodagem das filmagens, a actriz sujeitou-se a uma ‘ataque’ de pássaros reais, onde chegou a ficar magoada, apesar de Hitch lhe ter garantido que os pássaros seriam mecânicos. Além disso, foi ainda ‘assediada’ pelo génio do suspense, que se confessou apaixonado pela estrela. No entanto, e apesar da pressão, Hedren ainda aceita fazer Marnie em 1964. Já no fim das filmagens de Marnie, o director e produtor de filmes transmite à actriz que tem que se tornar sexualmente disponível. Hedren rejeita o Mestre do Suspense e o próprio ameaça-a que irá destruir a sua carreira. Assim acontece e, de acordo com o revelado recentemente pela actriz, de 83 anos, e mãe da conhecida e também actriz Melanie Griffith, ‘apesar de me ter arruinado a carreira, nunca conseguiu arruinar-me a vida’. Rita Gomes

[Texto originalmente publicado na Revista Metropolis nº6, Fevereiro 2013]

  Grande retrospectiva Alfred Hitchcock no cinema Nimas  

Cópias Digitais Restauradas

Horários das sessões a anunciar brevemente em www.medeiafilmes.com

Também Poderá Gostar de