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Os Atores segundo Hitchcock – retrospectiva

Ao contrário da relação que mantinha com as actrizes, cujo envolvimento não excluía um certo voyeurismo e um Complexo de Pigmaleão cujo grau variará consoante os analistas, a associação de Alfred Hitchcock com os actores que habitavam o seu universo cinematográfico era bem mais prática e racional: eles eram quase sempre o veículo de identificação do espectador, servindo para que a audiência se projectasse neles e com eles sofresse, por eles temesse e ao lado deles se emocionasse.

Com as actrizes, como se sabe, havia um suplemento de erotização e de obsessão, que levou a relações mais ou menos turbulentas com as chamadas “louras de Hitchcock”, como Grace Kelly, Tippi Hedren, Kim Novak ou Ingrid Bergman. O lado mais funcional da relação do realizador com os intérpretes masculinos levou também a que houvesse muito menos nomes recorrentes nas suas obras, à excepção de dois, que se tornaram os alter-egos por excelência do espectador nalgumas das maiores obras-primas do cineasta, James Stewart e Cary Grant. O primeiro protagonizou A Corda (1948), A Janela Indiscreta (1954), O Homem que Sabia Demais (1956) e Vertigo – A Mulher que Viveu Duas Vezes (1958) e o segundo foi o actor principal de Suspeita (1941), Difamação (1946), Ladrão de Casaca (1955) e Intriga Internacional (1959).

A escolha dos actores estava sempre dependente da aceitação dos estúdios, o que fez com que por vezes Hitchcock tivesse de trabalhar com quem lhe estava disponível e não com quem ele queria, mas o estatuto de freelancers que James Stewart e Cary Grant conquistaram no pós-guerra, não garantindo exclusividade a qualquer estúdio, facilitou a recorrência na sua participação nos filmes do mestre. E se ambos eram super-estrelas, e portanto garante de bons resultados de bilheteira (o que agradava sempre ao realizador), eles também eram modelos que encaixavam na perfeição às personagens que ele queria. Ou seja, figuras com quem o espectador se podia identificar, homens normais envolvidos em circunstâncias extraordinárias.

Doris Day e James Stewart, no set «The Man Who Knew Too Much»

Hitchcock referiu mais que uma vez que o valor maior destes dois actores para um filme era o de que a audiência sofria por eles, angustiava-se com eles e empatizava com eles, e isso é um valor inestimável para um homem que queria manipular as emoções do espectador. O que não quer dizer que eles fossem intermutáveis: como bem notou François Truffaut na incontornável entrevista que fez ao cineasta britânico, «quando [Hitchcock] dirige Cary Grant, há mais humor; quando utiliza James Stewart, há mais emoção». O que o realizador corrobora afirmando que isso «resulta naturalmente das diferenças reais entre eles; mesmo quando parecem semelhantes, não o são absolutamente nada. Cary Grant, em vez de James Stewart, em O Homem que Sabia Demais, não teria aquela sensibilidade tranquila que era necessária, mas se eu tivesse realizado O Homem que Sabia Demais com ele, naturalmente a personagem teria sido diferente».    

Hitchcock escolhia o actor consoante a personagem, assente na noção de que o intérprete fazia sempre variações sobre a sua própria imagem e não que se transmutava completamente de papel para papel, como os grandes nomes do Método tornariam mais recorrente e valorizável na segunda metade do século. Caso fosse forçado a aceitar algum actor, a hipótese que sobrava era tentar encaixar um pouco a personagem que lhe cabia às forças do nome utilizado.

Cary Grant, Eva Marie Saint, Alfred Hitchcock e James Mason «North by Northwest»

De resto, no entender de Hitchcock, alguns dos seus filmes menos conseguidos deveram-se precisamente a ter o intérprete errado no papel. Por exemplo, Sabotagem foi enfraquecido por ter John Lode no papel que deveria ter sido de Robert Donat, e O Caso Paradine foi prejudicado por ter Gregory Peck num papel que seria mais adequado para Laurence Olivier ou Ronald Colman, já que, segundo o cineasta, ele «não pode representar um advogado britânico, porque um advogado britânico é um homem muito educado, pertence às classes superiores». 

 De qualquer forma, tudo em Alfred Hitchcock era pensado para servir o filme, e também os actores eram apenas peças na engrenagem, peões a movimentar num tabuleiro pensado para gerar uma determinada relação emocional nos espectadores. Daí a pouca paciência que o cineasta notoriamente tinha para considerações de ordem mais interpretativa, principalmente por actores do Método, sendo célebre a resposta que ele deu a um artista que lhe perguntava qual era a motivação da sua personagem. A resposta? “É o seu salário”. LUÍS SALVADO

[Texto originalmente publicado na Revista Metropolis nº6, Fevereiro 2013]

Kim Novak e James Stewart, no set de «Vertigo»

 Grande retrospectiva Alfred Hitchcock no cinema Nimas  

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Horários das sessões a anunciar brevemente em www.medeiafilmes.com

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