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Blue Eye Samurai – os criadores em entrevista

«Blue Eye Samurai» é um estrondo da plataforma Netflix. Os criadores da série Amber Noizumi e Michael Green criaram uma história eloquente de vingança num período muito particular do Japão Feudal. É uma espantosa viagem entre o épico, o romance, a crise existencial e a discriminação de raça e género. É tudo regado com muito sangue e acção: um bailado mortal com enorme reverência ao Japão, à arte da guerra e aos seus samurais. Imaginem uma fusão com Akira Kurosawa e Tarantino e alguns pozinhos de «Jogo de Lágrimas». A animação deu forma às suas ideias numa mistura entre o desenho tradicional e a animação 3D para um público adulto. Jorge Pinto

Como é que surgiu a ideia de «Blue Eye Samurai»?

Amber Noizumi: O Michael e eu somos casados. Eu sou metade japonesa, metade branca e a nossa filha vai fazer 15 anos dentro de dentro de algumas semanas. Mas quando ela era bebé, com cerca de 4 meses, um dia apercebi-me que ela tinha uns grandes olhos azuis brilhantes e fiquei tão entusiasmada por ter um bebé com olhos azuis. E depois comecei a pensar a pensar: “Porque é que estou tão entusiasmada pelo facto de a minha filha ter olhos azuis? Qual é o problema disso? E porque é que estou tão entusiasmada por ter um bebé que parece mais branco?” Nas nossas primeiras conversas criativas, estávamos a falar sobre como, no período Edo, a partir do Japão do século XVII, teria sido ilegal ser branco. Ninguém queria parecer branco daquela maneira. Começámos a contar uma história que progrediu lentamente ao longo dos 15 anos seguintes.

Michael Green: A certa altura, quando começámos a ter essas conversas, dissemos algo como: “Ela é como um pequeno samurai de olhos azuis.” Escrevi isso, sabendo que era um bom título. O período Edo foi uma época rara na história em que uma cultura conseguiu fechar as suas fronteiras às influências culturais e raciais externas. E quanto mais líamos sobre isso, mais pensávamos que seria fascinante imaginar alguém nesse período que se sentisse como um estranho devido ao seu estatuto parcialmente branco, o que é o oposto de como as pessoas se sentem neste país [EUA], onde as pessoas que são de raça mista muitas vezes sentem que não são suficientemente uma ou outra. Falámos sobre esta história durante uns bons 10 anos até que um dia percebemos que a animação para adultos nos daria o nível certo de arte e alcance para contar para contar esta história de uma forma tão louca como queríamos.

Qual é o público-alvo desta série?

Michael Green: O nosso objetivo foi sempre uma grande ligação à personagem, para que as pessoas quisessem saber o que acontece a estas personagens e para que esquecessem que se tratam de personagens animadas e pensassem nelas apenas como seres humanos. Queremos que as pessoas se deixem levar pela história e pelo nível artístico e se esqueçam que estão a ver animação. Gostaríamos que isto fosse transversal a todos os interesses: se gostam de The Witcher, se gostam de animação, se gostam de «Guerra dos Tronos», se gostam de «The Crown», se gostam de drama histórico, se gostam d­e «A Paixão de Shakespeare », se gostam de filmes do Tarantino, há algo em «Blue Eye Samurai» para todos.

Amber Noizumi: Esperamos que todos acima de uma certa idade, mas falámos muito sobre o facto de querermos que isto seja algo de que gostamos e também para pessoas que normalmente não vêem animação mas gostam de ver um drama histórico. Sinto que vamos ter essas pessoas, mas queremos ter um público mais vasto. É um conto de vingança do período Edo – «Kill Bill» (2003) encontra «Yentl» (1983).

É também uma experiência imersiva para o espetador. Como descreve a estética visual da série?

Michael Green: Ao contrário de qualquer outro show em que já trabalhei, a escrita foi a parte mais fácil deste projeto. A produção foi a parte difícil, mas tornou-se muito mais fácil quando encontrámos os artistas certos, e este projeto deve tudo a algumas pessoas em particular. A Amber e eu chegámos à animação como novatos, e tudo o que aprendemos nos últimos anos vem deles. Jane Wu, a nossa supervisora de realização, conseguia ler o guião, mas depois conseguia vê-lo e tinha o génio artístico e os conhecimentos técnicos para ajudar a torná-lo realidade.

Toby Wilson, o nosso designer de produção, sabia como criar estes ambientes. Ele e a Jane sabiam que queríamos um estilo de animação que mostrasse a mão do artista, que tivesse uma qualidade de pincelada, que parecesse muito artesanal e personalizado. Também fizemos questão de trazer Suttirat Larlarb, a nossa directora de figurinos, com quem tive o prazer de trabalhar em «American Gods». Ela e a sua equipa fizeram uma pesquisa incrivelmente profunda sobre o vestuário da época e ensinaram-nos com um nível de profundidade a que nunca teríamos tido acesso. Quando vemos personagens como a Madame Kaji a usar aquele belo quimono inspirado no pavão, isso vem de um padrão que Suttirat encontrou num museu e que não era visto há cerca de 250 anos. Muitas das peças que as nossas personagens vestem têm esse nível de erudição, que depois é reproduzido pelas mãos brilhantes dos artistas.

Qual o nível de investigação para esta série?

Amber Noizumi: Ambos começamos a investigar de forma independente, o Michael foi sempre um grande fã de filmes e livros sobre samurais e apresentou-me a série de filmes Zatoichi. Uma grande parte da nossa investigação consistiu em saber como era ser mulher no Japão do período Edo e como teria sido ser uma mulher considerada um monstro nessa altura. Quando começámos a escrever, contratámos alguns investigadores para reforçar o que já tínhamos descoberto por nós próprios.

Michael Green: Lemos bastante, mas num projeto destes, só se pode confiar nos nossos próprios estudos. Trabalhámos com um professor chamado Yukio Lippit, do Departamento de História de Harvard, que podia responder a todas as nossas perguntas, aprofundar as coisas e verificar e garantir que não cometíamos erros. E depois todos os departamentos trabalharam com investigadores para se certificarem que tudo estava correto. Partilhámos sempre o nosso trabalho uns com os outros para garantir que não havia erros.

Amber Noizumi: Sem dúvida que usámos licença artística, mas queríamos que fosse o mais historicamente exato possível. Um dos nossos objectivos era que os fatos parecessem algo que se visse na altura.
Obviamente que, como escritores, tivemos de fazer algumas coisas à nossa maneira para que a história funcionasse.

Apesar da série estar enraizado na história, como pensa que reflecte a vida contemporânea?

Amber Noizumi: A ideia de pureza racial, infelizmente, ainda é muito predominante e algumas pessoas gostariam mesmo de ver a pureza racial. Essa ainda é uma questão com que se debate no Japão e, na verdade, em todo o mundo. E há o ódio auto-inflingido e interiorizado que as pessoas marginalizadas sentem, e os danos, a raiva e a destruição que resultam disso. Também abordamos o género, a ideia de que as mulheres não têm controlo sobre os seus corpos, que continua a ser um problema cada vez mais grave na América. A nossa personagem Akemi não tem controlo e todos os seus objectivos são controlar a sua vida, controlar o seu corpo e, essencialmente, é isso que que Mizu também procura. Mizu não tem controlo sobre a forma como foi criada e como é vista, e não tem outra opção senão seguir esta vida de vingança.

[Entrevista publicada na Revista Metropolis nº100, Novembro 2023]

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