Algumas distribuidoras portuguesas têm apostado na regular revisitação de memórias indispensáveis para entendermos a pluralidade, os contrastes e as contradições de que se faz a história do cinema. A Leopardo Filmes é uma dessas empresas, agora convocando-nos para uma redescoberta de Jacques Rozier (1926-2023), nome simbólico da Nova Vaga francesa, ainda que algo “marginal”, no sentido em que o seu trabalho nunca teve a repercussão obtida por Jean-Luc Godard, François Truffaut ou Claude Chabrol.
Uma imagem emblemática da rodagem da sua primeira longa-metragem, “Adieu Philippine” (1962), pode ajudar a definir a sensibilidade do momento (artístico e técnico) em que o seu cinema nasceu e, em boa verdade, toda a Nova Vaga: num Citroën 2CV apinhado de gente, Rozier é a figura principal que emerge da capota aberta, procurando ordenar a cena que o seu director de fotografia, René Mathelin, se prepara para filmar. O sentimento de improviso não exclui (antes pelo contrário, reforça) o facto de todas as acções reflectirem um desejo de cinema que começa, não no artifício do estúdio, mas na vibração do real.
Tanto basta para sublinharmos um desses factos paradoxais de que se faz a cinefilia: Rozier é um nome, uma voz e uma estética proveniente de um contexto impossível de repetir, o que não impede que o seu trabalho, aqui e agora, possua a capacidade de questionar o cinema que vemos — e como vemos o cinema.
Produzido por Paulo Branco, com direcção fotográfica de Acácio de Almeida, “Maine Océan” (1986) é outra referência de culto da filmografia de Rozier, de alguma maneira condensando a sua filosofia irónica, algures entre a vertigem poética e a irrisão cómica. Daí também o especialíssimo valor de “Paparazzi” e “O Partido das Coisas: Bardot/Godard”, duas curtas-metragens de 1963 rodadas durante a rodagem de “Le Mépris/O Desprezo”, o filme de Jean-Luc Godard, com Brigitte Bardot, tendo como base o romance homónimo de Alberto Moravia.
Estas curtas participam, afinal, de um impulso criativo transversal a toda a Nova Vaga, com destaque para Godard e Jacques Rivette. Tudo se passa como se o trabalho da ficção não fosse o contrário do documentário, mas o seu duplo perverso. Filmar o mundo que habitamos é, por isso, uma reprodução e uma reinvenção — a primeira atrai a segunda, permitindo que o artifício da segunda corrija o espontaneísmo da primeira. A liberdade é, muito provavelmente, o lugar mitológico em que se cruzam esses dois caminhos — Lumière e Méliès — que conduzem ao país do cinema.




