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Postal de Cannes – 19 maio

Eis uma imagem que desafia os nossos códigos habituais de percepção: no espaço de uma grande superfície comercial surgem inscritas frases que fazem parte das directrizes da ditadura retratada por George Orwell no seu romance clássico “1984”: “guerra é paz”, “liberdade é escravatura”, “ignorância é força”… É uma imagem (obivamente composta) do filme «Orwell: 2+2=5», realizado por Raoul Peck, um documentário que parte das análises de Orwell sobre os mecanismos das ditaduras (visto nas ante-estreias de Cannes). Diria que o seu desconcertante efeito informativo reflecte as virtudes e os limites de um dos filmes mais desafiantes, e também mais frustrantes, que Cannes programou. Porquê? Porque Peck tem uma imensa coleção de materiais (de filmes antigos a reportagens televisivas da actualidade, nomeadamente sobre Gaza e a Ucrânia) que, de facto, podem desafiar as certezas do nosso olhar; ao mesmo tempo, o realizador vai cedendo à facilidade de “colar” referências ficcionais e documentos concretos como se as suas estruturas se pudessem equivaler. Enfim, mesmo para aqueles que possam resistir a tal método narrativo (é o meu caso), importa acrescentar que estamos, pelo menos, perante o labor de alguém que arrisca discutir os modos de apropriação e (re)montagem das imagens do passado e do presente — uma discussão em aberto que vale a pena alimentar, quanto mais não seja para reagirmos às retóricas dominantes nas linguagens televisivas.

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