Aya (Nina Melo) foge do altar no dia do seu casamento e deixa a Costa do Marfim para começar uma vida nova em Guangzhou, a “Cidade do Chocolate” na China, onde conhece Cai (Han Chang), o proprietário de uma icónica Casa de Chá. Nos vários negócios que se cruzam nesta “cidade do Chocolate”, devido à elevada presença das comunidades migratórias de Árica, Aya interessa-se e aprende tudo sobre a arte de servir e saborear um chá. Nesta partilha de conhecimento e tradições, Aya e Cai trocam experiências e memórias de outras relações, deixando nascer um novo amor entre ambos.
Entre sonhos, momentos perdidos no tempo, sem linearidade cronológica, Abderrahmane Sissako («Timbuktu» vai seguindo, leve leve, sem pressas. O importante para o realizador mauritano é fazer uma viagem por duas culturas tão diferentes, é mostrar a condição da mulher, a emancipação e não submissão a uma sociedade e a um sistema que privou muitos casais de serem felizes. E é neste ponto que a diáspora africana se cruza com a cultura chinesa. Os casamentos são “orquestrados”, pouco importando se homem e mulher se conhecem ou nutrem sentimentos uns pelos outros.
Sissako aponta o holofote para tradições que privam a mulher e o homem de terem liberdade para definir o seu final. Feliz ou não, é o final que escolhem e não o que lhes é imposto. O homem tem de casar com quem a família escolheu, mas a mulher é simplesmente posta de parte e declarada “incapacitada” e um fardo para a sociedade. Só que, por vezes, os planos da vida são mais fortes e não há como dar-lhes a volta.

«Chá Preto» é confuso na linha temporal e na contextualização de personagem (não percebemos como é que Aya sai da Costa do Marfim e aparece em Guangzhou, com a mesma aparência de idade e já a falar chinês fluentemente; ou como é que está vestida de uma forma e aparece na cena seguinte com uma roupa diferente sem ter passado o tempo que o justifique), assim como na confusão entre realidade e sonho na missiva de Cai por Cabo Verde para um reencontro há muito esperado. Mas o realizador não parece importar-se com isso. Para ele, e como assumiu durante o Festival de Berlim, este é um filme sobre a liberdade da mulher.
Mas «Chá Preto» é sobre algo mais. Com uma bonita cinematografia e uma banda sonora que nos embala além-fronteiras, é sobre largar o passado e os preconceitos, e viver um novo futuro, de interculturalidade, com liberdade de escolha e em que almas se atraem apenas porque são “boas” ou porque simplesmente “resultam” naquele tempo e naquele espaço e não porque “é assim que tem que ser”. «Chá Preto» é uma viagem por dois continentes que se conectam, sem nunca largar uma certa vigilância, uma supervisão dos “velhos costumes”, do pensamento racista e limitador, deixando nas mãos do espectador a sua própria “viagem”, a forma como percebe para lá do óbvio, e devolvendo no final, regressando ao início do filme e pegando na analogia de uma formiga que o noivo prometido de Aya “esmaga” contra o chão: “E se tudo isto for um sonho? E se tudo isto não acontecer porque alguém simplesmente decidiu dizer “Sim” em vez de seguir a sua vontade e dizer “Não”?
Título Original: Black Tea Realização: Abderrahmane Sissako Elenco: Nina Melo, Han Chang, Ke-Xi Wu Duração: 110 m França, Luxemburgo, Taiwan e Mauritânia, 2023
[Crítica originalmente publicada a 4 de Fevereiro de 2025]




