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SIMONE – A VIAGEM DO SÉCULO

A premissa é simples: seguir a vida de Simone Veil no decorrer dos eventos cruciais do século XX: a sua infância, as suas lutas políticas e as suas tragédias. Mas o trabalho de Olivier Dahan não tem nada de simples. O realizador de «La Vie en Rose», que deu o Óscar a Marion Cotillard, e do não tão bem conseguido «Grace de Mónaco», com Nicole Kidman, tem neste filme um excelente trabalho biográfico da incontornável Simone Veil, uma mulher que marcou a política de França e o próprio país, com o seu exemplo e a sua força, enquanto lutava pelos direitos das mulheres e dos mais oprimidos.

A cinematografia de Manuel Dacosse coloca-nos nos vários momentos da vida desta mulher, que começou num contexto privilegiado de uma família francesa judia antes de 1944, altura em que foi deportada, juntamente com a sua família, para os campos da morte de Auschwitz. Com uma estética que se adapta organicamente a todos os momentos marcantes da história desta ativista e política, o fio condutor de «Simone – A Viagem do Século» não é linear, mas a mestria está precisamente na forma de contar um biopic, entre flashbacks mais para a frente ou mais para trás, sem nunca perdermos o rumo e reunindo cada vez mais elementos que nos apresentem a personalidade desta mulher. Ao vê-la, estamos com ela, seguimo-la como se acompanha uma grande amiga e, em certo momento, desejamos ter, um terço que seja, da sua força e da sua assertividade, para enfrentar um mundo injusto e de maus tratos. Nos campos de concentração nazis ou no parlamento francês enquanto defende a lei da interrupção voluntária da gravidez, ou até mesmo no momento em que decide que uma mulher também pode estudar e ser o que ela quiser e não apenas a mulher de alguém, ou quando se mantém firme na vontade de conversar pessoalmente com toxicodependentes e doentes de SIDA, mesmo quando a mais defensiva equipa de assessores a contraria, Simone mostra-se sempre forte, porque o inferno ela conheceu de muito perto e nada vai apagar isso.

Enquanto somos bafejados pelo retrato épico e íntimo desta mulher, a narrativa foca alguns dos momentos marcantes da história e cultura francesas, como a proibição de se falar sobre os franceses que sofreram nas mãos dos nazis, o machismo presente no parlamento francês, ou os dados escandalosos dos abortos feitos clandestinamente antes da aprovação da lei do aborto, mas «Simone – A Viagem do Século» é muito mais do que um filme sobre uma mulher com um percurso fora do comum. «Simone – A Viagem do Século» revisita os campos de concentração em imagens que parecem até repetidas às que já observámos em tantos outros filmes, mas, segundo o realizador, esses momentos têm uma “missão”: os jovens de hoje podem não ter visto a «A Lista de Schindler», «O Piano» ou até «Shoah», e a verdade é que esta realidade não pode nunca ser esquecida.

Com performances irrepreensíveis de Elsa Zylberstein, no papel de Simone quando mais velha (entre 1968 e 2006) e Rebecca Marder (1942 e 1967), como a jovem Simone, assim como Olivier Gourmet, enquanto marido da ativista (entre 1974 e 2006), «Simone – A Viagem do Século» é sobre a força que vem do sofrimento e sobre o amor que não tem forma e respeita o outro tal como ele é. É sobre o grande e puro amor entre irmãs e, sobretudo, sobre o orgulho de ser mulher e sobre quem lutou para que hoje se possam discutir todas as questões relacionadas com o papel da mulher na sociedade.

Simone Veil foi “gigante” no seu pequeno papel na imensidão que é a vida. França e o mundo devem agradecer-lhe e elogiar essa força, capaz de abalar todas as estruturas. Como dizia o seu marido em resposta à estupefação da própria sobre o porquê de as pessoas a maltratarem – «As pessoas temem o que tu representas» –, e, por vezes, o medo vem apenas daqueles que não sabem defender os seus princípios e a sua força, contra tudo o que possa advir daí. Precisamos destes filmes, precisamos destas pessoas, com o coração e a garra nos sítios certos, precisamos assumir e honrar valores, e precisamos, acima de tudo, ter consciência de que a solução está na união e não na fragmentação e no elogio ao ego e ao acessório. Obrigada, Simone!

Título Original: Simone, le voyage du siècle Realização: Olivier Dahan Elenco: Elsa Zylberstein, Rebecca Marder, Élodie Bouchez Duração: 140 min. França, 2021

[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº94, Junho 2023]

https://www.youtube.com/watch?v=8uMfvO7L-_g&embeds_euri=https%3A%2F%2Fcinemametropolis.com%2F&source_ve_path=OTY3MTQ&feature=emb_imp_woyt
Sara Afonso
Sara Afonso
Entrou para o jornalismo há mais de 20 anos, ainda antes de terminar o curso de Comunicação e Jornalismo. Estagiou no jornal O Jogo, na área de cultura e cinema e, no final do curso, entrou no jornalismo especializado de Tecnologia, nas revistas Connect, Casa Digital e T3. Em 2011, aceitou a direção do seu projeto de sonho: a revista de cinema Empire, o bilhete dourado para conhecer e entrevistar estrelas do cinema e da TV, para comentar eventos de cinema e para ser júri em festivais de cinema nacionais. Por fim, assumiu a coordenação de vários projetos de imprensa, em áreas como surf, fitness, gastronomia, vida selvagem, mindfulness e criatividade, alimentação saudável, entre outros, sempre mantendo a colaboração na área do cinema, com a revista digital METROPOLIS. Já escreveu livros, criou perguntas para um famoso programa de televisão e contribuiu com a sua escrita para um projeto deslumbrante sobre o Oceano, (Oceans and Flow). Recentemente, voltou ao mundo das revistas, mas, como alguém disse um dia: “A partir do momento em que participam na descoberta mágica do cinema, este torna-se o vosso amor para sempre.

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