GRACE DE MÓNACO

GRACE DE MÓNACO

Grace Kelly, a carismática atriz e elegante princesa de Mónaco, surge no centro de um filme biográfico que começa por rejeitar qualquer semelhança com os factos narrados, através de uma legenda que parece ter sido inserida, no início dos créditos, com o objetivo de esvaziar as reservas que foram colocadas pela família real monegasca.

A legenda vale o que vale mas confirma o equívoco de todo um projeto naturalmente ficcionado e que sustenta mal a sua relação com o real, colocando-se num território dúbio e que não facilita o envolvimento do espectador com a história.

A intensidade dramática do argumento reside no grande dilema que Grace Kelly (Nicole Kidman) sentiu quando renunciou à sua brilhante carreira de atriz para se dedicar ao seu marido, o príncipe Rainier (Tim Roth), e às causas da família real. Numa das primeiras cenas do filme, Grace recebe Alfred Hitchcock (Roger Ashton Griffiths) e durante o encontro no Mónaco o realizador oferece-lhe o papel principal «Marnie», propondo-lhe que regresse a Hollywood – a reunião pessoal nunca sucedeu, esta é uma das várias liberdades criativas que são assumidas na abordagem de factos verídicos.

O convite acentua as dúvidas de Grace, em relação ao seu casamento com Rainier e às obrigações políticas a que estava sujeita numa conjuntura de crise diplomática entre a França e o Mónaco por causa da cobrança de impostos no principado – um facto histórico sustentado com alguma ligeireza, sobretudo através do traço risível como que Charles de Gaulle (André Penvern) é caraterizado.

O contexto do filme está todo ancorado nesse episódio político, procurando valorizar o desempenho de Grace Kelly durante conflito, centrando o clímax num discurso proferido por si durante uma gala organizada no Mónaco. Mais uma vez a perspetiva do filme está desajustada da realidade porque os registos históricos não sustentam a importância que é atribuída ao papel da princesa.

Este divórcio seria irrelevante se o filme não assumisse a dimensão biográfica que revela através da forte colagem entre as imagens de Grace Kelly e de Nicole Kidman. O que vemos, através de uma composição sólida da atriz, é uma personificação da princesa e a competente interpretação dos dilemas que terá vivido numa nesga fugaz da sua história.

A presença carismática de Kidman e a dimensão mitológica de Grace Kelly atraem o espectador para um drama com dimensão biográfica que o filme nega. Como nunca definiu o território em que se movimenta, o realizador Olivier Dahan acabou por fragilizar o seu falso biopic, perdendo a oportunidade preciosa de fazer um filme à altura da princesa mas, sobretudo, de uma grande atriz.

Título original: Grace of Monaco Realização: Olivier Dahan Elenco: Nicole Kidman, Tim Roth, André Penvern, Frank Langella, Paz Vega, Parker Posey, Milo Ventimiglia. Duração: 103 min. França/Itália/Bélgica/Itália/Suíça, 2014

[Crítica publicada originalmente na revista Metropolis nº 20, Junho 2014]

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