A terceira temporada de «Warrior» estreou no Verão 2023 nos ecrãs da HBO MAX. A série felizmente salvou-se do cancelamento e prosseguiu a sua grande mitologia na fusão da emigração asiática com as artes marciais em São Francisco nos finais do século XIX.
A série é famosa por ser baseada num pitch que o lendário Bruce Lee apresentou há cerca de 45 anos. A filha, Shannon Lee, é uma das produtoras da série e deu a sua bênção ao produtor executivo Justin Lin numa criação que faz justiça ao legado de Bruce Lee. A série foi criada por Jonathan Tropper, o autor da imperdível «Banshee» (2013), com Antony Starr. «Warrior» tem vários dispositivos semelhantes a «Banshee», sendo que rapidamente são suplantados pela riqueza estilística desta série de época que se funde com a inovação e a criatividade, as artes marciais aliadas às várias tramas que enriquecem a série. Esta obra foi pioneira, aquando do seu lançamento em 2019, na representatividade de asiáticos em cena mas nada serviria este propósito se os principais actores não fossem bons. A série está repleta de bons valores da representação que tiveram espaço e personagens para demonstrarem o seu talento.
«Warrior» acompanha a jornada de Ah Sahm (Andrew Koji), um especialista em artes marciais vindo da China e que atravessa o “sal” para procurar o paradeiro da sua irmã Mai Ling (Dianne Doan) em São Francisco, nos Estados Unidos. Ah Sahm junta-se a um gang (os Hop Wei) e ganha proeminência no seio da sua comunidade. Por ironia do destino, o gang de Ah Sahm rivaliza com o gang (Long Zii) que acaba por ser liderado pela sua irmã. É um pecado não referir que a trama desta temporada dos Long Zii envolve um grande mestre de artes marciais no ecrã, o actor Mark Dacascos («O Pacto dos Lobos», «O Corvo» e «O Dragão»). A temporada oferece igualmente o tão aguardado confronto entre os gangs rivais na Chinatown. A narrativa de Mai Ling é proeminente ao confrontar a líder feminina com o patriarcado do seu gang. E não esquecendo a narrativa policial com o passado de Richard Lee (Tom Weston-Jones) a vir à tona; Bill O’Hara (Kieran Bew) o polícia anti-herói a tentar proteger a cidade, os colegas e a família de um novo e cruel chefe de polícia; e a dupla história de Ah Toy (Olivia Cheng), a madame do bordel chinês e implacável assassina que se tenta afastar da vida de violência mas acaba por ser novamente arrastada para este meio devido a um capitalista sem escrúpulos.

«Warrior» é também uma interessante observação acerca da emigração que vai contaminar o cenário de fundo desta história. Recordamos que em 1882 foi criado o Acto de Expulsão de Chineses [Chinese Exclusion Act] nos EUA. Durante dez anos foi proibida a emigração de chineses para o território norte-americano por ameaçar a ordem e o bem-estar de várias localidades. A economia americana sofreu uma contração com a falta da mão de obra chinesa. Esta visão da imigração torna-se mais interessante quando a análise é feita com a incidência na série através dos personagens das classes trabalhadoras (chineses e irlandeses) até à cúpula do poder, seja os interesses dos patrões da indústria, pelo interesse na mão de obra barata, seja no cinismo dos políticos que procuram conquistar o município e controlar a Lei. Na terceira temporada há uma confluência dos chineses e irlandeses que chegam à conclusão que outros interesses se aproveitam destas rivalidades em São Francisco. É uma trama muito interessante onde rivais mortais se tornam aliados.
«Warrior» tem os contornos de tragédia grega e sempre imbuída de acção altamente estilizada para nos deixar surpresos pelo cuidado da encenação e das coreografias. A terceira tem altos valores de produção, os cenários e o figurino são deslumbrantes. A série foi rodada na Cidade do Cabo na África do Sul numa óptica de contenção de custos. Josh Stoddard assumiu as funções de co-showrunner, a terceira temporada eleva a fasquia da série, esperamos que possamos assistir à continuação desta saga. Seria ingrato replicar a dimensão desta obra no cinema com a série a permitir o enraizamento das narrativas, personagens e a transformação de cenários pulp em joias para os nossos olhos.
As três temporadas de «Warrior» da HBO MAX continuam a ser um must para os amantes de uma boa série de acção.

