Desadequação. Frustração. Resignação/irritação. Fade to black. Repetir tudo no dia seguinte. Fade to black. É assim que, vinheta após vinheta, «Sister Midnight» (2024) acompanha a história de Uma (Radhika Apte), recém-casada com Gopal (Ashok Pathak) num matrimónio arranjado e acabada de se mudar da aldeia natal para Mumbai. Subvertendo a habitual história de amor, o filme (disponível em Portugal através do Filmin) surpreende.
Insatisfeita com o papel em que a sociedade a coloca, com uma crescente frustração que a consome, Uma está longe de ser a fada do lar prestável e resignada que o mundo poderia esperar dela. Tenta conformar-se à norma do que poderia ser um casamento feliz, ainda que sem grande esforço. Tenta aprender a cozinhar. Tenta aprender a gerir o orçamento doméstico. Tenta aprender a seduzir o marido. Tenta viver uma vida menos solitária. Tenta trabalhar para preencher o vazio dos dias e evitar lidar com a realidade doméstica. E vai tentando, sem convicção nem paciência, enquanto, debaixo da superfície, a desilusão levanta fervura.
Para dar eco a estes temas, a estreia nas longas-metragens do realizador Karan Kandhari poderia ter-se servido do romance ou do drama. Optou, em vez disso, por um registo quiçá inesperado: o do humor que dá lugar ao terror.

Numa narrativa repartida em pequenos episódios do quotidiano, cortados repentinamente com um ecrã completamente preto, as desventuras de Uma e a sua (não-)relação com Gopal são contadas com um timing cómico irresistível, aguçado por uma mise-en-scène quase caricatural. Depois de uma primeira parte embrulhada neste registo cómico, um certo mal-estar físico de Uma revela-se como uma apetência progressiva por sangue. A revelação move o tom do filme para terrenos um pouco mais sombrios, sem nunca esquecer o embalo humorístico, agora tornado comédia negra.
Kandhari explora, a partir daqui, o caricato e o sobrenatural como veículo para o anticonformismo nos papéis normativos na sociedade indiana. Eficaz e pungente, a narrativa de «Sister Midnight» junta o imaginário de vampiros e elementos religiosos e supersticiosos, numa mescla contemporânea arrojada. Nas entrelinhas de cada uma das vinhetas apresentadas, e à medida em que o desencanto é transformado em algo visceral, espreita a crítica social e de costumes. Caminhará Uma para a decadência ou para uma espécie de libertação? «Sister Midnight» dá-nos respostas ambíguas, que recaem mais na interpretação de cada um do que nos pontos propositadamente em aberto da história.
A par da fotografia e música (cuidadosamente curada para agradar a um público global), a interpretação de Radhika Apte é um tour de force em si mesma. A sua Uma é carismática e prende-nos desde o primeiro momento, perante atitudes mais e menos compreensíveis da personagem. Do papel para o ecrã, Uma ganha alto-relevo no cenário de Mumbai onde se movimenta, com Apte a garantir-lhe pujança suficiente para levar «Sister Midnight» às costas.
No seu todo, esta primeira longa-metragem do realizador entusiasma, mesmo que Kandhari nem sempre acerte nas suas escolhas (como é o caso do ritmo da narrativa ou da forma como os animais do filme são animados). Ainda assim, e tal como a vizinha de Uma explica, por vezes basta ter picante para tudo resultar ao paladar. Fade to black.
Título original: Sister Midnight Realizador: Karan Kandhari Elenco: Radhika Apte, Ashok Pathak, Chhaya Kadam Origem: Reino Unido, Índia, Suécia Duração: 107 minutos Ano: 2024

