Género soberano da estética comercial americana dos anos 1980, o cinema de ação foi condenado ao limbo nos anos 1990, sob a foice do politicamente correto, o que gerou a queda de seus ícones como Van Damme e Steven Seagal e transformou um dos seus mitos, Schwarzenegger, em político – hoje sem cargo. Como veio do drama, como Rocky Balboa, Sylvester Stallone conseguiu se reinventar por outras vias e criar uma franquia quase vintage para o filão: The Expendables. Apareceu para os filmes de ação uma saída pelas veredas do humor: Will Smith e Jackie Chan transformaram o heroísmo em burlesco, em filmes policiais de tintas cómicas. Mas a necessidade de se expurgar os males governamentais que adoecem o mundo nas mais diferentes latitudes, fez com que o cinema de ação encontrasse na linha política uma forma de escoar sua estética. Eis onde entra a série “Sicário”, fortalecida agora por uma segunda longa-metragem tão boa quanto o projeto que a originou.

Orçado em US$ 30 milhões, “Sicário” (2015) foi concebido como um atestado de talento para Hollywood certificar se o cineasta canadiano Denis Villeneuve estava apto, ou não, a pilotar projetos de peso, como os irretocáveis «O Primeiro Encontro» (2016) e «Blade Runner 2049» (2017). Porém, o que surgiu só como um teste, rendeu frutos impensáveis: uma bilheteria de US$ 84 milhões, três indicações ao Oscar e uma vaga na disputa pela Palma de Ouro de Cannes. Havia um certo medo, na sua estreia, de que ele não passasse de um decalque de «Traffic» (2000), de Steven Soderbergh. Mas sua reflexão criminal vai por outro caminho, mais próximo dos thrillers de Costa-Gavras dos anos 70 e 80.

Do somatório dos variados dividendos do primeiro “Sicário”, nasceu uma franquia. A parte dois – “Guerra de Cartéis” -, pilotada pelo italiano Stefano Sollima (das séries de TV «Romanzo criminale» e «Gomorra»), é tão engenhosa narrativamente quanto o original. A manutenção de Taylor Sheridan (um dos maiores argumentistas de hoje nos EUA), no comando do script, preservou o vigor do nº1. Perde-se um pouco na troca de fotógrafo (sai o mago Roger Deakins; entra Dariusz Wolski, mais seco), mas as cenas de ação seguem tensas, dirigidas com virtuosismo. Há, agora, mais humanidade no agente Matt (Josh Brolin, contagiante), operativo da CIA que manipula quem pode combater os cartéis do México. Benicio Del Toro segue monumental na pele de Alejandro, um vingador por quem Matt tem respeito. Sollima dá ao longa-metragem tons de espetáculo, mas mantém o ónus trágico – e político – do filme anterior sobre a chaga do narcotráfico.

Título original: Sicario: Day of the Soldado Realização: Stefano Sollima Elenco: Benicio Del Toro, Josh Brolin, Isabela Merced. Duração: 122 min. EUA/México, 2018

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