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Savage House

          Na cena inicial, uma criada vira uma pera numa fruteira para esconder a parte podre. Este pequeno gesto simboliza a história que nos é dada a ver. Em «Savage House», Peter Glanz constrói uma sátira da aristocracia inglesa baseada precisamente nessa operação estética e moral: esconder a decomposição por detrás da etiqueta, do ritual e da encenação social. A mansão dos Savage é um organismo em apodrecimento lento, sustentado por dívidas, aparências e violência doméstica transformada em protocolo. O filme quer apresentar-se como uma desmontagem feroz da alta-sociedade britânica e da própria ideia de legitimidade monárquica, mas acaba frequentemente por cair na armadilha da redundância. O resultado é uma obra visualmente estimulante e ocasionalmente divertida, embora demasiado satisfeita com os clichés habituais do género.

          Situado na Inglaterra de 1715, em plena crise jacobita e durante um surto de varíola, «Savage House» acompanha Sir Chauncey Savage e Lady Savage na tentativa desesperada de preservar o estatuto social da família antes da visita de membros da alta nobreza. A narrativa funciona como uma sucessão de humilhações, traições e improvisações grotescas, numa linha que cruza Kubrick, Greenaway e a tradição da comédia negra britânica. A mansão é filmada como um espaço de decadência física: corredores húmidos, paredes descascadas, criados exaustos, refeições podres servidas em porcelana impecável. A mise-en-scène insiste continuamente na ideia de que toda a civilização aristocrática é apenas uma camada fina aplicada sobre a barbárie.

          O quesito de «Savage House» está em saber se ultrapassa a superfície dessa crítica. O parasitismo da aristocracia, a teatralidade da corte, o oportunismo político da monarquia hanoveriana são bem identificados, mas graças a mecanismos demasiado previsíveis. Há uma insistência quase automática no grotesco: dentes podres, perucas infestadas, criados espancados, banquetes arruinados, relações sexuais transformadas em moeda política. Em vez de aprofundar as estruturas de poder, o filme prefere amplificar sintomas exteriores de decadência. É uma crítica que se revela algo seca e repisada nos habituais clichés do género. O espectador percebe rapidamente que cada salão elegante esconderá uma perversão e que cada personagem aristocrática será simultaneamente ridícula e monstruosa tingindo a criadagem que os emula. Ao fim de duas horas, a sátira deixa de descobrir algo novo e limita-se a reiterar aquilo que já sabemos desde «Barry Lyndon» (Kubrick, 1975), «The Favourite/ A Favorita» (Yorgos Lanthimos,2018), ou mesmo do francês «Ridicule/O Ridículo» (Patrice LeConte, 1996).

          Podemos sentir no filme uma relação com “Grandes Esperanças”, de Charles Dickens. Embora separados por mais de um século histórico e por registos narrativos muito distintos, ambos os textos partilham uma obsessão semelhante: a fabricação social da identidade através da expectativa de reconhecimento social. Em Dickens, a grande imagem simbólica dessa suspensão é a mesa eternamente posta por Miss Havisham para um casamento que nunca acontecerá. Em «Savage House», essa ideia reaparece no jantar preparado obsessivamente para os duques e aristocratas cuja chegada promete restaurar o prestígio da família Savage. Os criados trabalham até à exaustão, a casa é reorganizada como palco cerimonial e cada detalhe do banquete é tratado como questão de sobrevivência social. Mas desde o momento em que a visita é anunciada se torna mais do que previsível que eles nunca virão para o jantar. O espectador percebe imediatamente que toda a narrativa caminha para a ausência, para o vazio e para a humilhação inevitável.

          O paralelo entre as duas obras encontra-se precisamente nessa teatralização da expectativa. Tanto a mesa de Miss Havisham como o jantar dos Savage são monumentos erguidos para destinatários ausentes. Em ambos os casos, a aristocracia revela-se dependente da encenação contínua de uma grandeza já morta. Dickens construía nessa imagem uma tragédia melancólica sobre o tempo, o abandono e a incapacidade de aceitar a realidade. «Savage House» transforma o mesmo mecanismo numa farsa cruel e histérica. O banquete não serve para celebrar nada; serve apenas para prolongar a ilusão de relevância social de uma família já condenada. A casa inteira existe num estado de suspensão semelhante ao de Satis House: um espaço onde o ritual persiste mesmo depois de o sentido ter desaparecido. Também aqui o filme dialoga indirectamente com Dickens na forma como apresenta a sociedade britânica como máquina de representação. Em “Grandes Esperanças”, Pip aprende gradualmente que a respeitabilidade social assenta em ficções frágeis e hierarquias arbitrárias. Em «Savage House», essa conclusão já é assumida desde o início. Ninguém acredita verdadeiramente na estabilidade do sistema aristocrático, mas todos continuam a desempenhar o papel exigido, porque deixar de o fazer significaria reconhecer o colapso definitivo da ordem social. O jantar que nunca acontece torna-se assim o equivalente grotesco do casamento que nunca se realizou: um ritual vazio que persiste apenas porque as personagens já não conseguem imaginar-se fora dele.

          Visualmente, Glanz demonstra competência evidente. A fotografia utiliza a luz das velas de forma quase obsessiva, procurando uma proximidade estética com «Barry Lyndon». Contudo, essa influência pesa demasiado sobre o filme. Em muitos momentos, «Savage House» parece menos interessado em construir uma linguagem própria do que em citar modelos prestigiados do cinema de época europeu. O mesmo acontece com a banda sonora, que sublinha excessivamente o caos e a ironia das cenas, como se receasse que o espectador não percebesse o tom satírico.

          No final, «Savage House» é um filme dividido entre ambição estética e preguiça conceptual. Quer desmontar os mecanismos de poder da aristocracia inglesa, mas fá-lo através de fórmulas já amplamente codificadas. Quer denunciar a monarquia, mas sente simultaneamente nostalgia pelos seus fantasmas derrotados. Quer ser ferozmente moderno, mas depende em excesso de referências prestigiadas do passado. Há inteligência suficiente para impedir o desastre, sobretudo graças às interpretações centrais de Richard E. Grant e Claire Foy, mas falta-lhe verdadeira capacidade de surpresa. Tal como a pera da cena inicial, o filme esforça-se por esconder a podridão sob uma superfície elegante. A diferença é que, aqui, o espectador percebe demasiado cedo o lado estragado da fruta.

© Courtesy of Paramount Global Content Distribution

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