Não Olhem Para Cima

NÃO OLHEM PARA CIMA

NÃO OLHEM PARA CIMA

Parece impossível acreditar que a premissa de «Não Olhem para Cima» (2021) surgiu num período pré-Covid. O diálogo da longa-metragem é familiar à realidade que temos experienciado desde 2020, mas que, a bem da verdade, tem sido um lugar-comum há algum tempo, intensificado com a emergência das redes sociais. O realizador e argumentista Adam McKay, que já em «A Queda de Wall Street» (2015) falou verdade a mentir, volta, na nova aposta da Netflix, a utilizar a sétima arte como um espelho crítico do real, com um lado cómico e surreal muito presente.

Não estamos a falar de uma obra consensual, mas não seria esse o objetivo de McKay. No entanto, será necessário desvalorizar alguns detalhes para analisar «Não Olhem para Cima» (2021) como um todo; mais do que as opções criativas relativamente à storyline, o filme vale pela problematização percetível através do conflito narrativo que é criado. Com particular destaque para as questões climáticas, e para a forma como os políticos têm atuado (ou não) em relação às mesmas.

Com Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence a um bom nível, além de um elenco de estrelas que integra nomes como Cate Blanchett, Jonah Hill, Mark Rylance, Mark Rylance ou Timothée Chalamet – entre outros –, é em Meryl Streep que reside a maior responsabilização da trama. A versátil e premiada atriz é a presidente dos Estados Unidos, uma líder populista que faz escolhas duvidosas e, com isso, coloca o futuro da Humanidade a prémio. O seu caráter dúbio é suportado pelo efeito “matilha” social, acrítico, que desvaloriza o conhecimento científico em prol da ilusão das massas. E nem os media escapam à lente de McKay.

Tal como acontece em séries como «Years and Years», Adam McKay assume um papel de futurologista para avaliar o que esperaria a população mundial numa situação de iminente Apocalipse. Embora entregue um argumento cómico, exagerado e, a espaços, leviano, a verdade é que a base da longa-metragem é mais complexa do que aparenta à primeira vista. E é nessa camada, por vezes subentendida, que está a principal mais-valia de todo o filme. Levantar esse véu pode, e vai, fazer toda a diferença.

Longe vai o tempo em que o futuro era algo tecnológico, mágico e inovador – onde as personagens se movem em carros voadores e a ciência é o motor de toda a sociedade. É certo que continua a estar presente noutras obras, mas há uma imersão cada vez mais consistente num lado menos bonito: a apatia com que a sociedade encara o seu fim e escolhe o caminho mais fácil – o da ignorância. Algo que, embora tenha raízes em filmes tão variados como «Escândalo na TV» (1976) ou «Terra de Idiotas» (2006), se tem tornado uma tendência artística no pequeno e grande ecrã.

Esse crescimento levanta depois outra questão que tem peso na avaliação de McKay: será que o realizador entrega algo de novo? Será que «Não Olhem para Cima» (2021), cujo título ilustra a mensagem política de Orlean (Streep), tem a capacidade de construir uma trama à altura da premissa que lança? A resposta é subjetiva, já que está na exigência de cada elemento da audiência.

Título original: Don’t Look Up Realização: Adam McKay Elenco: Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Cate Blanchett, Timothée Chalamet, Jonah Hill, Rob Morgan, Ron Perlman Duração: 138 min EUA, 2021