Como melhor percorrer a vivência de um homem homossexual não-assumido na década de 1990 do que através do olhar de um polícia à paisana? Em «Incógnito», a metáfora do mergulho num estado de permanente vigilância é exacta mesmo sem o formato pixelizado de vídeo Hi-8 a ser usado como manifestação física do estado emocional do seu protagonista. Lucas (Tom Blyth) é o polícia que se apaixona por Andrew (Russell Tovey), depois de Andrew cair na armadilha de Lucas durante uma operação policial, que tem como alvo apanhar homens homossexuais cruising em casas de banho de centros comerciais em Syracuse, Nova Iorque. A libertação de Andrew daquele jogo entre predador e presa dá início ao retrato auto-reflexivo de Lucas, o polícia e o homem, face às regras de cumprimento da lei pelas quais se regia até então.
Desde a sua estreia no Festival de Sundance em 2025, «Incógnito» fez-se símbolo pop do cinema queer. Mas deve também ser celebrado por ser o filme-estreia de Carmen Emmi. «Incógnito» é um motor de empatia, entre a sensibilidade do drama identitário e a influência do estudo de personagem aninhado dentro dos thrillers erráticos da década de 1970 no cinema norte-americano. Vivemos na pele de Lucas, que se auto-examina com a ajuda de Andrew e do fervilhar emocional da relação que rapidamente se desenvolve entre os dois. Com o avançar do filme, os muros da repressão social vão-se deslocando e a batalha torna-se dilacerante.
Do início ao fim, o retrato é crestante. A luta de um homem que viola a sua própria identidade, que é o seu próprio opressor, que vive sufocantemente escondido de si mesmo. E as representações são sólidas, com a química entre os dois actores principais a anunciar-se de forma inesperada. Pena como nada mais existe para lá desta centrifugação de desejo e vergonha. Tanto borbulha à superfície, a nível sensorial, que seria de esperar que haveria mais nesta história da criminalização da diferença. Enquanto peça atmosférica que é, merecia uma narrativa mais encorpada, em vez de sinais e padrões, mas talvez esse abandono se deva em parte à sua independência. Esta é definitivamente uma primeira longa-metragem, feita com um baixo orçamento.
Em retrospectiva, conduz a textura granosa da nostalgia e do sonho, aponta para as elipses narrativas da ansiedade inflamável: vozes sussurradas, palavras repetidas, possíveis olhares que desmascaram, esta que é claramente uma história pessoal (tendo em conta a propulsão com que está escrita) que anseia por São Francisco, a meca da liberdade. Mesmo nos momentos em que não convence inteiramente, o filme é sempre uma evocação sobre o desespero de não ser possível viver no tempo presente, a agir e reagir em consonância com o corpo. Carmen Emmi tem luz verde para uma carreira. Não esqueceremos o seu nome.
TÍTULO ORIGINAL: Plainclothes REALIZAÇÃO: Carmen Emmi ELENCO: Tom Blyth, Russell Tovey, Maria Dizzia, Amy Forsyth ORIGEM: EUA, Reino Unido DURAÇÃO: 97 min. ANO: 2025

