“Donde é que surgem as histórias” é a interrogação acutilante deixada neste trabalho de Frances O´Connor. «Emily» leva-nos às vivências da autora do intemporal “Monte dos Vendavais” e ao contexto familiar e social gestionário da obra consagrada.
Orfã de Mãe e com uma educação austera e tradicional, Emily cedo se destaca pela sua singularidade e independência espiritual, ávida de libertar-se dos espartilhos da igreja e dos costumes rígidos da época. Protagonizada por Emma Mackey, numa composição inteligente e segura, a jovem Bronté confronta as suas dúvidas metafísicas com o recém-chegado pastor William, bonito e confiante, pleno de certezas. O ensino da língua francesa será o pretexto para gerar uma relação tensa e apaixonante, ou não fosse o francês a gramática da paixão. Sonhadora e intensa, Emily é um raio de luz na cinzenta comunidade que a rodeia, não deixa de cumprir as tarefas que lhe são atribuídas na casa de família mas imagina outros mundos, outras vidas e histórias que ainda ninguém contou.
Filmado com elegância e recheado de planos surpreendentes numa mise en scéne equilibrada, «Emily» é um retrato impressivo duma jovem em busca de si mesma e da melhor forma de exprimir a sua vulcânica personalidade. O resultado desse percurso está inscrito na obra «O Monte dos Vendavais», legado que concedeu a uma sociedade incapaz de a compreender, convertendo-se, depois, em obra imprescindível pelas gerações que lhe sucederam. É uma pequena pérola, eivada de sensibilidade feminina, sobriedade britânica e intensidade típica do romantismo, o movimento estético que tantos escritores e pensadores inspirou. A descobrir numa sala perto de si.
Título original: Emily Realização: Frances O’Connor Elenco: Emma Mackey, Oliver Jackson-Cohen, Fionn Whitehead Duração: 130 min. Reino Unido/EUA, 2022
[Texto publicado originalmente na Revista Metropolis nº93, Maio 2023]
https://www.youtube.com/watch?v=9XAtR-QSu3g&t=4s
