Joia da coroa da chamada “trilogia de Oslo”, composta por «Sex» e «Love», «Dreams» valeu a Dag Johan Haugerud o Urso de Ouro no último Festival de Berlim, sem que ninguém tivesse antecipado tal distinção. Porquê? Porque num tempo em que os mais prestigiados festivais de cinema tentam gerir palmarés entre a dimensão política dos filmes, o seu efeito de novidade/choque e o cinema puro e simples que possam conter, raramente o último aspeto pesa mais na equação. Daqui entenda-se que «Dreams» não é o tipo de filme vencedor a que fomos habituados nos últimos anos: não tem uma evidente carga política, muito menos qualquer estratégia de provocação, é “apenas” cinema que se engrandece através de uma sensibilidade notória, um modo inesperado de transformar sentimentos passageiros num épico intimista.

É, aliás, por uma bela descrição das nuvens – capaz de trazer à memória tanto os quadros de Constable como um pequeno livro de Goethe, “O Jogo das Nuvens” – que entramos no espaço interior de Johanne, uma adolescente pronta a narrar o “acontecimento” da sua vida, transposto para vocábulos que tentam aproximar o espectador (ou leitor?) da sua máxima intensidade. Grande parte de «Dreams» passa por essa sobreposição da voz em off da narradora e imagens que sustentam o movimento das palavras. Mas não se fica pelo tom comum da descoberta sensorial. Da Noruega chega-nos uma delicadíssima malha de aurora romântica, que põe o cinema ao serviço da textura sentimental.

Acontece que Johanne se apaixona pela sua nova professora de francês, dando por si a cruzar uma atração muito física com detalhes marcantes de um romance que leu recentemente, como se realidade e ficção se aliassem para proporcionar a fórmula perfeita de autoficção… No papel, «Dreams» pode parecer muito fácil de encaixar na categoria do coming-of-age, versão norueguesa. Mas Dag Johan Haugerud mostra um pouco mais de ambição: é tão meticuloso no processo emocional, e nas sugestões da sua leitura, que nada fica ao acaso nesta magnífica viagem de autoconhecimento; com uma não menos magnífica sequência de mapeamento afetivo da cidade de Oslo, enquanto carta geográfica de um primeiro amor.

O filme acabaria bem no momento em que a questão passa a ser a publicação ou não dos escritos de Johanne à volta desta experiência intensíssima (para ela). E pode dizer-se que há como que um “segundo filme” centrado na reação, muito contemporânea, dos adultos ao texto da rapariga – no caso, as reações da mãe e da avó (esta última escritora), que fornecem toda uma análise sociológica, ao estilo de outro badalado título norueguês, «A Pior Pessoa do Mundo». Porém, essa segunda camada, que intelectualiza aquele gesto literário suavemente febril, acaba por revelar-se um complemento rico, uma estendida nota de ironia, numa aventura íntima de linguagem e encantamento urbano.

TÍTULO NACIONAL: Dreams TÍTULO ORIGINAL: Drømmer REALIZAÇÃO: Dag Johan Haugerud ELENCO: Ella Øverbye, Ane Dahl Torp, Selome Emnetu ORIGEM: Noruega DURAÇÃO: 110 min. ANO: 2024

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