«10.000 A.C.» é uma obra primitiva não por se desenrolar no período Pleistoceno, mas por ser supérflua a nível de enredo e interpretações. A tentativa de se firmar como objeto claramente ficcional, mas com intenções pseudo-documentais, resulta numa aventura disfuncional que se perde em noções didáticas. Tenta-se lecionar o espectador para os modos de vida dos seres e criaturas deste período, criando graves incongruências quando os humanos têm de ser mais sofisticados. Vejam-se os diálogos entre as diferentes tribos, exercícios penosos que chegam mesmo a ser hilariantes sem que esta fosse a intenção dos autores. O argumento concebeu diferentes estágios de regressão e evolução da inteligência dos personagens consoante as circunstâncias dramáticas. É complicado acreditar que os mesmos personagens que efetuam emboscadas aos mamutes não saibam estabelecer dois dedos de conversa sem metáforas pelo meio. A própria narração, a cargo do veterano Omar Sharif, é em tudo pré-histórica.

«10.000 A.C.» não deixa de ser uma produção de grande escala, foi rodado em África e na Nova Zelândia, encena um épico de aventura em paisagens exóticas que vão ser atravessadas por D’Leh (Steven Strait) que tenta resgatar Evolet (Camilla Belle), a sua paixão de infância, a relação adquire contornos mitológicos num mundo que se prepara para entrar noutra fase evolutiva, a comunhão de diferentes povos é exemplo disso mesmo.

 Esta fórmula de entretenimento é concebida por Roland Emmerich, realizador de filmes catástrofe, sejam os intervenientes aliens ou forças da natureza, ele é redundante, mas domina os principais ingredientes de um blockbuster. A realização cúmplice de um argumento que não levanta suspeitas lança o espectador para os diversos quadros de acção, das montanhas até aos desertos, passando pelas savanas. No clímax desta viagem, ficam também as obsessões deste cineasta pelos triláteros. Os animais CGI são mesmo a única companhia fiável, embora em jeito de caricatura, mas tudo o é nesta produção, carregam a longa-metragem às costas, intervêm sem excepção nas melhores sequências, Karen Goulekas foi a responsável por estes efeitos visuais.

Emmerich sabe manipular as grandes sequências com referência para o final apocalíptico, mas no que toca à direção de actores não surte qualquer faísca nas suas capacidades de encenação. O registo à beira do cataclismo deveria ser menos rudimentar, restando aos espectadores o espectáculo visual.

[Crítica originalmente publicada a 13 de Maio de 2008 no site Cinema2000]

Título original: 10,000 BC Realização: Roland Emmerich Elenco: Camilla Belle, Steven Strait, Marco Khan, Cliff Curtis, Omar Sharif, Joel Fry Duração: 109 min. EUA/ África do Sul/ Nova Zelândia/Alemanha, 2008

Estreia dom 03-08-2025 21:30 Canal HWD

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