CALL GIRL

CALL GIRL

Uma investigação criminal desemboca numa investigação de corrupção, tudo o que mexe com o dinheiro é um caso bicudo, esta é a simples premissa que vai preencher duas horas de um registo complexo recheado de boas interpretações com diálogos deliciosos numa obra que aproxima o vasto público ao cinema português.

A surpresa inicial está na montagem da trama, três personagens estão no centro da história, começam distantes e colidem próximo do desfecho. Os intervenientes surgem em cena com a sua narrativa pessoal, Maria (Soraia Chaves) está no centro da trama no papel de uma call girl que faz tudo, um presidente de câmara (Nicolau Breyner) cheio de convicções que as perde quando conhece Maria e um inspector (Ivo Canelas) com adrenalina a mais, em comum todos possuem o desejo de alcançar algo que não têm nas suas vidas. O registo faz-se sem pressas desenhando bem os personagens e cada um dos seus mundos, quando as interacções se iniciam sabemos perfeitamente os movimentos de cada peça num xadrez bem próximo da realidade. Os personagens prendem e evoluem de uma forma estoica, não há desvios, estão fiéis à narrativa sem precisar de sacar coelhos da cartola.

As interpretações e a capacidade de direcção de actores vem ao de cima nas performances muito satisfatórias e sobretudo na transformação de Soraia Chaves, está muito bem para além das insólitas conotações que trazia desde «O Crime do Padre Amaro». A call girl é uma personagem gélida no seu âmago, figura altamente céptica, onde o amor e as relações são somente uma transação económica. A interpretação marca o filme, não perde o tino em nenhum momento, a personagem não tem pontos fracos e demonstra sensualidade e frieza profissional, vestida ou desnudada é uma musa. Apenas por escassas ocasiões vemos a verdadeira Maria, quando confronta Vasco a capa de prostituta fina desaparece revelando uma face inocente mas é apenas uma lasca e um mérito de quem interpreta e comanda a cena. A actriz está longe de ser apenas uma comodidade ou um objecto puramente sexual na linha, soube utilizar esse facto a seu favor e com a destreza do realizador surge aqui como uma actriz segura.

Soraia Chaves e Nicolau Breyner


Joaquim de Almeida encaixa-se perfeitamente no papel de manhoso da alta roda, hilariante está o ministro da saúde (Virgílio de Castelo), não sabemos se era esta a intenção do realizador mas é impossível não se soltar uma valente gargalhada perante um sotaque e os maneirismos de tio betinho por parte do senhor ministro, são cinco minutos em grande forma. É nestes pequenos papeis com bons desempenhos que o painel social se completa em pleno, veja-se o director da P.J ou o parceiro de Madeira. Alguns personagens são acessórios, embora não estejam mal em cena, estão algo perdidos no filme, caso de Jacinto (Raul Solnado). «Call Girl» soube utilizar a seu favor a linguagem brejeira, selando os diálogos que podiam cair no vazio, vende muito bem a narrativa, incutindo humor com trocadilhos corriqueiros que mais uma vez trazem o público para próximo da história.

A duração é algo excessiva provocando um efeito de arrastamento no último terço retirando algum factor de espontaneidade ao enredo. É interessante a revelação da forma nua e crua que Maria detém sobre o conceito de felicidade. O luxo, o poder e o dinheiro andam sempre de mãos dadas, o guarda-roupa e adereços acompanham bem essa encenação.

«Call Girl» agarra-se de unhas e dentes à imagem da actriz Soraia Chaves (o poster do filme é memorável), é um filme dela mas reserva-nos um argumento sólido, plausível e com um apelo às consciências afirma-se despretensioso e inspira-se na nação. Ataca o problema da corrupção e das incongruências de um sistema sem fazer disso uma bandeira é um filme de pessoas e das suas ambições umas monetárias outras amorosas mas no fundo é um retrato em que todos querem o lucrar algo.

«Call Girl» é um exemplo da possibilidade de produzir em Portugal para além dos nichos, numa obra comercial e inteligente com uma produção com qualidade que merece espectadores, certamente para atestar um cliché raramente aplicado ao cinema comercial português, o que é nacional, desta vez, é bom.

Título Original: Call Girl Realização: António-Pedro Vasconcelos Elenco: Soraia Chaves, Ivo Canelas, Nicolau Breyner. 145 min. Portugal, 2007

[Texto originalmente publicado a 27 de Dezembro de 2007]

*«Call Girl» está em exibição na HBO Portugal

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