A comédia dramática «Big Mood – Oito ou Oitenta» chega (finalmente) ao público nacional, via RTP Play, quase um ano e meio depois de estrear no Reino Unido. Criada por Camilla Whitehill, a série é protagonizada por Nicola Coughlan (papel que lhe valeu a nomeação aos BAFTA) e por Lydia West.
A vida de duas amigas na casa dos 30 anos, que tentam superar as dificuldades da vida adulta em Londres. «Big Mood» centra o foco em Eddie e Maggie, esta última diagnosticada com uma doença do foro mental. Na relação, Eddie (Lydia West) é a cuidadora, Maggie (Nicola Coughlan) a que é cuidada e que tenta gerir um caos pessoal quase impossível de domar. Os papéis estão definidos, mas nem por isso trazem tranquilidade a ambas as mulheres. O verniz estala, à medida que as exigências, as promessas quebradas e as desilusões veem à tona.
A amizade no feminino é o centro emocional de «Big Mood». Não que a série britânica, estreada no Channel 4 em março de 2024, se deixe mergulhar demasiado no emocional. Apesar dos temas de difícil digestão – como a doença mental e a forma como o estigma afeta as relações pessoais e profissionais –, «Big Mood» vem à tona com um humor ácido (e tipicamente britânico) que constrói leveza como escape à tragédia pessoal.
O tema da amizade entre mulheres não é propriamente inovador no pequeno ecrã. Vemo-lo em «O Sexo e a Cidade», «Girls» ou «Broad City», por exemplo. Mas Camilla Whitehill, criadora e argumentista de «Big Mood» adiciona-lhe camadas de complexidade e vulnerabilidade. À medida que, para o espetador, a doença mental de Maggie se torna mais evidente e a amizade com Eddie parece um terreno inclinado, é difícil escolher lados ou apontar culpados. E, na verdade, sofremos pelas duas; pela amizade que existe, mas que falha no seu lado pragmático; pelo egoísmo que surge quase como inevitável; porque, tal como no mundo real, nem sempre as boas intenções são suficientes.
Tudo isto dá a «Big Mood» um lado franco e autêntico, longe de grandes romantizações e discursos. Tal como as suas protagonistas, «Big Mood» vive também de amizades atrás das câmaras. Camilla Whitehill construiu o papel de Maggie à medida da sua amiga de longa data, Nicola Coughlan (que chegou ao estrelado mundial via Netflix, primeiro com «Derry Girls» e depois com «Bridgerton»). E em boa hora o fez. Coughlan navega como ninguém no pior e melhor de Maggie. Dá-lhe coração e humanismo, sem cair no facilitismo de desculpabilizações ou diabolizações. Ao longo dos episódios, é uma interpretação crua e pungente, que mistura comédia, tragédia, ternura e verdade (que demonstra, mais uma vez, a versatilidade da atriz irlandesa). E que valeu a Coughlan a nomeação aos BAFTA 2025, em Melhor Atuação Feminina em Comédia.
A chegada da série à RTP Play acontece quando, em Londres, a segunda temporada de «Big Mood» está já em produção, com lançamento previsto para 2026. Continuará, previsivelmente, a explorar o ângulo slice of life, sem grandes fanfarras, nem foguetes. Até porque o seu charme está, indubitavelmente, em todas as entrelinhas que unem o “oito ao oitenta”.

