Depois de «Pobres Criaturas» (2023) e «Histórias de Bondade» (2024), o compositor inglês Jerskin Fendrix volta a alinhar-se a Yorgos Lanthimos em «Bugonia». E parece estarmos a assistir ao nascimento de uma nova e especial relação simbiótica entre realizador e compositor. Veja-se só o processo de composição da banda-sonora e a liberdade criativa permitida a Fendrix. O contrato previa que Fendrix compusesse toda a partitura, durante o espaço de um ano, inspirado, apenas, em três palavras/ideias: abelhas, cave e nave espacial. Só depois lhe seria permitido ler o guião e ver o filme. Inusitado, sem dúvida. Inspirado nestas três ideias, Fendrix assina uma fabulosa peça erudita, composta por uma série de catorze quadros impressionistas para uma orquestra sinfónica de noventa músicos, gravados durante dois dias pela London Contemporary Orchestra sob direção do próprio. Segundo a explicação do compositor, a música associada ao conceito de “nave espacial” é puramente orquestral ao contrário da música ligada à ideia de “cave” construída através do recurso ao sintetizador. Já o conceito de “abelha” acaba por ser uma conjunção dos dois (orquestra e elementos sintéticos).
Um facto interessante é que no filme, a música, globalmente, acaba por servir como um espelho da personalidade esquizofrénica da personagem de Teddy (Jesse Plemons), um paranoico obcecado com teorias da conspiração. Ainda que, de quando em quando, convide à introspeção e à meditação (Bees, Spaceship), a partitura de «Bugonia» é, na sua essência, pulsante, eruptiva, desafiando o ouvinte com as suas ricas combinações tímbricas e as suas densas texturas orquestrais (Star Saliva / Industry, “Tell Teddy I’m Sorry”, Grand Tango, Ambulance Exit, Saliva Antifreeze). Escutá-la é uma verdadeira experiência extrassensorial. É música de “outro mundo”, não estivéssemos perante sonoridades “estranhas” que parecem evocar entidades alienígenas. E para devidamente apreciá-la deverá ser ouvida de forma autónoma, neste álbum digital editado pela Milan Records em colaboração com a Sony Music.
Num registo bem diferente de «Bugonia», Fendrix acaba também de lançar o seu segundo álbum de estúdio «Once Upon A Time… In Shropshire» baseado nas suas memórias de infância. Fendrix é decididamente um compositor diferenciado que se vai afirmando na sétima arte sob a tutela de Lanthimos. Depois da nomeação ao Óscar em 2023 pela partitura de «Pobres Criaturas» é mais do que provável que, com música deste calibre, venha a colecionar aqui uma segunda nomeação. Incluída no álbum está também a versão de Marlene Dietrich de Where Have All The Flowers Gone? de Pete Seegar, tema guardado para a sequência final da película. A Waxwork Records prepara a sua edição em vinil estando previsto o seu lançamento para meados de dezembro.




