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Algo Novo, Algo Velho, Algo Emprestado

“Três Filmes, Três Países” foi a designação dada ao ciclo de longas-metragens produzidas entre 2023 e 2025 (com a participação da produtora portuguesa Oublaum Filmes). São elas: «La Memoria de Las Mariposas» («A Memória das Borboletas»), 2025, da peruana Tatiana Fuentes Sadowski, «Ming Tian Bi Zuo Tian Chang Jiu» («Falta Muito Para Amanhã»), 2023, do singapurense Jow Zhi Wei, e «Algo Viejo, Algo Nuevo, Algo Prestado» («Algo Novo, Algo Velho, Algo Emprestado»), 2024, do argentino Hernán Rosselli.  

Destaque final para a última proposta de programação, segunda de natureza ficcional (não obstante usar em alguns momentos uma linguagem próxima do documentário), «Algo Viejo, Algo Nuevo, Algo Prestado» (referência a uma superstição que manda que uma noiva deve usar algo novo, algo velho e algo emprestado para afastar o mau-olhado) leva-nos até ao submundo das apostas clandestinas e do círculo íntimo de uma família que delas vive recolhendo importantes somas de dinheiro.

Escusado será dizer que estamos a falar de uma actividade criminosa de contornos mafiosos (com delimitação de zonas de influência, como as que reconhecemos nos meandros dos gangsters de ontem, de hoje e das mais diversas nacionalidades) onde a corrupção material e moral prevalece como moeda dominante para comprar e vender favores, incluindo os da polícia. Todos os marginais (não há outra maneira mais subtil de os classificar, apesar de darem ares de gente simpática) exercem as suas funções a partir de uma casa como qualquer outra e num quadro aparentemente normal de relações familiares. Na verdade, não será bem assim e, apesar das rotinas e das medidas de segurança, vivem no permanente receio de ver o seu negócio denunciado e destruído pela força bruta das investidas policiais.

Entretanto, uma das componentes que o realizador e argumentista controla com grande saber desde o início acaba por ser a mais inquietante e aquela que determina o pulsar da narrativa nesta história de angariação ilícita de dinheiro fácil.

Estamos a falar da normalidade com que as operações clandestinas dos corretores de apostas se sucedem (após a morte do patriarca do clã Felpeto, a sua mulher ficou com a responsabilidade de liderar o grupo e impor a lei das ruas aos demais concorrentes), normalidade que se cruza com inquietação no papel desempenhado pela filha, Maribel (interpretada por Maribel Felpeto). Esta, ao procurar “limpar” o rasto deixado pelo espólio do pai, descobre documentos (entre outros, vídeos e fotografias) que pouco a pouco adensam a suspeita de que ele atraiçoara a mãe, podendo mesmo existir algures um rapaz seu meio-irmão. Será aqui que a vertente documental invade de forma intermitente a acção e que brilha o muito seguro exercício de montagem de Jimena García Molt, Federico Rotstein e do próprio Hernán Rosselli. E não será só a protagonista Maribel a dar cartas.

Na equação final entra de forma muito sólida a presença determinante daquela que representa a outra face da mesma moeda, a matriarca Alejandra (Alejandra Canepa), dona e senhora do jogo que vive de outros jogos (e das manobras de sobrevivência para o manter), mentora de cartadas arriscadas que se jogam dentro e fora de portas.

Na found-footage das VHS que nos remete para o passado, a mulher macho aparece como a mulher fatal, a que jurou na ligação matrimonial e de modo profano pelo credo do “algo novo, algo velho e algo emprestado”. Mas as forças do enguiço e do mal não se compadecem com lengalengas ou crenças protectoras imbuídas de irracionalidade. Assim sendo, o real concreto do quotidiano irá explodir numa orgia de violência, particularmente na derradeira sequência e com uma brutalidade que, sejam ou não verdadeiras as imagens que vemos, dão bem conta da fragilidade de um modo de vida que só no plano da ilusão não parecia caminhar sobre o fio da navalha.

Dos projectos que a Oublaum Filmes nos propõe no ciclo TRÊS FILMES, TRÊS PAÍSES, este foi o que mais me entusiasmou. Bem dirigido, com boas interpretações por parte de protagonistas e secundários, fotografia, som e montagem a demonstrarem a competência necessária para sustentar as muitas circunvoluções da acção, cuidada reconstituição de época e dos ambientes onde circulam as personagens desta história, e um ritmo adequado que nos dá o lado negro e perturbador das rotinas de uma certa “classe média” que se alimenta do modus operandi subjacente a uma certa criminalidade organizada.    

Título original: Algo viejo, algo nuevo, algo prestado
Título internacional: Something Old, Something New, Something Borrowed
Realização: Hernán Rosselli
Elenco: Javier Abril, Marcelo Barbosa, Alejandra Cánepa
Duração: 100 min.
Argentina, 2024

João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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