Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Atriz (Fernanda Torres), «Ainda Estou Aqui» aplaca uma carência histórica do cinema brasileiro em relação a filmes de ficção que narram as brutalidades estatais cometidas entre 1964 e 1985, quando os generais tomaram de assalto o governo do seu país e suspenderam a democracia. Os argentinos viveram uma situação similar, igualmente sangrenta, e a exorcizaram, no cinema, com «A História Oficial», de 1985, e «Argentina, 1985», de 2022, com direito a outros sucessos no caminho. O Brasil reagiu cinematograficamente ao avanço dos comandantes de farda verde oliva no ato do golpe com «O Desafio» (1965), de Paulo Cézar Saraceni (1933-2012). Uma nova reação de peso brotaria das telas em 1982, com direito a uma indicação ao Urso de Ouro de Berlim e 1,3 milhão de ingressos vendidos em circuito: «Pra Frente, Brasil», de Roberto Farias (1932-2018). Cerca de 15 anos depois, Bruno Barreto conquistou as telas com «O Que É Isso, Companheiro?», que também concorreu na Berlinale, descrevendo o sequestro do embaixador americano (vivido por Alan Arkin) como rechaço à governança militar. Fora isso, desde os anos 1980, a realizadora Lucia Murat fez dos Anos de Chumbo o assunto de seus dramas, incluindo «Quase 2 Irmãos» (2005) e o recente «O Mensageiro» (2023), e o ator Wagner Moura arriscou-se (muito bem) na realização relembrando o período em «Marighella» (2019). No documentário, «Cabra Marcada Para Morrer», de Eduardo Coutinho (1933-2014), e toda a obra de Silvio Da-Rin («Hécules 56») expuseram toda a violência das Forças Armadas nos 21 anos em que elas governaram um dos maiores territórios da América do Sul. Apesar desse sortimento, faltava uma catarse… sobretudo de retumbância popular, que fosse capaz de reverberar pelo mundo. Coube a Walter Salles (do belíssimo «Abril Despedaçado») resolver a questão.
Duas décadas depois da consagração mundial de «Diários de Che Guevara» (2004), o realizador volta a arrebatar holofotes, disparando como potencial concorrente ao Óscar ao revisar feridas ainda abertas no organismo político de sua pátria natal. Apoiado na montagem impecável de Affonso Gonçalves (parceiro habitual de Todd Haynes, Jim Jarmusch e Ira Sachs), «Ainda Estou Aqui» fala do jugo ditatorial sob a ótica da saudade e da resiliência. O seu pavimento é o livro homónimo de Marcelo Rubens Paiva, centrado nos feitos da mãe do escritor, a advogada e ativista Eunice Paiva (1932-2018). O seu heroísmo foi o da autoimolação e o do combate: doou-se para dissipar névoas da tortura e das práticas de sumiço de ditos “subversivos”. Fernanda Torres revive a sua peleja com ardor. A atriz é filha da diva Fernanda Montenegro, que interpreta Eunice no fim da vida, na longa-metragem, fotografada pelo ás da luz Adrian Teijido («Medida Provisória») numa paleta de cores sóbria, coerente com a mirada realista de Walter.
Ambas as Fernandas filmaram com ele no passado. Torres estrelou duas longas rodadas por Walter em dupla com Daniela Thomas: «Terra Estrangeira» (1995) e «O Primeiro Dia» (1998). Já Montenegro estrelou «Central do Brasil» (1998), fenómeno de bilheteira ganhador do Urso de Ouro e do Globo dourado, indicado ao Oscar em 1999. As duas atrizes já haviam dividido as telas antes, contracenando em «Casa de Areia» (2005) e no especial «Lúcia e Gilda», da minissérie de TV «Amor e Sorte» (2020). A simbiose das duas é plena, mesmo no caso de «Ainda Estou Aqui», em que há um revezamento.

Responsável por um dos mais belos documentários de seu país, «Socorro Nobre» (1996), e, antes dele, por «Krajcberg – O Poeta dos Vestígios» (1987), Walter nunca se desligou da Não Ficção e trouxe dela dispositivos de investigação do real, como a incorporação de atores não profissionais e o interesse por arquivos, sobretudo fotos. Sempre existem fotografias nas suas histórias, em lugares de destaque. Registos fotográficos dos anos 1970 arrancam perplexidade e nostalgia de Eunice (e o nosso choro, na plateia) em «Ainda Estou Aqui». Esculpida por Torres no limite preciso do transbordamento, Eunice age em nome do amor… primeiro pelo marido que “sumiu” ao ser levado para depor… depois pelo ideal de um Brasil que não precisa mais de se silenciar, depois de sofrer com a repressão do Exército.
Fiel à literatura da qual é derivada, a trama escrita por Murilo Hauser e Heitor Lorega num argumento premiado no Festival de Veneza (onde «Ainda Estou Aqui» disputou o Leão de Ouro) abre com uma panorâmica da rotina feliz de Eunice. Ela vive no Rio de Janeiro da década de 1970 em estado de graça graças à sua adoração pelas suas filhas (Vera, Eliana, Nalu e Babiu) pelo filho (Marcelo) e pelo marido, Rubens Paixa, engenheiro e ex-deputado, interpretado por Selton Mello com delicadeza em grau máximo. A harmonia dessa mulher é interrompida bruscamente quando agentes à paisana levam seu companheiro para depor, sem explicações, e nunca mais dão notícias do paradeiro dele. A partir daí, ela precisa de estudar Direito para detonar a pólvora da indignação.

Meticuloso, talvez sob a influência do que aprendeu ao filmar o documentário «Jia Zhangke, Um Homem De Fenyang» (2014), Walter jamais deixou o pathos enrijecer a musculatura de «Ainda Estou Aqui» além da fronteira da comoção. Jamais resvala na frieza, mas não aquece a chama do que narra além dos limites da lucidez, pois essa é a arma de Eunice. Por isso, Fernanda Torres implode e nunca explode. Por isso, a fotografia de Teijido se mantém numa paleta de brandura, quase outonal, que só incorre em luzes primaveris na fase de maior alegria de um enredo passado nos anos 1970, em 1996 e 2014. O «Hanna K» (1983), de Costa-Gavras, é uma referência similar ao que Walter nos entrega agora, e pode ajudar a dar a seu regresso ao grande ecrã uma genealogia cinéfila onde repousar.
Produzido por Maria Carlota Bruno (de «No Intenso Agora») e Rodrigo Teixeira (de «A Vida Invisível» e «O Farol»), esse drama virou um êxito comercial imparável nas telas do Brasil, onde vendeu 2,5 milhões de ingressos em apenas um mês, coroado pelo Prémio do Público da Mostra de São Paulo. Brilhou ainda nos festivais de Toronto, San Sebastián, Nova Iorque e Marraquexe.
Título original: Ainda Estou Aqui Título internacional: I´m Still Here Realização: Walter Salles Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Valentina Herszage Duração: 136 min. Brasil/França, 2024

