A Grande Beleza

A GRANDE BELEZA

A GRANDE BELEZA

Na semana de pré-estreias dos Oscars que a Metropolis organizou, em colaboração com a Zon e os cinemas UCI, a sessão deste filme foi precedida de uma interessantíssima apresentação de Stefano Savio (um dos organizadores da Festa do Cinema Italiano, em Portugal). Situando o filme numa encruzilhada do presente histórico e do passado cinéfilo, o apresentador deixou a sugestão, porventura irónica, mas também amarga, de que «A Grande Beleza» será um filme mais fácil de ver fora de Itália do que no interior do seu próprio país… Afinal de contas, o desencanto existencial que perpassa pela personagem de Jep Gambardella (Toni Servillo), um incansável organizador/consumidor de festas “sociais”, corresponde a um sentimento visceral da sociedade italiana das últimas décadas.

Há, talvez, uma outra maneira de dizer isto. De facto, pela sua lógica de deambulação onírica e também através de um cruel cepticismo moral, «A Grande Beleza» apresenta-se como uma tentativa muito consciente de refazer, para o nosso séc. XXI, os fulgores do filme com que Federico Fellini condensou a vertigem italiana do princípio da década de 60: «Oito e Meio» (1960), em que o cineasta Guido Anselmi, numa emblemática composição de Marcello Mastroianni, terá sido, afinal, o primeiro antepassado cinéfilo de Jep.

Não creio que o trabalho de Sorrentino alguma vez se possa comparar ao de Fellini, quanto mais não seja porque este, mesmo nos mais delirantes artifícios da sua mise en scène, nunca cedia à facilidade de escolher a exaltação formalista contra as suas personagens (ou em vez delas). Em todo o caso, «A Grande Beleza» apresenta uma energia peculiar, por assim dizer, primitiva, apostada em resgatar o cinema italiano de uma lógica “ilustrativa” da vida social que, na prática, durante décadas, conferiu a muitas das suas produções uma passividade televisiva de crescente e penoso academismo (com excepções, claro, a começar por Nanni Moretti).

Sorrentino acredita, afinal, que há — continua a haver — no cinema italiano um sentido do espectáculo maior que a vida que, directa ou indirectamente, não pode ser separado dos tempos gloriosos dos estúdios da Cinecittà. Fellini, é bem verdade, viveu no interior desses tempos — Sorrentino, pelo menos, sabe que o seu desejo criativo provém da sua herança.

Título original: La Grande Bellezza Realização: Paolo Sorrentino Elenco: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Carlo Buccirosso, Iaia Forte Duração: 142 min Itália, 2013

[Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº17, Fevereiro 2014]